OS LIVROS QUE CONTAM MINHA HISTÓRIA
Denise Coutinho. Parece até nome de escritora, não é? Mas, ela era apenas ávida leitora. A conheci quando eu tinha 12 anos e ela 18. Éramos colegas de trabalho. Trabálhavamos na mesma padaria em que o movimento era tão fraco que não restava outra coisa a fazer a não ser ler. Eu, os meus quadrinhos, e ela os livros de Agatha Christie que trazia.
Como um pequeno cão que se aproxima de uma pessoa, me aproximei dela, enquanto ela lia um dos vários títulos da escritora inglesa e, timidamente, fiz menção de que queria ler também. Pra piorar a cena, ela estava sentada em um banco alto, que a deixava mais alta do que já era, em relação a mim.
Como quem acha que estava me fazendo um grande favor, Denise Coutinho - eu memorizei seu sobrenome porquê era o mesmo do técnico da seleção, na época, Cláudio Coutinho - me disse com toda a sabedoria que uma pessoa de 18 anos poderia ter:
- Eudes, isso aqui não é para você!
Não é preciso dizer que meu orgulho de um macho de 12 anos foi ferido por aquela insinuação de que eu não digeriria os escrito de Agatha Christie. Mas, tudo bem. Não era a primeira vez que me subestimavam, nem seria a última. Livros não eram nenhuma novidade para mim, srta. Coutinho.
Muito antes de atingir às 12 badaladas do relógio da vida, eu já lera bastante, e não estou falando apenas dos quadrinhos. E, como todo garoto (e garota) da época, tive como maior fonte de literatura a querida Coleção Vagalume. Me lembro bem de que o primeiro da coleção que tive a oportunidade de ler foi O Rapto do Garoto de Ouro.
O livro foi solicitado para um trabalho escolar e, quando vi a capa, me apaixonei de cara. Nunca um "dever" foi cumprido com tanto prazer. Descobria ali Marcos Rey, no que era na verdade o segundo livro de uma trilogia que começava com O Mistério do Cinco Estrelas e terminava com Um Cadáver Ouve Rádio.
A Coleção Vagalume não seguia um único rumo, ditado pelas modas lançadas por algum livro de sucesso, como é o caso de Harry Potter hoje em dia, que fez com que as livrarias fossem inundadas por livros de aventuras envolvendo magia. Não, a coleção envolvia os leitores em fantasia, ficção-científica, drama, aventura, e qualquer outro gênero que o público infanto-juvenil pudesse absorver.
Além de Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida era uma outra autora que eu devorava, com suas aventuras de Xisto ou Spharion. Seguir a coleção era quase como seguir lançamentos de quadrinhos, pois sempre haviam novas edições, com novas aventuras. Muitas vezes ia às livrarias como quem vai à banca de jornal. Vasculhar as estantes era algo mágico. A Editora Ática era sinônimo de diversão literária.
Obviamente, não existia apenas a Editora Ática dominando o mercado. Outras editoras também mantinham os olhos voltados para a gurizada que gostava de ler, mesmo que forçados pelos trabalhos escolares. E, foi em mais um trabalho escolar, que descobri o maravilhoso mundo dos livros da Ediouro.
A primeira vez que fui comprar um dos livros pedidos, eu devia ter uns 11 anos e fui, sozinho, até Duque de Caxias, apenas para me deparar com uma loja SÓ da Ediouro. Era o paraíso. Livros e mais livros colocados em pequenas estantes giratórias, todas de acrilico transparente, como se fosse vidro. A Loja TODA parecia ser de vidro. Para um pré-adolescente, aquilo era como estar dentro de um dos livros que tanto gostava.
Eu era tão vidrado em leitura que fui correndo comprar as Viagens de Gulliver na loja da Ediouro. Fui tão rápido que não me dei conta que o livro havia sido mudado para O Príncipe e o Mendigo. Mas, como se diz por aí, os males que vem pra bem, me fizeram ficar com dois grandes livros para ler, sendo que Viagens de Gulliver foi o que mais me marcou (e não estou falando dele ter caído da minha cabeça e me dado um galo).
Além dos autores estrangeiros a Ediouro dava destaque a muitos dos escritores brasileiros e li coisas que autor estrangeiro algum pensaria em escrever, pois tinha aquele "jeitinho brasileiro". Li Memórias de Um Cabo de Vassoura e o mais surreal ainda A Galinha Nanduca, onde uma penosa era caçada por todos porque se descobria que ela tinha dentes.
E, tanto da Editora Ática quanto da Ediouro li livros e mais livros aos quais perdi as contas. Até mesmo alguns indigestos para a minha idade, eu arrisquei, como as histórias do aventureiro espacial Perry Rhodan.
O tempo foi passando, eu crescendo e mudando os gostos literários para algomais denso. Não em sentido cultural, apenas no sentido de "textos não acompanhado de ilustrações", por assim dizer. Devo confessar aqui que nunca fui fã de literatura clássica brasileira e as poucas vezes que tentei ler, fosse em qualquer fase da minha vida, a linguagem arcaica, a qual você precisava usar um dicionário para saber o que os personagens estão dizendo, me dava dor de cabeça.
Também não atingi aquele ápice do gosto literário, ao qual chegam muitos, que é devorar livros de filosofia, de pensadores, anarquistas, ou qualquer literatura que me fizesse dormir enquanto lia. Nunca fui de Kafka, nem de Nietzsche, nem de um Kant, nem de outro. James Joyce eu mal sabia quem era, Jorge Amado, só conhecia das novelas. Então não me preocupava muito com eles. Era como se essa leitura fosse um restaurante refinado demais para o meu gosto por McDonalds.
Assim, sendo meu gosto amadureceu o suficiente apenas para que eu abandonasse as figuras que certos livros infanto-juvenis traziam, mas a idéia continuava a mesma, me divertir lendo. Qualquer coisa além disso só se fosse para os estudos ou a trabalho.
O que aumentava o meu gosto por literatura popular era justamente estar cercado de pessoas simples como eu, que tinham os mesmos gostos. Lembro de que em certa época eu li mais livros de terror do que leria em toda minha vida. Um deles, A Entidade, me deixaria tão abismado, principalmente por dizer se tratar de uma história real, como alegava o livro. Na esteira dele vieram A Profecia, Cemitério Maldito, Tubarão, Os Invasores de Corpos. Este último aliás, sentia um fascínio tão grande por ele, que o lia de tempos em tempos em várias fases da minha vida.
Livros que se tornaram filmes era uma constante, como se pode ver nos títulos acima. Mas, não cabiam apenas os de terror. Lembro de ter lido o livro que deu origem ao primeiro filme de Rambo, escrito por David Morrel, e descobri estupefacto que, na verdade, John Rambo morria no final, executado pelo Coronel Trautman. Li o excelente livro O Chefão, de Mario Puzo, que deu origem ao cultuado O Poderoso Chefão. E fiquei feliz de descobrir, anos mais tarde, que o escritor era um dos roteiristas do filme do Superman, de 1978.
Eu não lia, eu praticamente devorava os livros. E nada me era proibido, já que livros estão ali, e era só comprar ou pedir esmprestado. Os Sete Minutos era um chumaço que, por mais estranho que pareça, eu achava chato, mas algo me impelia a ler até o final, e o que hoje se chama "mindfuck" na internet, se aplica totalmente ao fim da história sobre um julgamento de estupro em que o julgado é um livro erótico chamado Os Sete Minutos, que é "acusado" de ter incitado o estupro.
Eu li O Ninja de Erik Van Lustbader e pensava, nossa, esse cara vai sair do livro, me pegar e me cortar ao meio. O vilão (o tal ninja do título) era assustador, muito mais que qualquer ninjazinho de filmecos de artes marciais de hoje em dia.
Li O Dia do Chacal sem me dar conta do tempo passar. Acompanhando cada passo do mercenário contratado para matar o presidente francês De Gaulle. A realidade era um spoiler sobre seu final.
Também me arrependi de certas leituras, como quem se arrepende de assistir um filme ruim. Aliás, a ironia de tudo, era que um do piores livros que já li, gerou um dos melhores filmes que assisti, Forrest Gump. Era como se tivessem pego apenas o personagem do livro e feito algo completamente diferente. Forrest Gump no programa espacial americano, junto com um gorila? O módulo espacial cai na selva e o gorila e a astronauta russa que acompanhava Forrest, viram amantes? Por favor!
Eu lia tanto que a própria leitura acabou sendo minha sina, quando comecei a devorar livros das Testemunhas de Jeová que encontrava com amigos, acabei me convencendo que eu devia seguir com eles. Isso decretou o fim de qualquer outro tipo de literatura, pois todo o resto era proibido, e apenas o que eles publicavam era o podia ser lido. Um prisioneiro que se deixou prender. Entrou no território inimigo e disse, levem-me. Sim, eu me envergonho disso.
Alguém que lia tudo que lhe caía nas mãos agora lendo apenas o que lhe davam nas mãos. Um longo período de 7 anos se seguiu para que com o tempo, eu me livrasse dos grilhões da censura religiosa e voltasse a ler o que eu quisesse. E voltei, e li e venci.
Obviamente a internet atrapalha bastante que se leia como eu lia antigamente, mas ainda assim, tenho lido coisas que gosto, livros que considero importantes e a cada dia adquiro mais e mais, mesmo não sabendo quando irei lê-los.
Sim, eu gosto de Dan Brown, com todas as contradições e falhas de seus livros. Li muito Harry Potter e me lembrei da época da Coleção Vagalume, mesmo não sendo a mesma coisa. Li vários livros de Michael Crichton, de quem me tornei fã depois de ler o primeiro Jurassic Park.
Enumerar e lembrar tudo que já li seria impossível. Recentemente li ótimos livros como O Cordeiro (uma sátira a história de Jesus Cristo) e O Homem no Castelo Alto, do aclamado Philip K. Dick.
E, numa espécie de fusão das duas mídias, quadrinhos e livros, estou lendo tardiamente A Guerra dos Gibis, que conta como os quadrinhos americanos chegaram ao Brasil. Aprendendo através de uma mídia tudo que não sabia sobre a outra. E totalmente bestificado enquanto leio.
E quanto à Denise Coutinho? Bom, ela acabou cedendo e me emprestou alguns títulos de Agatha Christie. Devido a ela me viciei na autora e li pelo menos metade ou mais da coleção. Acabou que minha querida colega de trabalho também foi pedra fundamental para meu gosto literário e, talvez por isso, eu lembre com tanto carinho dela até hoje e dessa pequena história que contei no começo.
No mais, os livros (assim como os quadrinhos), também moldaram o meu caráter, mesmo que eu precisasse insistir para que me deixassem ler até aqueles "que não eram para mim".





































































































