terça-feira, 8 de dezembro de 2009

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OS LIVROS QUE CONTAM MINHA HISTÓRIA

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Denise Coutinho. Parece até nome de escritora, não é? Mas, ela era apenas ávida leitora. A conheci quando eu tinha 12 anos e ela 18. Éramos colegas de trabalho. Trabálhavamos na mesma padaria em que o movimento era tão fraco que não restava outra coisa a fazer a não ser ler. Eu, os meus quadrinhos, e ela os livros de Agatha Christie que trazia.

Como um pequeno cão que se aproxima de uma pessoa, me aproximei dela, enquanto ela lia um dos vários títulos da escritora inglesa e, timidamente, fiz menção de que queria ler também. Pra piorar a cena, ela estava sentada em um banco alto, que a deixava mais alta do que já era, em relação a mim.

Como quem acha que estava me fazendo um grande favor, Denise Coutinho - eu memorizei seu sobrenome porquê era o mesmo do técnico da seleção, na época, Cláudio Coutinho - me disse com toda a sabedoria que uma pessoa de 18 anos poderia ter:

- Eudes, isso aqui não é para você!


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Não é preciso dizer que meu orgulho de um macho de 12 anos foi ferido por aquela insinuação de que eu não digeriria os escrito de Agatha Christie. Mas, tudo bem. Não era a primeira vez que me subestimavam, nem seria a última. Livros não eram nenhuma novidade para mim, srta. Coutinho.

Muito antes de atingir às 12 badaladas do relógio da vida, eu já lera bastante, e não estou falando apenas dos quadrinhos. E, como todo garoto (e garota) da época, tive como maior fonte de literatura a querida Coleção Vagalume. Me lembro bem de que o primeiro da coleção que tive a oportunidade de ler foi O Rapto do Garoto de Ouro.

O livro foi solicitado para um trabalho escolar e, quando vi a capa, me apaixonei de cara. Nunca um "dever" foi cumprido com tanto prazer. Descobria ali Marcos Rey, no que era na verdade o segundo livro de uma trilogia que começava com O Mistério do Cinco Estrelas e terminava com Um Cadáver Ouve Rádio.


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A Coleção Vagalume não seguia um único rumo, ditado pelas modas lançadas por algum livro de sucesso, como é o caso de Harry Potter hoje em dia, que fez com que as livrarias fossem inundadas por livros de aventuras envolvendo magia. Não, a coleção envolvia os leitores em fantasia, ficção-científica, drama, aventura, e qualquer outro gênero que o público infanto-juvenil pudesse absorver.

Além de Marcos Rey, Lúcia Machado de Almeida era uma outra autora que eu devorava, com suas aventuras de Xisto ou Spharion. Seguir a coleção era quase como seguir lançamentos de quadrinhos, pois sempre haviam novas edições, com novas aventuras. Muitas vezes ia às livrarias como quem vai à banca de jornal. Vasculhar as estantes era algo mágico. A Editora Ática era sinônimo de diversão literária.


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Obviamente, não existia apenas a Editora Ática dominando o mercado. Outras editoras também mantinham os olhos voltados para a gurizada que gostava de ler, mesmo que forçados pelos trabalhos escolares. E, foi em mais um trabalho escolar, que descobri o maravilhoso mundo dos livros da Ediouro.

A primeira vez que fui comprar um dos livros pedidos, eu devia ter uns 11 anos e fui, sozinho, até Duque de Caxias, apenas para me deparar com uma loja SÓ da Ediouro. Era o paraíso. Livros e mais livros colocados em pequenas estantes giratórias, todas de acrilico transparente, como se fosse vidro. A Loja TODA parecia ser de vidro. Para um pré-adolescente, aquilo era como estar dentro de um dos livros que tanto gostava.


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Eu era tão vidrado em leitura que fui correndo comprar as Viagens de Gulliver na loja da Ediouro. Fui tão rápido que não me dei conta que o livro havia sido mudado para O Príncipe e o Mendigo. Mas, como se diz por aí, os males que vem pra bem, me fizeram ficar com dois grandes livros para ler, sendo que Viagens de Gulliver foi o que mais me marcou (e não estou falando dele ter caído da minha cabeça e me dado um galo).

Além dos autores estrangeiros a Ediouro dava destaque a muitos dos escritores brasileiros e li coisas que autor estrangeiro algum pensaria em escrever, pois tinha aquele "jeitinho brasileiro". Li Memórias de Um Cabo de Vassoura e o mais surreal ainda A Galinha Nanduca, onde uma penosa era caçada por todos porque se descobria que ela tinha dentes.

E, tanto da Editora Ática quanto da Ediouro li livros e mais livros aos quais perdi as contas. Até mesmo alguns indigestos para a minha idade, eu arrisquei, como as histórias do aventureiro espacial Perry Rhodan.


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O tempo foi passando, eu crescendo e mudando os gostos literários para algomais denso. Não em sentido cultural, apenas no sentido de "textos não acompanhado de ilustrações", por assim dizer. Devo confessar aqui que nunca fui fã de literatura clássica brasileira e as poucas vezes que tentei ler, fosse em qualquer fase da minha vida, a linguagem arcaica, a qual você precisava usar um dicionário para saber o que os personagens estão dizendo, me dava dor de cabeça.

Também não atingi aquele ápice do gosto literário, ao qual chegam muitos, que é devorar livros de filosofia, de pensadores, anarquistas, ou qualquer literatura que me fizesse dormir enquanto lia. Nunca fui de Kafka, nem de Nietzsche, nem de um Kant, nem de outro. James Joyce eu mal sabia quem era, Jorge Amado, só conhecia das novelas. Então não me preocupava muito com eles. Era como se essa leitura fosse um restaurante refinado demais para o meu gosto por McDonalds.

Assim, sendo meu gosto amadureceu o suficiente apenas para que eu abandonasse as figuras que certos livros infanto-juvenis traziam, mas a idéia continuava a mesma, me divertir lendo. Qualquer coisa além disso só se fosse para os estudos ou a trabalho.


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O que aumentava o meu gosto por literatura popular era justamente estar cercado de pessoas simples como eu, que tinham os mesmos gostos. Lembro de que em certa época eu li mais livros de terror do que leria em toda minha vida. Um deles, A Entidade, me deixaria tão abismado, principalmente por dizer se tratar de uma história real, como alegava o livro. Na esteira dele vieram A Profecia, Cemitério Maldito, Tubarão, Os Invasores de Corpos. Este último aliás, sentia um fascínio tão grande por ele, que o lia de tempos em tempos em várias fases da minha vida.

Livros que se tornaram filmes era uma constante, como se pode ver nos títulos acima. Mas, não cabiam apenas os de terror. Lembro de ter lido o livro que deu origem ao primeiro filme de Rambo, escrito por David Morrel, e descobri estupefacto que, na verdade, John Rambo morria no final, executado pelo Coronel Trautman. Li o excelente livro O Chefão, de Mario Puzo, que deu origem ao cultuado O Poderoso Chefão. E fiquei feliz de descobrir, anos mais tarde, que o escritor era um dos roteiristas do filme do Superman, de 1978.


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Eu não lia, eu praticamente devorava os livros. E nada me era proibido, já que livros estão ali, e era só comprar ou pedir esmprestado. Os Sete Minutos era um chumaço que, por mais estranho que pareça, eu achava chato, mas algo me impelia a ler até o final, e o que hoje se chama "mindfuck" na internet, se aplica totalmente ao fim da história sobre um julgamento de estupro em que o julgado é um livro erótico chamado Os Sete Minutos, que é "acusado" de ter incitado o estupro.

Eu li O Ninja de Erik Van Lustbader e pensava, nossa, esse cara vai sair do livro, me pegar e me cortar ao meio. O vilão (o tal ninja do título) era assustador, muito mais que qualquer ninjazinho de filmecos de artes marciais de hoje em dia.

Li O Dia do Chacal sem me dar conta do tempo passar. Acompanhando cada passo do mercenário contratado para matar o presidente francês De Gaulle. A realidade era um spoiler sobre seu final.

Também me arrependi de certas leituras, como quem se arrepende de assistir um filme ruim. Aliás, a ironia de tudo, era que um do piores livros que já li, gerou um dos melhores filmes que assisti, Forrest Gump. Era como se tivessem pego apenas o personagem do livro e feito algo completamente diferente. Forrest Gump no programa espacial americano, junto com um gorila? O módulo espacial cai na selva e o gorila e a astronauta russa que acompanhava Forrest, viram amantes? Por favor!


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Eu lia tanto que a própria leitura acabou sendo minha sina, quando comecei a devorar livros das Testemunhas de Jeová que encontrava com amigos, acabei me convencendo que eu devia seguir com eles. Isso decretou o fim de qualquer outro tipo de literatura, pois todo o resto era proibido, e apenas o que eles publicavam era o podia ser lido. Um prisioneiro que se deixou prender. Entrou no território inimigo e disse, levem-me. Sim, eu me envergonho disso.

Alguém que lia tudo que lhe caía nas mãos agora lendo apenas o que lhe davam nas mãos. Um longo período de 7 anos se seguiu para que com o tempo, eu me livrasse dos grilhões da censura religiosa e voltasse a ler o que eu quisesse. E voltei, e li e venci.

Obviamente a internet atrapalha bastante que se leia como eu lia antigamente, mas ainda assim, tenho lido coisas que gosto, livros que considero importantes e a cada dia adquiro mais e mais, mesmo não sabendo quando irei lê-los.

Sim, eu gosto de Dan Brown, com todas as contradições e falhas de seus livros. Li muito Harry Potter e me lembrei da época da Coleção Vagalume, mesmo não sendo a mesma coisa. Li vários livros de Michael Crichton, de quem me tornei fã depois de ler o primeiro Jurassic Park.


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Enumerar e lembrar tudo que já li seria impossível. Recentemente li ótimos livros como O Cordeiro (uma sátira a história de Jesus Cristo) e O Homem no Castelo Alto, do aclamado Philip K. Dick.

E, numa espécie de fusão das duas mídias, quadrinhos e livros, estou lendo tardiamente A Guerra dos Gibis, que conta como os quadrinhos americanos chegaram ao Brasil. Aprendendo através de uma mídia tudo que não sabia sobre a outra. E totalmente bestificado enquanto leio.

E quanto à Denise Coutinho? Bom, ela acabou cedendo e me emprestou alguns títulos de Agatha Christie. Devido a ela me viciei na autora e li pelo menos metade ou mais da coleção. Acabou que minha querida colega de trabalho também foi pedra fundamental para meu gosto literário e, talvez por isso, eu lembre com tanto carinho dela até hoje e dessa pequena história que contei no começo.

No mais, os livros (assim como os quadrinhos), também moldaram o meu caráter, mesmo que eu precisasse insistir para que me deixassem ler até aqueles "que não eram para mim".




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sábado, 5 de dezembro de 2009

Revisão in Real Time!


PROJETO SECRETO: BRANCA DE NEVE

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As luzes da sala do cinema particular do Fuhrer foram apagadas. Um facho de luz se projeta para a grande tela e cores vivas começam a pulular. Adolf volta a ser criança novamente, presenciando a magia de um conto de fadas tomar forma. Apesar de estar quase que sozinho ali, na escuridão - um guarda da SS está a poucas cadeiras atrás dele - Adolf sente como se estivesse na companhia dos deuses. Ele só lamenta que tal gênio - Walt Disney - não seja alemão. Adolf deixa por um instante seus pensamentos de grandeza e se torna quase humano, quando o filme realmente começa. Estamos em 1937.

Enquanto isso, em algum lugar do ano 2009...

Bernstein. Joseph H. Bernstein também está sentado em uma sala escura. Um zumbido irritantemente incessante se faz ouvir, mas isso não parece incomodá-lo. Bernstein tem agora 74 anos e pouca coisa na vida pode incomodá-lo de verdade. Ele já passou por muita coisa, já viveu vidas demais. Já foi prisioneiro de campo de concentração, em seguida órfão, depois filho adotivo de alemães, depois se tornou americano, já foi mendigo e se tornou bilionário. A história de Bernstein daria um livro. Na verdade, deram 3 livros e um não-autorizado ao qual ele processou, e ganhou.

Bernstein sempre foi taxado de recluso, sombrio e antipático. Mesmo suas boas ações não criavam nenhum tipo de carisma nas pessoas para com ele. E, para a dizer a verdade, Bernstein preferia que fosse assim. Ele não queria criar vínculo com ninguém. Não queria se apegar a ninguém. Nunca casou e nunca teve filhos. Os relacionamentos que teve, sempre foram pagos e qualquer uma que tentasse provar que ele possuía algum filho bastardo, ele sabia como provar o contrário. As pesquisas no campo do DNA tiveram a ajuda generosa de Bernstein, já prevendo sua utilidade.

1937. Hitler se move na cadeira e o soldado da SS pensa ter ouvido o Fuhrer chorar, mas descarta essa possibilidade. Não que seja algo impossível, o soldado apenas não vê na tela motivo para isso.

2009 - Bernstein perdeu toda a família - pai, mãe, duas irmãs mais velhas que ele - nos campos de concentração. As pessoas que ele mais admirava no mundo, que ele mais amava. Seu pai dizia que qualquer coisa no mundo era possível, bastava querer e ter força de vontade para transformá-la em realidade. Bernstein aprendeu a ter. Ele aprendeu isso quando escutou os gritos de terror da última pessoa de sua família a morrer na câmara de gás. Não, ele não esteve lá. Ele escutava na sua mente, e as escutou por toda a sua vida dali em diante.

Bernstein não morrer se deu por uma sucessão de enganos e coincidências que o colocou nas mãos de uma família alemã que estava de partida para os Estados Unidos. Sem filhos, e com uma posição política contrária a vigente, o casal preferiu sair do país e, quem sabe, para aliviar a consciência pelo que seu país estava fazendo, salvar alguém no processo.

Por mais estranho que pareça, sua nova família acabou sendo morta nos EUA num acidente de carro. Bernstein estava com eles, e sobreviveu. parecia ser sua sina sobreviver. Ficar vivo por alguma razão.

1937 - O longa metragem na tela segue com Adolph cada vez mais maravilhado e absorto em tudo, como uma criança num parque de diversões. O projetista tenta não se distrair e não errar com os rolos do filme. Ele nunca antes vira uma animação tão longa assim. Os americanos e suas manias de grandeza, pensava ele. O soldado da SS não se mantinha relaxado o suficiente para curtir o que se passava na tela. Ele era um soldado, e precisava agir como tal.

2009 - Bernstein teve problemas com a herança que receberia. Sim seus pais eram ricos, mas Bernstein chegou a viver como mendigo antes que tudo que era seu por direito chegasse às suas mãos. Viveu em abrigos, sem nunca mais ter uma família de verdade. Mas, quando tomou posse de sua herança, Bernstein trabalhou para duplicá-la, triplicá-la, quadruplicá-la. Mas não era no dinheiro que Bernstein pensava. Era na utilidade que este teria para ele. Transformar coisas impossíveis em realidade.

Desde que aprendeu a ler, já nos EUA, Bernstein se interressou por Ciência, fosse ela a da vida real, ou aquela dos filmes de Ficção-Científica. Estudava sobre as implicações da ciência no nosso mundo e em como ela nos afetava. Procurava sempre estar dentro de todas as teorias que apareciam: Fractais, Caos, Curvas, Cordas, Supercordas e etc. E, em quase todos esses estudos, ele inseriu de seu capital. Bernstein tinha suas próprias ideías, mas não poderia divulgar o que pensava. Ririam dele.

Bernstein assistiu ao filme A Máquina do Tempo, do diretor George Pal, baseado no livro de H.G. Wells, e sorriu de um jeito malicioso, como quem diz, se fosse tão simples assim. Ah, se fosse tão simples assim. E foi para casa (na época um barraco que alugava), e dormiu pensando nas infinitas possibilidades. Adormeceu, no entanto, com apenas uma delas na cabeça.

Sentado naquela sala escura, com aquele zumbido incessante, Bernstein entendeu o que seu pai quis dizer sobre tornar qualquer coisa possível. O que fazia a mágica acontecer era o dinheiro, apenas o dinheiro. Afinal, foi por isso que sua família original morreu, para que os alemães pudessem dominar o mundo, e fazer dinheiro. Era simples assim. Tão simples quanto o que Bernstein teria de fazer agora. Tão simples quanto a decisão que ele tomaria agora.

1937 - Branca de Neve canta alegremente com os sete anões e o Fuhrer sorri, como se ele mesmo estivesse ali, não se sabe se querendo ser um dos anões, ou quem sabe, talvez a própria Branca de Neve, alguém maior, dominando menores aos quais nem mesmo conhecia antes. E, no entanto, eles dançam conforme a música. Adolph não entende como o soldado lá atrás consegue ficar tão impassível a tudo isso. Mas, tudo bem, é o trabalho dele.

2009 - Bernstein comprou aquele uniforme há décadas atrás. Foi algo barato para ele. Nem mesmo o vendedor entendeu porque um judeu iria querer um uniforme da SS. E, mesmo um tão rico, já que poderia mandar fazer um. Mas, Bernstein alegou autenticidade histórica, estar pensando em um museu e etc. Ele acreditou.

Mas, o uniforme era uma parte tão ínfima do todo. Os 30 anos para construir uma máquina do tempo, sim, esse foi o verdadeiro desafio. 30 anos aprendendo e aprendendo, para que ele mesmo, com seu próprio conhecimento pudesse sozinho, transformar em realidade, uma fantasia, esta sim, foi a parte complicada. Bernstein talvez tivesse mais conhecimento agora do que a maioria de muitos cientistas juntos. Talvez ele pudesse até salvar a humanidade de si mesma, se ele quisesse. Mas, Bersntein queria outra coisa muito mais comum ao ser humano, e talvez, muito mais inútil, apesar dele não exergar isso: vingança.

Bernstein tentava enxergar nisso um bem para a Humanidade. Livrar o mundo de um carrasco dos infernos, de um câncer que corrompeu a História. Mas, em seu interior, tendo pesquisado tanto sobre as incogruências temporais, ele não sabia se seria realmente um bem, e não queria nem saber, na verdade.

A máquina fora criada para o enviar para um lugar e uma hora específica, onde ele pesquisou o suficiente para saber que o algoz da humanidade estaria lá. Assistindo o desenho animado Branca de Neve e os Sete Anões. O uniforme de guarda da SS era tudo que precisava. Todas as informações necessárias para que a máquina o colocasse no ponto exato, estavam já embutidas na memória do computador central.

Bernstein fez pequenos testes, coisa de segundos, e os resultados sempre foram variáveis. O teste final seria também o último. A maquina só teria capacidade para tamanho deslocamento temporal, uma única vez, prendendo-o na Alemanha Nazista, novamente. Mesmo que os erros fossem de milissegundos ou milésimos de centímetros, ele poderia acabar fundido a uma parede de algum prédio alemão, ou até mesmo a uma pessoa. Seria a ironia das ironias se ele acabasse fundido a Hitler.

Ele apelidou seu projeto de Branca de Neve. E ele estava pronto. Bersntein se levantou, com seu uniforme impecavelmente vestido e sua Luger funcionando perfeitamente, como fez questão de verificar. Entro na máquina, trancou, respirou fundo e digitou as coordenadas. Deixou as questões morais e temporais de lado e saltou no tempo e espaço. Bernstein deixou o prédio.

1937 - A animação chegava ao fim, e Adolph se sentia triste e feliz ao mesmo tempo. Estava mais que contente consigo mesmo, como se o desenho tivesse lhe dado uma nova perspectiva sobre o que tinha de fazer. Seu príncipe encantado era o Terceiro Reich e ele o levaria a um reinado de mil anos. Foi pensando nisso que viu o soldado da SS atrás dele se levantar e,sacando a arma, gritar:

- FUHRER!

A explosão do tiro ecoou dentro da sala, ensurdecendo a todos. Bernstein fora atingido. Maldito desenho animado longo demais. Bernstein entrou no lugar do soldado projetista e não esperava que o desenho fosse tão longo. Um homem como ele não poderia se ocupar assistindo a essas coisas inúteis e ele não previu que fosse algo tão demorado. Tomar o lugar do soldado que projetaria o filme já foi complicado, mas deixar se deter por questões morais foi pior.

O plano era para que assim que entrasse, ele atirasse no soldado na platéia e depois matasse o Fuhrer cara a cara. deu tudo errrado. A única coisa que ele conseguia fazer agora era sangrar. Seu ombro estava um desastre só. A droga do desenho animado fez com que ele ficasse divagando sobre se o Bem deveria se converter em Mal.

Antes que fosse alvejado novamente, com uma agilidade fora do comum para sua idade, Bernstein acertou o soldado na testa. E este caiu quase derrubando seu amado Fuhrer.

Ninguém percebera, mas Bernstein dispensara todo os soldados que ficariam de guarda na porta, alegando que ele e o outro lá dentro seriam suficientes.

Adolph foi pegar a arma do soldado, mas Bernstein consegui inutilizá-la com um único tiro. Ele agradecia pelas aulas de tiro e por todo treinamento que fez para este dia, o seu dia.

Bernstein, mesmo ferido, forçou o Fuhrer a se sentar e, como um velho vilão de filmes B, contou todo seu plano para o ditador, que o ouviu sem esboçar nenhum tipo de espanto ou mesmo de julgamento da sanidade mental de Bernstein. Na verdade, ele parecia até bem calmo para quem estava prestes morrer. E, depois de dar uma olhada para o ombro sangrando de Bernstein, falou:

- Então... você veio do futuro? A Alemanha perde a guerra em 1945, eu me suicido, e os EUA e a Rússia dividem o que sobrou do mundo, entre si? Mas, você quer me matar agora, em 1937, para que seus pais sejam salvos em 1940? É isso, foi o que o senhor quis dizer? Aliá, meus parabéns, para um velho o senhor tem bons reflexos e atira bem.

Bernstein sabia que o desgraçado estava tentando ganhar tempo e, por alguma razão, ele estava se deixando levar.

- Eu não sou fã de H.G. Wells, acho um escritor medíocre. Portanto, não sei nada disso sobre viagem no tempo, e percebe que não acredito você, não é? Parece apenas que alguns judeus conseguiram se infiltrar em meus domínios com sucesso. Por que inventar toda essa história para me matar é que ainda não entendi. Mas, como já disse, não entendo de viagens no tempo. mas entendo de destino.

- O que diabos quer dizer com isso? - Pergunta Bernstein.

- Escutei toda sua história, e a única coisa que me chamou a atenção nela, foi que o nome de seu pai é o mesmo do soldado morto aí no chão. Obviamente ele não usava esse nome. Eu o conheço por Carl Unger. Ele estar na SS foi um favor a um amigo a quem eu devia muito. Um ariano com sentimentos paternos demais. Ele disse que Carl era um bom soldado, apesar de ser... você sabe. E que ele passaria bem por um ariano. Não posso negar, ele passou no teste. Enganou até você. Eu nem mesmo precisei esperar mais um ano ou dois para enviá-lo para os campos de concentração, como era o previsto.

- Que... que... que tentiva patética de ganhar mais tempo de vida, Adolph. Posso chamá-lo de Adolph, não é? Acho que não estamos muito para formalismos agora. Se eu não o conhecesse por toda a minha vida, poderia até acreditar em tanta asneira.

- Pelas suas teorias de viagem no tempo, você só está ainda na minha frente porque já havia nascido, não é? Quantos anos você tem agora? Dois, três? Porque não vira o corpo e vê o quanto eu estou mentindo. Por que não atira em mim primeiro e depois vê se falo a verdade. A vida é simples Joseph, nós é que a complicamos.

Bernstein esquecera do ombro sangrando, da dor, ele sentia apenas como se estivesse anestesiado, como se a realidade estivesse anestesiada. Ele não acreditava naquele imbecil, mas ainda assim sentia como se o chão fugisse aos seus pés. Talvez fosse apenas o medo de mudar os rumos de toda a História apenas por vingança. Talvez ele quisesse quem sabe, voltar no tempo e desistir de tudo, começar sua própria família e...

Hitler se mexeu e desvirou o corpo do soldado ele mesmo. Quando Bernstein viu o rosto, sentiu uma ânsia de vômito. Parecia ser um efeito da viagem que se manifestava tardiamente. Olhou de novo para o rosto e seus olhos estavam embaçando, ele não via mais com clareza. Não sabia se era ou não seu pai. Na verdade, como ele poderia saber, ele tinha 5 anos quando seu pai morreu, e ele nunca viu fotos dele. Seu pai poderia ser qualquer um, qualquer rosto. Quanta idiotice. Nem todo seu dinheiro foi capaz de recuperar uma foto de família.

Bernstein vomitava e tentava se manter em pé, tentava mirar em Hitler e terminar o que viera fazer. Este, por uma razão muito estranha, não saía de seu lugar, nem tentava se proteger. Talvez ele o achasse apenas um doente mental. O enganou tão facilmente. Meu pai, que cretino. Meu pai nunca seria um soldado SS.

Quando Bernstein atirou a esmo na direção de Hitler, aí ele entendeu que corria perigo, mesmo que ele fosse um maluco qualquer. Correu e se protegeu entre as poltronas da sala de cinema. Bernstein não entendia o que estava acontecendo, mas tinha um teoria. Seu tempo de viagem estava acabando. Planejando uma viagem apenas de ida e que tudo acabaria em algumas horas, não previu que seu corpo não permaneceria naquele espaço tempo para sempre. A máquina lhe dera um relógio interno.

Atirando uma última vez, mesmo sem ver, podia jurar que acertara o Fuhrer. Seu corpo pareceu inflar e depois se retrair e Bernstein foi jogado de volta no futuro numa viagem extremamente dolorosa. Caiu ao lado da máquina e não dentro dela. Caiu e deve ter permanecido ali por várias horas. Quando finalmente levantou. ele sentiu que não havia bala em seu ombro mais, nem sangue, nem nada. Estava ainda de uniforme, como saira dali.

Bernstein levantou, foi até a janela de seu prédio, do qual ele era o único dono e morador. O dia estava claro, e tudo parecia normal. Nada mudara, o mundo ainda estava em seu lugar.

Aproximou de seu computador pessoal, olhou as notícias mundiais e nada estava fora do lugar. Digitou "Hitler" no Google. e sim, nada mudara. Sentiu-se desolado. mas, ao mesmo tempo, feliz, sabe-se lá porque. O mundo é um lugar difícil de se viver, e talvez tenha que permanecer assim. Aprendizado.

Era melhor voltar a sua vida e viver os últimos anos fazendo algo de produtivo. Antes de desligar o computador, só por diversão digitou Carl Unger no Google. Depois de nomes que nada tinham a ver com a Segunda Guerra, a busca deixou uma entrada em destaque:

Carl Unger, também conhecido como, Abraham H. Berstein.


domingo, 29 de novembro de 2009

Pro Alto e Avante!


SE VOCÊ NÃO VAI A DISNEY, A DISNEY VEM ATÉ VOCÊ
Fotos da Parada Disney na Praia de Copacabana

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Ligo a TV no horário de sempre. Espero ansioso que o programa comece logo. Ainda é a saudosa TV Tupi. Neste pedaço perdido do passado, eu ainda não sei o que é a tal "política de boa vizinhança" gerada pela Segunda Guerra Mundial, que acabou dando origem ao personagem Zé Carioca. Ainda não sei que o mundo não é tão inocente assim e, quer saber, pouco me importa hoje também.


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Quero apenas que o Clube do Mickey comece logo. Se estivesse rodeado não de meus irmãos, mas de alguns adultos de hoje em dia, ouviria o velho discurso sobre imperialismo americano enfiado goela abaixo do mundo através de um rato que fala. Olharia para eles, e os mandaria tomar no cu, pois eu queria ouvir o programa que já ia começar.


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Quando o programa enfim começava, uma enxurrada de personagens Disney desfilava pela tela, cantando uma música que eu já sabia de cor: Entre nessa festa pra cantar com todos nós, ele é o maior, viva o Mickey Mouse. A magia não estava somente no programa, óbvio, mas num conjunto de coisas que não existem mais hoje em dia.


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Assistir o Clube do Mickey era também um meio de compensar a falta que o cinema fazia em minha vida, já que não era uma época em que se podia assistir os longas no cinema tão facilmente, devido ao fator "grana inexistente para supérfluos". O vídeo cassete também era uma realidade ainda distante.


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Assim sendo, os trechos de animações da Disney que passavam no programa eram verdadeiros tesouros para mim. Os desenhos curtas que seriam repetidos à exaustão pelo SBT, pra mim ainda eram novidade. Trechos de Alô, Amigos, Você Já foi a Bahia, Fantasia, me faziam viajar e não querer voltar. Eu não cansava de assistir o Mickey aprendiz de feiticeiro se metendo em encrenca com suas vassouras encantadas e nem de ver o Donald no País da Matemágica.


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Se bem me lembro, o Clube do Mickey era dividido em temas a cada dia da semana, e alguns temas eram tão chatos que eu simplesmente passava a detestar alguns dias da semana. Como criança não trabalha, eu não odiava a segunda-feira, odiava a quarta, quando um dos temas era mais voltado para documentários da vida selvagem. Nossa, como eu detestava documentários sobre vida selvagem. Já me bastava o chatíssimo programa Mundo Animal.


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A extensão do Clube do Mickey na vida real era o Almanaque Disney, posso assim dizer. Tudo bem que eu atentava minha mãe para que comprasse todo tipo de HQ da Disney, fosse qual fosse, mas o Almanaque Disney era praticamente como um Clube do Mickey em papel. TINHA ATÉ OS DOCUMENTÁRIOS CHATOS SOBRE VIDA SELVAGEM!


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Novamente, assim como o Clube, o Almanaque me supria dos filmes que eu não poderia ver no cinema. Lembro bem , por exemplo, da quadrinização do filme O Buraco Negro (ou Abismo Negro), em que cientistas se deparam com uma nave à beira de um buraco negro, dominada por um estranho homem que se isolou da Terra. O que me chamava a atenção na história era nada mais nada menos que os robôzinhos que pareciam brinquedos. E, obviamente eram. O filme era uma tentativa de copiar o sucesso de Guerra nas Estrelas, mas era sombrio e lento demais.


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Além disso havia as quadrinizações das aventuras de Herbie, dos meninos da Montanha Enfeitiçada, e tantas coisas que eu só veria mesmo com o advento do VHS ou do download. Mas, com o Almanaque Disney não havia tempo ruim. Tantas histórias em quadrinhos e tantos "extras" me faziam querer ter todos os números.


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Mesmo o tempo passando, o Clube do Mickey tendo terminado e eu ficando adolescente e depois adulto, ainda assim, o encanto com as histórias e personagens Disney não terminaria. Com o nascimento da PIXAR isso, na verdade, só aumentaria.


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No campo dos quadrinhos, os super-heróis e quadrinhos mais adultos tomariam o lugar na preferência, mas ainda assim os da Disney estariam sempre lá. Com a Editora Abril não os tratando com a mesma dignidade com a qual eram tratados antes, a saída são os scans para que se possa rever a Era de Ouro dos quadrinhos Disney no Brasil. Não temos mais o Clube do Mickey, mas temos lá os canais Disney que, mesmo tendo que aguentar as Hannas Montanas e Highs Schools da vida, passam os clássicos da animação.


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E, depois de tantas aventuras ao longo dos anos, descubro ontem à noite, que hoje teríamos uma Parada Disney bem aqui perto, em Copacabana. A Disneylândia na minha porta. Acordei cedo e fui até lá, de máquina fotográfica em punho. Ainda assim cheguei atrasado e só vi metade da festa. Só que compensou ter entrado, sem querer, na "concetração". Pude tirar fotos bem de perto dos carros que ainda estavam lá. Sendo alguém tão criança ainda, como eu sou, não teve como não me emocionar. Viva o Clube do Mickey!!!


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Bônus Track: bailarinas bem hmmm disneyosas






FLASH GORDON - EDITORA ABRIL
Scans by Quadrinhos Antigos


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Faça o download aqui


O nome já diz, né, Quadrinhos Antigos. Blog de scans de quadrinhos mais clássicos, raros e difíceis de encontrar mesmo em sebos, como é o exemplo do Flash Gordon aí acima. Tão raro e tão antigo (1979) que minha memória me trai e não sei se tive essa edição. O blog está recheado de edições Disney (olha ela aí de novo), Tarzan, Mandrake (só vi um único de scan de Mandrake, HQs de terror e muito mais. Acessem.




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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Envelheço na Cidade


E CHEGAMOS A 7 ANOS DE RAPADURA AÇUCARADA
Em Todos Estes Anos Nesta Indústria Vital

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Minha mãe chega em casa carregada de compras que foi fazer com meu pai. Ela me olha de um jeito engraçado e puxa de dentro de uma das bolsas de compra... um gibi! Meu coração acelera como se estivesse ganhando uma bicicleta de presente no Natal. Eu pego a revista e vejo o título, Mestre do Kung Fu. Eu olho pra ela e para a revista e hoje eu tenho certeza do que eu pensei, mesmo que não lembre: "ela me entende, e eu a amo".

Sim, eu devo a minha paixão pelos quadrinhos à minha mãe. Portanto, esse blog se tornou o que se tornou por causa dela, da Dona Sebastiana (ou Tiana, como todos a chamam). Também devo a ela essa compulsão por compartilhar. Minha mãe dividia (e divide até hoje) tudo comigo. Se ela gostava, queria que eu gostasse também. E, se eu gostava, ela também gostava. Fosse música, filmes ou mesmo os gibis. Mesmo que ela não lesse, ela sabia que eu curtia tudo aquilo.


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Além da minha mãe, meus tios também me influenciaram. Minhas tias também traziam gibis pra mim e, um dos meus tios, Sálvio, era um verdadeiro Professor Pardal. Sempre inventando algo. Além disso, ele se metia até mesmo a fazer histórias em quadrinhos em seus cadernos de desenhos, tendo feito histórias do Ultraman que eu lia como se fossem gibis de verdade. Ainda mais, ele mexia com eletrônica e seria por meio dele que eu saberia da existência de algo chamado internet, ainda num futuro muito distante.

Eu mesmo não me interessava por nada que envolvesse eletrônica, e achava qualquer coisa que envolvesse construir alguma máquina, complicado e extremamente maçante. Quando ele começou a mexer com computadores eu achava aquilo interessante, mas não achava que fosse pra mim. Eram divertidos, mas complicados. Provavelmente eu nunca iria mexer em algo daquele tipo, pensava eu.


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O tempo se encarregaria de mostrar que eu estava errado. Que não apenas eu, mas o mundo todo mexeria com aquelas coisas, sendo expert ou não. Mas, que utilidade teria? As respostas seriam meio contundentes e durariam sete anos.

Meus primeiros contatos com a internet foram escassos e quando tive minha própria conexão, bom, era discada, num PC 486 com 300 MB de HD e nem lembro quanto de memória, mas devia ser muito pouca. Eu estava já há uns dois anos afastado do mundo da religião, então não tinha mais travas quanto a navegar na internet, principalmente sobre onde ir e com quem falar.


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Porém, a internet para mim ainda era um mundo estranho e sem muita utilidade. Não sabia muito o que fazer. Num salto de pelo menos mais dois anos, agora casado, eu continuava sem saber muito como utilizá-la.

Até que, certo dia, não lembro exatamente como, eu caí dentro de algo chamado uol.cinema, através do Outlook Express. A partir daí sim, a história do Rapadura Açucarada começava a tomar forma. Ele não existia ainda, mas ali, naquele lugar que na teoria, era pra ser discutido cinema e, no entanto, de cinema era o que menos se falava, ali foi onde a idéia do RA começou a nascer.


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Eu já contei essa história várias vezes, mas a verdade é que não me canso de contá-la. Depois de já estar há um bom tempo apenas conversando com o pessoal do uol.cinema (era praticamente o que faço no Twitter hoje em dia) algo diferente aconteceu:

Eu havia lido uma HQ do Deadpool publicada num mix da extinta Editora Pandora. A história era sobre o anti-herói voltando no tempo e indo parar em uma história antiga do Homem-Aranha, desenhada pelo John Romita. Aquilo me impessionou tanto que eu acabei comentando no uol.cinema (hoje Trollnet).

Então um dos que leram o que escrevi, o Fábio Negro, disse, "escaneia uma página e manda pra cá".


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Devo dizer aqui, que quando ele disse isso, não fazia idéia de como escanear algo, apesar de ter um scanner a pelo menos um ano e meio, que NUNCA fora usado.

Aquele pedido me remeteu diretamente a 6 meses antes, quando encontrei na internet o site Toca do Carcaju. Lá, maravilhado, encontrei para baixar (página por página), gibis que eu não lera e outros que queria reler, como Marvels e Batman: Cavaleiro das Trevas entre outros. Baixei tudo e li, e esperei por mais. Só que não veio. A Editora Abril exigiu que o site parasse com suas atividades.

Quando o Fábio Negro me pediu aquilo, seis meses depois, eu entendi que era exatamente o que o Carcaju fazia. Com muita dificuldade escaneei uma página da história do Deadpool e enviei. Aquilo foi como uma picada de aranha radioativa, uma explosão de bomba Gama, ou um isótopo radioativo em meus olhos que não me deixou cego, mas que me fez enxergar. EU PODIA FAZER O MESMO TAMBÉM!


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Vale lembrar, claro, que no meio de toda essa história da primeira página de scan feita por mim, o Rapadura Açucarada já existia há uns dois meses. E ele só estava na ativa esses dois meses, novamente por culpa do pessoal do uol.cinema que me apoiava visitando, mesmo o conteúdo sendo muito pouco ainda.

O blog fora criado em novembro de 2002 por pura brincadeira, e acho que se não fosse por eles, ele não teria resistido tanto tempo e e eu teria desistido. Cheguei mesmo a fazer dois blogs antes do RA, que não duraram muito e nem lembro mais do nome deles. Também fui chamado pelo louco do Martorelli pra ajudá-lo em um blog seu, mas não fiquei muito tempo.

O fato é que o nome Rapadura Açucarada também pareceu dar sorte. Depois de ver blogs com nomes como "Passeata Solitária", eu entendi que blog tinha que ter nome esquisito. E, depois de um tempo pensando inventei "Rapadura Açucarada".


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Então aconteceu isso, a junção dos dois fatos: a criação do blog e, dois meses mais tarde, uma página de gibi escaneada. Essa mistura deu origem ao que viria a seguir, centenas de quadrinhos escaneados.

A evolução se deu rápido. Eu não sabia compactar então postava página por página no site Kit.Net, até que me ensinaram a compactar com o WinRar. Aprendi a limpar os scans um pouco. Colocava-os no blog. As pessoas que baixavam começaram a enviar elas mesmas os seus scans e tudo começou a acontecer rápido demais. Muito mesmo.

O blog aparecia em revistas e jornais, devido ao boom dos scans. Isso chamou atenção e, claro, tive que parar de digitalizar quadrinhos já em outubro de 2003, devido a pressão dos editores, sendo que um deles até mesmo falou comigo por MSN. A conversa foi amigável, mas eu não me sentia bem fazendo o que fazia. A dificuldade em encontrar servidores para alocar os gibis sepultou a idéia, pelo menos para mim. Assim eu pensava.


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Apesar de não colocar mais scans, eu não queria mais me livrar do blog. Era tarde demais para mim. Então, mesmo sabendo que as visitas iriam cair, já que a maioria ia ao blog apenas para baixar scans, eu resolvi continuar. Comecei a colocar links, como já havia visto em outros blogs, mulher pelada, idem. Também me arrisquei a escrever algumas memórias, e comecei a gostar daquilo. O que me deixou feliz, era que muitos continuaram visitando o blog. Não importava mais se não tinham os scans. Alguns experimentaram a Rapadura e gostaram independente de se colocava algo de graça ou não.

Mas, os scans não pararam. Outras pessoas continuavam com o trabalho. Como em qualquer compartilhamento na internet, se você corta uma cabeça, nascem duas. E nasceram muitas, até hoje. Mesmo alguns tendo intenções estranhas, o que importa é que os scans não parariam mais, com ou sem Rapadura.

Empolgado com isso, acabei voltando às atividades de digitalização em agosto de 2005, escaneando nada menos que o Volume 2 de A Liga Extraordinária. E novamente contribui com mais uma leva de scans. E, novamente, colaboradores apareceram. Para se ter uma idéia, foram feitos, através do blog, as séries Akira e Preacher, completas e continou-se com Hellblazer, Planetary, Livros da Magia. Ainda outras foram apenas iniciadas como The Walking Dead e Y - The Last Man. Muita coisa que ainda estava longe de aportar por essas bandas.


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Só que as coisas não eram mais como no começo, o blog agora era um híbrido da Era de Ouro dos Scans com a fase em que eu apenas escrevia e colocava links. Eram os scans, os links, mulher pelada, as memórias, e para terror de alguns, poesia. E tudo seguia bem, já que o blog na verdade não nasceu para ser de scans, isso foi um verdadeiro acidente ao melhor estilo das origens dos heróis dos quadrinhos.


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O blog seguia ano após ano e, obviamente, isso causava um certo desgaste às vezes, até que eu mesmo achei que devia parar, e não mais escrever, nem fazer mais nada aqui. Acreditava tanto que não queria mais, que escrevi um extenso texto dando os motivos e dizendo que ia "andar na praia". Bom, não andei na praia e não consegui ficar longe nem uma semana. Logo estava de volta produzindo mais rapadurices e vivendo altas aventuras neste blog que apronta muitas confusões.


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Tendo tomado gosto por escrever, novamente, por acidente, criei o personagem de faroeste Jerusalem Jones, a quem eu e os leitores se afeiçoaram, devido ao seu estilo bizarro de aventuras, misturando velho oeste e terror.

Os scans continuavam mas, problemas com servidores para download, novamente tornavam a idéia de parar com a digitalização uma realidade. Até que eu achei uma solução que nunca pensei que fosse possível para mim: um fórum.


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Já havia tentado um fórum para o blog antes. Como não era eu quem cuidava do mesmo, pois não sabia mexer nas estruturas, acabou não dando certo. Mas, insistindo e, com uma certa ajuda, eu acabei por inaugurar um fórum onde pudesse colocar os scans e os usuários ajudassem neste trabalho. O nome veio de uma sigla do tempo das Guerras Scanônicas: F.A.R.R.A. (algo como Forças Armadas e Revolucionárias do Rapadura Açucarada, que se tornou Fórum de Agrupamento dos Revolucionários da Rapadura Açucarada).

O fórum deu mais certo do que eu esperava e cresceu. Tanto que cuidar dele, me tirou da atividade frenética de escanear. O que na verdade foi bom, já que agora meus gibis sobrevivem inteiros (pelo menos quando não é época de aniversário do RA).

O fato é que gosto do meu blog, gosto de escrever, gosto de tê-lo no ar, mesmo que as vezes, eu não o atualize tanto quanto deveria. Mas se ele está aqui, sei que sempre posso voltar e atualizá-lo assim que der vontade. Ele é maior do que eu, e quem sabe, se bobear, eu é que sou uma criação do Rapadura Açucarada.


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PRESENTE DE ANIVERSÁRIO: GÊNESIS

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quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Behave!


DE TWEET EM TWEET VOU PIANDO

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O Twitter é um vício que me pegou de cheio até mais que o café. Aliás, às vezes bebo 140 goles de café, juntando assim os dois vícios. E, além de se tornar um vício, o Twitter cria outros vícios, alguns bons, outros ruins e ainda outros desastrosos. Não tão ruim quando Farmvilles de Facebooks, mas ainda assim ruins. Mas, vou falar de um bom que adquiri: escrever bobagens.

Diferente do blog onde tenho que pensar e repensar para fazer um post, no Twitter, uma abobrinha pode ser "plantada" com 140 caracteres. Se ela vai brotar são outros 500. É legal ver que as pessoas respondem ao que você escreve dando RT (retwitando, ou seja, reenviando a mensagem de seus próprios perfis). Obviamente que o ego entra em ação, fazendo com que sua imaginação tente alçar novos vôos.

Claro que isso é algo que muita gente faz no Twiter, desde fakes de pessoas falecidas, como o genial @mussumalive até escritores que já são tarimbados na arte de escrever pequenas frases para se fazer pensar.

Óbvio que todo mundo quer ser engraçado, mas, dane-se, não estou falando de todo mundo. Aqui vou compilar as baboseiras que escrevi em 140 caracteres durante o tempo que estou por lá. Sejam piadinhas toscas ou reflexões pseudo-filosóficas. No mais, se não gostar é só dar unfollow, ops, aqui não funciona assim. Vamos lá:

- O sentido da vida é cada um dar um sentido à sua.

- Eles namoravam na varanda, mas o namorado sempre dava um jeito e dizia: "Na vara anda!"

- O poema é um dilema, mesmo nos que não são poetas, ele nasce, mesmo que seja de uma semente muito pequena.

- Meta na vida ou meta na vida. De qualquer forma que se leia não deixa de ser um objetivo

- "Estou cagando e twittando para o que você pensa", é algo bem mais verdadeiro que o original.

- Quando você pega um livro de poesia tem que ler prosa, frente e verso.

- Uma professora de inglês pronunciava "grit" (great). Então, toda vez que um aluno acertava ela dizia "grit!", e o aluno falava mais alto.

- Se a Geyse Arruda sair na Playboy, poderemos dizer que acabaram-se os tempos de vacas magras.

- Tenho você na mais alta conta, disse o dono da mercearia sobre minha dívida lá.

- Eu achava que plexo solar fosse algum vilão da Marvel.

- No dia mais claro, na noite mais densa, vou descobrir que não tem nada na despensa (nerd com fome)

- Meu destino era a internet. Lá, no sertão do Ceará, eu já nasci na rede.

- "Diga com toda sinceridade..." é só uma expressão formal, não leve ao pé da letra.

- Dinheiro não traz felicidade, manda vir de jatinho.

- Menino dá um Hot Wheels para o professor. Como é o nome do filme? Ao Mestre Com Carrinho.

- A menor distância entre dois pontos é uma bela duma tropeçada.

- Egocêntrico é o cara que esbarra em alguém e diz "tá desculpado".

- As 3 Leis da Robótica Brasileira 1) Eu, Robô 2) Tu, Robô 3) Nós Robamos

- Chupando bala de café. Agora fiquei com vontade de chupar bala de pão com margarina.

- Hannibal Lecter põe o coração naquilo que faz. Não necessariamente o dele.

- Procure mulher com conteúdo, para todas as outras existe Mastercard.

- A mulher do Coisa é que sofre, tem que tirar leite de pedra.

- Adesivo para carro de ateu: "Dirigido por mim e guiado pela lógica".

- O Homem é um animal que tem idéias, pena que algumas sejam de jirico.

- Sorte de hoje: Não acredite em tudo o que lê.

- Ande pela borda da vida sem perder o equilíbrio, se cair, que seja para o lado certo.

- Deus deu ao Homem o livre arbítrio de amá-Lo incondicionalmente.

- Está tão calor que aqui que vou floodar para refrescar um pouco.

- As 3 Regras da Anarquia: 1) Não temos regras 2) Não faça regras 3) Esqueça que leu isto.

- Se podemos exportar Halloween, devíamos importar Cosme e Damião. Candy with card or not card.

- Toda foto que vejo da Lady Gaga ela parece o Ozzy Osbourne com o que sobrou do morcego.

- Algumas pessoas que me lerem podem chegar a pensar que não gosto do Paulo Coelho... e estão certas!

- Eu admito: as mulheres são mais inteligentes e os homens mais mentirosos.


OS TRAPALHÕES: NÃO VADEIA CLEMENTINA







TODOS (EU ACHO) BAT-SÍMBOLOS

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COPSLAY SUPERFODA: SR. FRIO

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EU NÃO POSSO VOAR, MAS
Eu Posso Te Encher de Porrada

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terça-feira, 3 de novembro de 2009

Transcende a Existência


QUE GIBIS ESTRANHOS SÃO ESSES?!
Lendo Tudo de Um Mundo Eclético Como a Vida

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Não é scan


Estou em uma época de minha vida que parece reprisar o meu passado como leitor de quadrinhos, onde eu lia tudo que encontrava. Claro que, lá no passado, devido ao lugar onde eu morava, variedade não era algo muito constante. Mas, às vezes, aconteciam milagres.

Muitos anos antes de sequer saber o que era banda desenhada, numa galáxia muito distante...

Eu estava em Duque de Caxias, aqui no Rio de Janeiro, andando como sempre fazia, procurando alguma coisa nos sebos de rua, ou de banca, nos quais eu já estava acostumado a comprar. Lembro então que uma revista muito diferente das habituais estava perdida ali, naquele mafuá de gibis antigos, em um sebo em que o homem vendia as revistas no chão. Comprei imediatamente é claro. Era Shakespeare em Banda Desenhada (que muitos anos depois descobriria ser como se chama gibi, lá na europa).

A única vez que tentei ler um livro de Shakespeare não consegui devido aquele formato de peça que me irritava profundamente, então nunca me interessei. Mas, aquilo era gibi, e quando folheei, a arte me atraiu de sopetão. A edição englobava de uma só vez nesta ordem: Hamlet, Romeu e Julieta e A Tempestade. Os dois primeiros eu conhecia, claro. Mas, o último nem fazia idéia do que seria, pois não era profundo conhecedor do autor e até hoje não sou.


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O que mais me impressionava naquela revista era como cada página não era dividida em quadrinhos, mas a ação acontecia toda na página "aberta". Como se vê na imagem acima, da história de Romeu e Julieta, os personagens passeiam pelo papel, sendo que os diálogos é que pontuam cada novo "movimento". Eu veria, mais tarde, essa técnica até em quadrinhos de super-heróis como Demolidor, só que... em apenas uma página ou outra. Aqui, toda a revista (ou álbum) é desenhada assim, sem nunca se recorrer aos quadrinhos. Isso me deixou impressionado.

Hoje, pesquisando na internet, descobri essas imagens e o nome do autor, Gianni de Luca. Italiano. Ou seja, o álbum na verdade é um fumetti, como são chamados os quadrinhos na Itália, e eu nem mesmo sabia que já lia fumettis, no caso Tex e Zagor. Tais termos eram desconhecidos para mim. Fosse o que fosse, este era diferenciado, e eu não sabia que era meu primeiro contato com os grandes artistas de Banda Desenhada, muito antes ainda de conhecer Moebius,
Enki Bilal, Milo Manara e muitos outros.


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Meus contatos com quadrinhos que não fossem aqueles de sempre eram muito escassos. E eu não sabia que algumas das coisas que eu lia e considerava "comuns", não eram material dos Estados Unidos e na verdade, não me preocupava com isso. Alguns exemplos são: Mortadelo e Salaminho (Espanha), Lucky Luke (França/Bélgica), Iznogud (França). Já Asterix e Tin Tin, eu dificilmente lia, devido talvez ao preço e por ser difícil encontrá-los em sebos. Estranhamente, no entanto, eu sabia que as histórias da Disney eram produzidas também na Itália, Bélgica e no Brasil apenas lendo o código lateral. E, por uma outra estranha coincidência, as da Itália eram minhas preferidas (europeus novamente).

Com a chegada dos scans, me dei conta de algo importante. Uma HQ não precisava ser européia para ser instigante, diferente, bem desenhada, e ter algo a falar além de super-heróis. Além de (re)descobrir
Will Eisner, como já relatei em um post anterior, eu começava a descobrir e redescobrir outros autores americanos ou não, que faziam um trabalho tão diferente quanto Gianni de Luca e suas páginas com "movimento".

Com Robert Crumb descobri o tal movimento underground e, ao mesmo tempo, descobri que eu não precisava ser underground para gostar de algo assim. Algo como, não precisar usar óculos de intelectual para assistir a filmes iranianos, como faço às vezes. Crumb e seu Fritz, The Cat, suas mulheres bundudas e sua loucura extrema, movida muitas vezes por drogas, me cativava como qualquer história do Homem-Aranha e Cia. Mas, de outra forma, claro.


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Mesmo sendo arredio quanto ao mangá e seus fãs que faziam o estilo parecer coisa de alucinados por cultura japonesa, acabei por ler obras que iam além de raios e esferas mágicas, descobrindo inclusive um de seus autores mais conceituados, Osamu Tezuka. Fosse pela sua biografia quadrinizada, fosse pelo mangá Adolf. Outro que acabei por conhecer nos mangás, depois de conhecê-lo por suas animações foi Hayao Myiazaki. Assistindo Nausicäa do Vale dos Ventos acabei por me empolgar e ler os dois primeiros volumes do mangá com o mesmo nome. Mas, neste campo ainda estou apenas começando.

E, mesmo que por meios tortuosos, vou descobrindo o mundo dessas HQs completamente diferentes do que cresci lendo. Quando a animação Persepolis foi indicada ao Oscar, acabei por comprar o volume completo da HQ de Marjane Satrapi. Afinal, se eu via filmes iranianos, porque não ler uma HQ de uma iraniana? E não me arrependi.

Os quadrinhos assim escritos e desenhados são mais que histórias de entretenimento, mesmo que sejam lidas como se fossem. Tais histórias mostram que quadrinhos vão ao infinito e além. Maus, HQ de Art Spielgelman é de uma qualidade espantosa. O autor conta as memórias de seu pai sobre os campos de concentração, representando judeus como ratos e alemães como gatos. Além disso, o autor se insere na história, entrevistando seu pai enquanto podemos ver o relacionamento dos dois, usando a metalinguagem de forma fantástica.


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E, claro que, indo a tantos países eu também teria que interiorizar e redescobrir o meu também. Os scans me fizeram ir aonde eu nunca havia estado antes, do jeito certo. Eu pude ler de verdade coisas com as quais não tive contato quando era criança e adolescente, como por exemplo: Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, a revista Circo, Níquel Náusea, tudo que foi publicado de artistas brasileiros na revista Animal. E, além do antigo, o novo foi surgindo e aproveitei o ensejo e acabei por conhecer e adquirir o que saía no circuito de HQs nacionais como Santô e os Pais da Aviação, Irmãos Grimm em Quadrinhos, Bang Bang, Prontuário 666, Jubiabá, entre outras.

Eu percebia que o mundo das HQs diferentes era muito mais vasto, talvez até do que o das HQs habituais. N próprio mundo das HQs ditas comuns, havia muito a ser explorado. Alguns gibis eram diferentes dentro da mesmice. Era o caso do idolatrado Watchmen, que falava do mesmo de forma totalmente diferente e inédita. Tínhamos Sandman que era um verdadeiro mundo a parte, mesmo estando dentro do Universo DC. E o selo Vertigo trazia mais e mais HQs que você se perguntava, como eu pude viver sem ler isso? Era o caso de Preacher, Hellblazer, Livros da Magia e etc.


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Meu universo quadrinhístico se expandiu e até mesmo se dividiu em universos paralelos, fazendo com que eu entendesse que não havia isso de "quadrinhos de super-heróis" ou mangá, ou fumetti ou quadrinho europeu. Haviam apenas os quadrinhos, fosse de que nacionalidade fosse e as divisões só existiam para efeito de identificação, nada mais. Se fosse comprar uma HQ tinha de ver se eu gostaria dela não pelo país em que foi produzida, mas pela história que contava ou se a arte me agradava. A experiência contada no início mostrava isso. Eu não sabia de que país a HQ Shakespeare em Banda Desenhada tinha sifo feita, eu apenas queria lê-la. Eu só não sabia que a lição era essa, na época.

Muita gente que está acostumado a ler somente super-heróis torce o nariz para outro tipo de quadrinho, justamente por serem diferentes. E, alguns quem lêem quadrinhos diferentes, acham que são melhores do que quem lê quadrinhos de super-heróis. Um meio termo é necessário. Ninguém é obrigado a ler o que não gosta, mas se não experimentar não vai saber se gosta. Pelo menos foi o que aprendi com Shakespeare e Gianni de Luca.

No fim das contas, sejam de onde forem os quadrinhos, o que importa é a viagem e não o veículo. Ou vice versa.


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Meu quadrinho diferente que estou lendo esses dias




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