domingo, 28 de novembro de 2004

Aniversário de 2 Anos

DOIS ANOS DE RAPADURA AÇUCARADA
Porque a Liberdade é Doce, Mas Não é Mole Não!
Cronologia Rapadurológica:

28 de Novembro de 2002 - Se ter nada para fazer (e até hoje assim), Eudes, vulgo OutsiderZ, abre um blog, depois de perder o preconceito. Não dizia nada, colocava uns links, e o blog tinha visitas sabe-se lá por quê.

25 de Dezembro de 2002 - Muda do Weblogger para o Blogger.com.br e continua a mesma porcaria de sempre. Consegue mais visitas porque não é besta e manda uns links para o Ueba.

29 de Dezembro de 2002 - Escaneia uma página da revista Almanaque Marvel #03, uma história do Deadpool, a pedido de um amigo. Ao usar o velho scanner encostado, pela primeira vez, um raio o atinge junto com um isótopo radioativo e uma aranha alterada genéticamente e ele se transforma no Scanner Man. Lembrando que alguém colocava scans de HQs da rede, o Carcaju, ele, embriagado pelo poder adquirido, começa a escanear febrilmente... em termos, já que o scanner leva um minuto para cada página...
15 de Janeiro de 2003 - Tendo escaneado Watchmen, Crise nas Infinitas Terras e Camelot 3000, aprende que se zipar as HQs, em vez de colocar página por página e se der auto-levels tira o amarelado das páginas das HQs velhuscas, refaz tudo de novo e recoloca tudo de novo no Kit Net. Tuego do Loompas foi quem deu a primeira dica. Grandes poderes requerem um scanner melhor, mas ainda não era desta vez.

13 de Fevereiro de 2003 - O Kit Net apagas os arquivos uloadeados. Recolaca-se.

25 de Fevereiro de 2003 - OutsiderZ começa a receber contribuições de um monte de gente disposta a ajudar com os scans.

28 de Março - Apagam-se novamente os Arquivos do Kit Net. Algum supervilão estava agindo por trás... quer dizer... bem é... ah, vocês entenderam.

30 de Abril - Já tem uma penca de gente que ajuda com o scans, dando dicas para melhorar o blog e começa-se a diagramar revistas que não estão sendo publicadas no Brasil ou que não tem previsão de serem publicadas como, por exemplo, Planetary.

15 de Maio - O Rapadura Açucarada é citado na revista Herói Especial #05, junto com outros sites e blogs de scans. A matéria não se põe a favor e nem contra. Seria um plano maligno? Nunca se soube.

18 de Junho - É fundado o Immateria, blog que se propõe a colocar apenas revistas traduzidas e diagramadas. É constituído pelo supergrupo que ajudava no RA, capitaneado pelo Thiagaum.

22 de Junho - O RA ganha uma matéria no jornal O Correio de Campinas. Duas páginas...puta que pariuuuuuuuuuu!!!!!.
17 de Julho - Não aconteceu nada de extraordinário que eu me lembre.

26 de Agosto - Problemas sérios com o provedor Kit.Net. Tudo bem, o fato de ter dois Gigas de HQs no servidor, com uma taxa de transferência altíssima, ajudava a piorar isso.

29 de Setembro - Acaba-se tendo que mudar para um servidor pago, com a ajuda do pessoal que colabora. Isso, é claro, ajudou a determinar o fim da Era de Ouro dos scans.

07 de Outubro - Depois de meses com o pior scanner da face da Terra, compra-se um novo. Enquanto com o outro se escaneava e podia-se ler uma HQ durante o processo, o novo não deixava nem respirar.

15 de Outubro de 2003 - Fim dos scans. Com um golpe final, termina a fase áurea dos scans. Pelo menos por links diretos. E OutsiderZ gastou uma grana num scanner novo... putzgrila. Acontece algo mais ou menos como a Morte do Super-Homem. Citado na Folhateen, no Sobrecarga, na Wizard #01 (não explicitamente) o fim dos scans (pelo menos por links diretos), causa uma comoção nacional.
E assim, SCANS NO MORE!!!! OutsiderZ entrou numa fase estranha, onde foi de matérias sobre atrizes gostosas, sobre filmes de super-heróis trash, links e, pasmem, poesia! Termina com o blog, mas não consegue ficar mais que uma semana longe. Parecia que era o fim dos scans (pelo menos por links diretos)... até que em agosto de 2004 Lobo Schmidt, da Toca do Lobo, indicou-lhe o Walla. e ele pegou seu uniforme de volta na lata do lixo e voltou a luta.

Cabe aqui um agradecimento a todo mundo que ajudou e ajuda o RA a ser o que é, não vou citar nomes porque é muita gente e ficaria mau deixar alguém de fora... que papo mais gay.

Obs.: A maioria das datas acima estão inventadas, até parece que eu tenho essa memória toda.
E PARA NÃO PERDER O COSTUME:

Aragones Esmaga Star Wars - Souza envia esta HQ que faltava da Trilogia Destruidora de Sergio Aragones. Rapadura_livr9.

Demolidor - O Filme - Quadrinização do filme, conforme o titulo já diz. Rapadura_livre9.

Rocketeer - Enviei novamente, porque acho que na outra conta está com defeito, não lembro. Rapadura_livre9.


quarta-feira, 28 de julho de 2004

Alma/Carinho

ALMA

Ouvi ao longe tua voz gentil menina de olhos alegres
Certamente respondi com um aceno que retribuíste
Percebi o quanto teu rosto se iluminava quando assim o fiz
Sentia que teu coração ritmava com o meu

Ouvia tudo ao redor pulsar como música, era tua alma
Tua alma estava ao meu redor, estava em tudo, em todos
Como um acorde mais forte senti teu beijo suave
Como um refrão, senti evidente beleza interior

O ar que eu respirava estava mais leve, sentia teu perfume
Me sentia envolvido por uma fragância divinamente humana
Parecia que o vento tomara tua forma e bailava agora
Diante de mim, via você num rodopiar hipnótico

Tua alma, era tua alma que me mostrava você
Eu enxergava através das janelas que me foram dadas
E via além da mera natureza, via além da tua beleza
Que me deixava atõnito e ao mesmo tempo enlevado

Quem me dera ter estado no princípio de tudo
Onde tua alma infinita jamais teve início e sempre existiu
E lá estando olharia através de ti veria o paraíso
Onde os poetas encontraram toda sua inspiração.



CARINHO
Eventualmente seus olhos brilhavam, deixando sua alma transparecer 
Nem era preciso muito esforço para amá-la de todo coração 
De seu sorriso inquieto e contagiante sentia-se seu carinho 
Nem mesmo o mais sisudo ficava sem sentir por ela afeição 

Em questão de segundos ela fazia amigos como quem colhe flores 
Sua vivacidade deixava a todos mais conscientes de como a vida é bela 
Em suas palavras estavam inscrustados os mais belos elogios 
Que fazia a quem amava, deixando-os em estado sublime 

Juvenil como o amanhecer com seus raios de sol 
Encantadora como uma pequena fada de um conto imaginário 
Suave como um pétala de rosa deslizando no ar 
Gentil como o afago da mão de uma criança inocente 

Mesmo um poema era pouco para descrevê-la 
Palavras tornavam-se poucas e o poeta sentia-se impotente 
Então para não deixar de completar sua poesia 
Ele lembrava do lindo rosto dela e a inspiração vinha.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

Um Conto Para Se Esquecer

UM CONTO PARA SE ESQUECER

Passei a noite escrevendo um conto, acabei por pegar no sono e não consegui terminá-lo. No dia seguinte ao acordar, me dei conta que o computador ficara ligado e eu nem mesmo havia salvo nada do que escrevera. Pior ainda eu não lembrava nada do que escrevera. Corri para o computador, que estava com o monitor apagado, e liguei o mesmo, para sentir o horror tomar conta de mim: não havia nada na tela. Quando digo nada é nada mesmo. A tela acendeu e só havia um grande espaço em branco ocupando a tela.

Minha confusão aumentava. Não só o que eu escrevera estava perdido, mas também tudo mais que havia no computador, pelo menos enquanto eu não conseguisse resolver aquilo. Toquei no mouse, nada acontecia. Não sabia se era um problema intermitente. Se eu reiniciasse o computador, toda e qualquer chance (se é que havia alguma) de recuperar o que escrevi, estaria perdida.

Fiquei ali, parado, olhando para aquela tela hipnoticamente branca, como a minha mente estava em relação ao conto que eu escrevera poucas horas antes. Um grande cansaço se abateu sobre mim. Eu torcia para que eu estivesse sonhando. Mas sabia que não era. Eu ainda sabia diferenciar sonho e realidade.

A tela piscou. Ou não? Teria sido apenas eu? Acho que pisquei e achei ter visto a tela voltar por menos de um segundo. Parecia que eu avistara, naquele átmo de tempo, o editor de texto, totalmente preenchido com minhas palavras. Parecia que eu até mesmo vira parte do título do conto: "...ESMO".

Mas não, era apenas minha imaginação funcionando para me dar alguma esperança. A tela agora estava me incomodando. Uma decisão se fazia urgente. Eu devia desligar e voltar a dormir. Esquecer tudo aquilo, não adiantava mais. Depois que dormisse mais eu tentaria resolver o problema do computador, que naquele momento era o menor dos meus problemas. Eu precisava do conto. Para hoje.

Não precisei tomar decisão alguma. Com um som de um clique vi a tela do computador piscar, ficar mais branca (se isso era possível) e desligar-se, como quando se desliga normalmente. Agora se fora mesmo, não havia mais o que pensar, a não ser o fato inquietante de eu não me lembrar de nada do que havia escrito. Agora eu estava preocupado apenas com esse meu problema de memória. Fui deitar. Genial, também estava sem sono.

Fitando o teto, parecia que eu continuava vendo a tela em branco do computador. E eu realmente imaginara ter visto uma parte do título: "...ESMO"? De repente senti um torpor no corpo, o cansaço aumentara, mas também um certo alívio. Parece que eu começacava a aceitar o inevitável. Talvez eu não devesse lembrar o que escrevi, devia ser algo tremendamente ruim. senti os olhos pesarem de sono. Comecei a dormir e meu último pensamento foi que talvez fosse UM CONTO PARA SE ESQUECER MESMO.







sábado, 24 de julho de 2004

Eterna

ETERNA

Terna, assim é tua alma, é terna
Ternura que desabrocha de dentro de teu sorriso
Candura que se revela no teu olhar
Doçura que teus gestos deixam notar

Não é algo você possua, é algo que vc é
Você é amor, não apenas tem amor
Você é o desejo feito a uma estrela cadente
Você é a linha da vida na palma da mão

És a paisagem que envolve o andarilho
Que solitário sorri tal é a tua beleza
És do mar a onda selvagem
Que ainda assim tem uma certa mansidão

Você sempre será a lembrança de saudade
O riso infantil que escapuliu por acaso
A mão que acaricia o rosto cansado,
E na tua ternura, serás sempre eterna.

quinta-feira, 22 de julho de 2004

Moça Misteriosa

MOÇA MISTERIOSA


Estava a percorrer a estrada, aquela da vida
Como faço desde que nasci, e então a avistei
A beira da estrada
Caminhava decidida
Ao passar por perto dela, sua mão eu agarrei
E a puxei

A moça misteriosa
Senti sua mão firme, mas ainda assim gentil
Pensei que ela fosse resistir
No entanto, apenas adentrou o meu caminho

Com seu sorriso um tanto irônico, caminhou
Ali ao meu lado, por vários minutos
Conversava e ainda assim, continuava um mistério
Revelava tanto de si em suas ações, em suas palavras

E a moça, de uma personalidade febril
Caminhando ao meu lado, me fez logo perceber
Que havia algo estranho, que eu não compreendia
Eu estava tão absorto em sua simpatia que não vi

Daí que em seu misterioso encanto, pude perceber
E nem mesmo me senti surpreendido
Pois ela não estava no meu caminho caminhando
Era eu quem na sua estrada estava.

quarta-feira, 21 de julho de 2004

Formas de Amar

FORMAS DE AMAR

No silêncio, no meu emudecido calar
No riso, na alegria descomedida
Nas lágrimas, nem sempre de tristeza
No olhar, que compreende e é compreendido

Na etérea realidade, que não se deixa enganar
Na paixão, que se mantém acesa
Nos trechos daquela música, que tornou-se nossa
No cheiro do teu perfume, que tomou meu ar

No beijo, incomum e demorado
No abraço, que parece interminável
Na loucura, que me deixa são
Na poesia que escrevo a todo instante

As formas de te amar são tantas,
Incontáveis,
Não há poesia que as enumere
Mas talvez eu consiga... espere.

terça-feira, 20 de julho de 2004

Menina

MENINA



Menina de belo sorriso, abrigo
Abrigo do sol abrasador,
Renasce aos olhos que te anelam,
Em belo botão de flor

Menina de belo sorriso, contagia
Contagia e agita todo meu ser
E ser apenas humano é o que sinto
Ao teu sorriso me derreter

Menina de belo sorriso, encanta
Como magia de um sonho recorrente
Que sela o meu lábio para um beijo
Soprado neste encanto de lua crescente

Menina de belo sorriso, inspira
Inspira canções e versos de poesia
Que são inscritas no âmago
De alguém que teu sorriso aprecia.

segunda-feira, 19 de julho de 2004

Anatomia

ANATOMIA





Música aos meus ouvidos, assim é tua voz
Orvalho brilhando com o sol da manhã, teus olhos
Seda macia meu rosto afagando, tuas mãos
Estrada em que me perco, maravilhado, teu corpo

Quadro pintado por artista divinal, teu rosto
Marés que me puxam pra perto de ti, teus cabelos
Colunas muito bem torneadas, tuas pernas
Correntes de carinho, que me envolvem, teus braços

Lugar onde minha cabeça encontra consolo, teu colo
Se estou triste aí é que eu choro, teu ombro
Onde recebo beijos e palavras de amor, tua boca
O que te traz até mim, quando estou só, teus pés

Conta as horas que faltam para que eu chegue, teus dedos
Me faz viajar ao paraíso na terra, tua libido
Ouve minhas declarações sempre apaixonadas, teu ouvido
E a parte em que moro, com tua permissão... teu coração.

RUMOS

Cada passo, um aprendizado mais
Na direção que nos leva a paz
Cada palavra falada no tempo certo
Trás o amor cada vez mais para perto
Cada gesto de carinho, afagando uma criança
Mostra que nem tudo está perdido, há esperança
Cada arma que é derretida, transformada
Dá um novo vigor a esta Terra tão mau tratada
Cada pássaro liberto de sua pequena prisão
Traz um novo canto, diferente, com mais paixão
Cada árvore não cortada, sobrevive, dá semente
Para arborizar um novo tempo que vem pela frente
Cada animal liberto de seu frio cativeiro
Faz o homem voltar a ser humano inteiro
Cada porta que se abre para alguém em aflição
É uma lágrima de desespero que não cai mais ao chão
Cada vida salva da morte numa guerra ou aborto
É o futuro que se cria, no caminho certo, não torto
Cada amigo que cativamos com tanto carinho
É uma pedra preciosa que enfeita o caminho
Cada palavra escrita por tantos e tantos poetas
É porquê a vida é bela, e essa afirmação é certa.


LIBERTAS


Asas que batem para longe
Sem se importar para onde ir
Só estar livre é o que importa agora
Pés que correm como o vento
Sentindo o mesmo contra o rosto
Corpos que planam no céu
Não estão voando, eu sei
Estão num êxtase que os mantém no ar
Espíritos soltos nesta dimensão
Galope veloz, na planície infinita
Mãos acariciando o que é etéreo
Brilho nos olhos iluminando a escuridão
Não existe mais a penumbra
O perfume da liberdade é de grama molhada
A música do liberto é o barulho da chuva
Não há mais o medo
Não há mais a guerra
O ódio foi esquecido nos corações
A inveja se transformou em admiração
O ciúme em zelo amoroso
Cada humano se torna um ser
Pois ser humano é um milagre
E nos nossos corações, sabemos:
Libertando seremos também!




SE A LÁGRIMA...


Se a lágrima chegar deixa ela rolar
Chora bem baixinho, para a tristeza lavar
Mate essa saudade que está tendo de sí
Vá adiante, com a força que existe em tí

A imagem no espelho, que viste, a interior
É você por inteira, a pessoa que é só amor
O amor é tanto que quer pra sí o melhor
E você merece, mas saiba, não estás só

Se a lágrima chegar deixa ela rolar
Estarei junto a tí, para te acompanhar
A tristeza eu sei, nunca pode te vencer
Ela é passageira, logo vai desvanecer

Mas se ela demorar, parecendo infinita
Lembre que alegre, você é bem mais bonita
Não, não ela não tira a sua beleza
Você é bela independente de tristeza


Se a lágrima chegar deixa ela rolar
Deixe fluir tudo que está a te abalar
Mas eu sei, pois te conheço que és pura alegria
E é com ela que haverá o raiar de um novo dia!
Mas, amiga querida, se a lágrima chegar...
Deixa ela rolar!



sexta-feira, 16 de julho de 2004

Canção do Inverno

CANÇÃO DO INVERNO
Ela cantava a canção do inverno , tocando em seu violão
A cantiga não tinha nada de fria, como a estação
Seus lábios dançavam em uma poesia divina
Cantando palavras, com sua voz de menina

Seus olhos tão belos, acompanhavam as cordas
Seus dedos, tocando a canção, não erravam uma nota
A canção do inverno era a canção do amor
Amor que estava nela, que cantava o ardor

E seguindo a melodia, eu pude ver seu sorriso
Derretendo a canção, de modo preciso
Na canção que crescia, preenchendo meu mundo
Com seu canto eterno, de sua boca oriundo

E em meio a tudo, em meio à canção
Percebi mui perplexo o que me chamou atenção
A canção do inverno era nossa história contada
E senti o seu beijo, enquanto ela cantava, de forma calada.

quarta-feira, 14 de julho de 2004

A Poesia Não Tem Fim

A POESIA NÃO TEM FIM

Antes de tudo, até mesmo da palavra, a poesia já falava
Antes mesmo da escrita, a poesia já era dita
Antes mesmo do primeiro amor, a poesia já tinha ardor
A poesia sempre esteve presente

Antes mesmo da primeira rosa nascer, a poesia já estava a florescer
Antes mesmo de teu beijo eu sentir, a poesia já estava aqui
Antes até de eu louvar a tua beleza, a poesia a descrevia na natureza
A poesia nunca esteve ausente

Antes da primeira chuva cair, a poesia era quem te fazia sorrir
Antes do teu olhar me inspirar, a poesia estava a te buscar
Antes de teu abraço carinhoso, a poesia já me deixava saudoso
A poesia sempre foi coerente

Antes mesmo de você e de mim, a poesia já não tinha fim

domingo, 11 de julho de 2004

Visão

VISÃO


Na planície ouvi o chamado que tanto esperava,
Retardando minha caminhada, parei
Retirei de minha sacola uma pedra transparente
O sol que nela batia, tentava dizer algo

Na planície...

Na pedra, vi teu nome reluzir, nem percebi de pronto
Mas meus olhos puderam entrever na segunda vez
Era você

Na planície...

Vestido longo, branco com detalhes em vermelho
Lenço na cabeça, olhar de solidão
Ainda assim, sorrias
Como um pedaço do sol, como uma filha da lua
Na planície eu te avistava

Na planície...

Determinada, andavas pela planície, como se flutuasse
O balanço de teu andar, era algo de se apreciar
Algo hipnótico
E andavas sem nem mesmo o chão marcar

Sim, na planície

Teu seio, no decote do vestido, fazia um belo quadro
Como se tivesses saído de uma antiga pintura
E teus chinelos de amarrar, eram de um belo feitio
Combinando com tuas pulseiras de um colorido variado

Apenas você, estava na planície

Com tuas mãos começaste a fazer gestos de dança
Levando-as acima da cabeça,
E enfeitiçando com um olhar de fogo
A mim e a minha alma

Dançavas, na planície

Levavas a cabeça de um lado ao outro
Ao mesmo tempo que teus braços e mãos dançavam contigo
Remexias como se não houvesse ossos em tua cintura
E tua dança era o doce acompanhamento de um canto milenar

Canto que vinha da planície

Com tuas mãos acariciou meu rosto
Com tua boca, roubou-me um beijo do qual não fugi
Com tua dança, deixou-me extasiado
E se foi, fiquei ali, parado...

Na planície...

quinta-feira, 8 de julho de 2004

Boquiaberto

BOQUIABERTO

Sendo apenas noite, eu me tranquei no porão da minha mente. Mas de dentro dela fui arrebatado, como que por uma catapulta. Lançado para a realidade e caindo em teus braços surreais. Decidi, boquiaberto, receber o beijo de tua boca. Nem mesmo tive tempo de dizer sim, pois teu beijo já estava em mim. Boquiaberto.

Sentei na pedra, à beira do rio, e fiquei a esperar, durante as horas, a água parar de correr. Mas nem mesmo eu sabia por que a água corria. Quis parar, mas nem mesmo sabia como faria. Ao meter a mão na água gelada, senti um calor me preencher. Era a resposta do rio que nunca secaria. Eu estava tão insensato. Ingrato para com a dádiva da natureza.

Eu me queimei ao passar perto do fogo apagado. Jurei que estaria seguro ao teu lado, ao lado da luz que o fogo nem mesmo luzia. Era algo que dependia da fé, dos olhos internos, de ver com e mente. De repente a chama crepitou e o fogo apagado acendeu, para a chama lamber o lado oposto de minha mão, aquele lado que eu estava a proteger. Não queimou.

Dançava eu na chuva, enquanto os outros olhavam disparatados, pensando que era loucura o que eu fazia, mas a chuva é minha amiga. Eu contava os pingos da torrente que caía, e meus olhos, sim meus olhos estavam inundados de chuva e alegria. Minhas lágrimas eram a chuva e a chuva era feita de minhas lágrimas. De vez em quando um relâmpago sorria.

Atraquei meu barco no sonho mais próximo e nem mesmo, sim, nem mesmo reparei que era um sonho recorrente. Soltei a âncora, e parei ali. Saltei e o sonho não era meu, era seu. Sonho de luar, sonho de noites de festa, com músicas tocadas em violões, cantorias ao sabor da noite, alegrias escritas em melodias improvisadas. Eu tentava te enxergar por entre a neblina da noite e quando reparei, você estava junto a mim.

Então o poeta se perdeu em suas próprias palavras. E, além de você, havia a poesia marcada pelo fulgor do teu olhar, pela tua risada alegre e contagiante e por cada sussurro proferido por você. O poeta incendiou-se de paixão e suas cinzas foram jogadas ao mar de areia, onde se misturou ao deserto e no deserto ele sentiu tuas pegadas, teus passos que iam na direção do infinito. A bela mulher de saia rodada e de guizos que vai para o norte. O poeta era poeira, a poeira do deserto que te seguia de perto. Boquiaberto.


quarta-feira, 7 de julho de 2004

Cidade do Vento Leste

CIDADE DO VENTO LESTE

Ela era de longe, da cidade do vento leste
E eu me encantara pelo seu jeito gentil de ser
Jeito tímido, mas ao mesmo tempo forte
Sim, ela era forte

Nem por um minuto eu desviava de seu olhar
Olhar que me prendia de forma serena
Um sorriso que me algemava de todo
Uma singela mão que meu rosto alisava

Ela era de longe,da cidade do vento leste
Cidade que conheci, entrei e saí
Da cidade que ela morava
Onde eu me perdia e sempre voltava

Ela falava e dizia em poucas palavras tudo
Ela sorria e eu escutava o som das estrelas
Ela sussurrava baixinho e meu coração ias as alturas
Ela não estava presente, mas nunca estava ausente

Sentia que por ela eu rasgaria o fino pano da realidade
Esticaria o máximo o tempo ao infinito
E saberia que aqui ela sempre estaria, pois
Ela era de longe, da cidade do vento leste.


segunda-feira, 5 de julho de 2004

Janela Para o Luar

JANELA PARA O LUAR

Estou quase a dormir quando reparo a lua pela janela
Percebo o brilho que de longe me aproxima de ti
Penso o quanto a lua marca uma distância
E chego a conclusão de que o longe não existe

Da janela para a lua, que do meu quarto vejo
Penso no desejo que posso fazer a ela
Você sorri e diz desejos se fazem a estrelas cadentes
E eu respondo que desejos de amor se fazem a lua

Jogando seu brilho pela estrada lá fora, vejo de onde estou
Você se aproximar
Trás nas mãos um pedaço do luar
Nem mesmo sei como dizer o que sinto
O sono embaça minhas palavras

Quando você canta a música em meu ouvido
Sinto como se fosse a lua cheia a me despertar
Do minguante estado que estou, meu coração vira crescente
Uma nova lua que parece me mostrar cada vez mais você

Minhas palavras soam incoerentes e nem mesmo a poesia
Parece fazer sentido
Meus olhos ardem de sono e tento me manter lúcido
Olhando a lua pela janela

Teus cabelos negros fazem um contraponto com o brilho
Teus olhos de um singelo olhar penetrante
Penetram como o brilho dela, em minh'alma
É lua, amiga do sol
Distantes um do outro, mas compartilhando a mesma luz

Começo a colocar palavras na areia, sob o luar
E da janela eu me vejo fazendo tal coisa
Vejo que escrevo palavras na areia
E você segura minha mão

Da janela vejo a lua, e vejo a nós dois
As palavras são agora como uma carta
Escrita na areia
Sinto tua mão sobre a minha

Acho que o sono me venceu e já estou dormindo
Sinto teu cheiro cigano, teu beijo
Nem mesmo percebi que a lua que eu observava
Da janela que eu mirava, era somente você

segunda-feira, 28 de junho de 2004

Divagando

DIVAGANDO

Lá estava eu, novamente entregue aos meus próprios pensamentos. Pensava muito sobre o passado, mesmo meus problemas estando no presente. Ali de cima daquela pequena elevação que ficava no quintal da nossa casa, eu observava a rua logo abaixo. Pra dizer a verdade, podia-se ver boa parte do bairro, mesmo não sendo tão alto assim. Eu e meus pensamentos.

Logo me sentei e abracei os joelhos. Eu realmente estava distante. Os pensamentos desordenavam-se. Por entre fantasias em que eu era algum personagem de quadrinhos, com superpoderes, eu contemplava a vida, pensava em meus sentimentos, tentava adivinhar o meu futuro. Mas o que eu estava fazendo mesmo era apenas me isolando. Não estava a fim de companhia. Eu queria aquele momento pra mim.

Olhava para um futuro e tentava acreditar que nele, mais do que dinheiro, mais do que uma carreira, eu encontraria algo que a alma humana, a minha alma sempre necessitou: amor verdadeiro. Não, não como o amor da minha mãe, que está lá dentro de casa agora. Este é verdadeiro sim, sempre será. Eu pensava no amor que faria com que toda a vida valeria a pena. O amor que faria tudo aquilo fazer sentido.

Por vezes contra-argumentava comigo mesmo, ali sentado, que isso nunca aconteceria. Que era tudo ilusão, que amor não existia. Mas na mesma hora o "eu" advogado de defesa, surgia. Ele "falava" eloqüentemente na minha cabeça que sim, ele existia. Podia estar distante, podia estar muito adiante na minha vida, poderia até mesmo acontecer de eu me desencontar dele mas sim, ele existia. As vezes meus pensamentos podiam ser bem convincentes.

Eu apertei mais os joelhos, abraçando-os com mais força, apertando-os contra mim. Suspirei. Era de manhã ainda, e aquela hora passei a pensar se tal amor ainda estaria para surgir, ou quem sabe, se estaria talvez até mesmo, para nascer. A idéia foi engraçada: amor para nascer. Comecei a pensar se de repente, além de estar longe em termos de distância, tal amor também estaria longe... de nascer. E se eu só a encontrasse quando eu tivesse quem sabe, 20 anos?! Parecia muito tempo para se esperar. E se então ela fosse muito jovem?

Eu começava a sentir uma leve dor de cabeça. Eu penso demais, pensei eu comigo mesmo. Mas ali, parado, era só o que eu podia fazer. Puxei uma haste daquele troço que crece junto com o mato, e que eu nunca soube o nome. É composto de várias outras hastes como um esqueleto de guarda-chuva virado para cima e tem um monte de grãos, também verdes, nestas outras hastes. Fiz o que faço sempre que as pego. Vou retirando cada uma daquelas hastes, como uma espécie de bem-me-quer mal-me-quer. No fim só fica a haste principal. Não sei porquê isso me acalma.

Amor verdadeiro... Sorrio sem saber porque penso estas coisas assim, sem mais nem menos. "Corto" o vento com a haste, ouvindo o barulho que ela produz. Tento fugir de meus pensamentos. Mas eles não se vão assim tão fácil. Resolvo que está na hora de entrar. Quem sabe eles ficam lá fora, pelo menos por enquanto. Afinal tenho 8 anos, e muito tempo para esperar... o amor verdadeiro.


domingo, 27 de junho de 2004

Mil Vezes

MIL VEZES

Quando eu partí mais de mil vezes, você sabia
Sabia que eu retornaria
E te chamaria de meu bem, como nunca
Nunca chamei ninguém

Ficaria em seu colo, você alisando meus cabelos
Como só você sabe fazê-lo
E eu, num arroubo de carinho, te amaria mais
Mais do que sou capaz

Te beijaria, num beijo eterno e surreal
Mas não um beijo banal
Seria beijo com uma palavra nova, abstrata
Beijo de vida que a saudade mata

E na tua janela aberta, onde tu estás
Eu te esperaria chegar
Então uma flor eu jogaria
Flor com aroma de poesia

sábado, 26 de junho de 2004

Conto de Um Olhar

CONTO DE UM OLHAR

Havia um certo carinho em seu olhar. Um sorriso complacente. Eu devolvi-lhe o sorriso, tentando ser o mais simpático possível. Me sentia bobo, meio infantil. Ela não falava nada. Seu sorriso permanecia. De repente ela falou algo, citou meu nome. Creio tenha sido uma pergunta. Tento lembrar agora o que foi, mas não consigo. Prestava atenção demais ao seu rosto. Tanto que tentei responder qualquer coisa. Responder a pergunta que não lembro qual foi. Talvez eu nem tenha realmente a escutado. Lembro que eu balbuciava, e não saía realmente nenhuma palavra inteligível.

Lembro que ela deu uma pequena risada. Não me senti envergonhado. Ela não estava debochando. Notei que tudo ela fazia era extremamente angelical. Até mesmo quando riu de minha confusão em responder-lhe. Seu rosto era de uma beleza infantil, seus traços denotavam uma tranquilidade e ao mesmo tempo uma sagacidade que me deixava meio inquieto. Na minha confusão, acabei resolvendo não tentar falar mais nada. E ela apenas sorria, agora com um olhar meio tímido. Havia apenas um silêncio. Mas não era daquele constrangedor. Era um silêncio recíproco.

Então passei a reparar-lhe no meu silêncio, enquanto ela mantinha os tímidos olhos distraídos de mim. Tinha aquele ar de quem sabia tanto, mas queria aprender sempre mais. As macãs de seu rosto eram salientes. Macãs era realmente aplicável, meio avermelhadas que eram. Me perguntava se era a timidez que causava aquilo ou se era o natural dela. Seu queixo era pequeno, combinando com seu rosto miúdo. Fazia um conjunto interessante com sua boca, de lábios que não eram grossos, mas também não tão finos, apenas delicados.

Os olhos que agora eu não conseguia ver, mas que me lembrava bem, eram de uma placidez que me fazia pensar em águas calmas. Olhos negros. Águas profundas. Seu cabelo curto, também era negro. Foi daí que notei como ela era delicadamente pequena. Nem mesmo me dera conta disso, tanto que eu apenas reparava seu rosto. Neste momento, como que escutando meus pensamentos, ela levantou os olhos para mim, e perguntou algo novamente. Desta vez, apesar de estar encantado com o brilho de seus olhos, eu escutei:
- Quem está sonhando? Eu ou você? - foi o que ela perguntou.

Fiquei confuso com a pergunta e então percebi que aquela situação era bem estranha. Eu não conseguia definir onde estava, não lembrava como fui parar ali. Eu... eu estava sonhando? Não podia ser. Estava confuso. Ela estendeu a mão para tocar a minha e uma lágrima escorreu-lhe do rosto. Ela disse:
- Tenho de acordar...

Eu só tive tempo de dizer:
- Não por fav...

...

sexta-feira, 25 de junho de 2004

Teu Sorriso/Vida

TEU SORRISO

Dizem que 'mais do que mil palavras
Vale apenas uma ação'.
Então quanto vale o teu sorriso
Que diz tanto ao coração?

É sincero, carinhoso, espontâneo e casual,
Apertando os teus olhos,
Lindos olhos cativantes
Neste rosto angelical

Teu sorriso é pura alegria
Que explode em sentimento
Iluminando a nós todos
Fazendo a noite um claro dia

Como a flor que vai se abrindo
E como o sol num dia frio
Teu sorriso se abre na hora
Deixando tudo mais lindo

Assim neste sorrir você me leva
A percorrer a criação
E afirmar que tal sorriso
Só pode pertencer a Eva


VIDA

Todo dia eu me pergunto: O que é a vida?
Então a resposta vem: A vida é amizade
Não importa a distância ou se está de partida
Não importa a cor, raça ou mesmo a idade

Não importa o tempo que tenha decorrido
Não importa o quanto tenhamos andado
Não se liga se as vezes foi tão sofrido
Ou que tudo pareça um pouco abalado

A vida ainda te dirá: precisa de amigos
Amigos garimpados em minas escondidas
Onde os encontrará, preciosos ouvidos
Diamantes, pedras de altor valor, polidas

Então essa resposta me enche o coração
Passo a entender que a vida passa a ser
Melhor a cada dia, sentindo que aqui estão
Amigos prezados assim iguais...A VOCÊ!!!!!!

****************


Blog acrescentado aos blogs açucarados: KDO Blog

quinta-feira, 24 de junho de 2004

Vício

VÍCIO


Minha força de vontade escapa diante de teu olhar
Tomo um gole da bebida da qual decidi me abster
A fumaça do teu sorriso em meus poros está
Estou impregnado, totalmente viciado em você

Eu, que de vícios estou tão livre, me entrego
Ao som da tua voz que de longe escuto
Como ao som de uma música viciante, me apego
E repito o refrão vez após vez, nem reluto

Viciado que não encontra desintoxicação
Nem mesmo sabe se a deseja
Se é o vício de amor no coração
Que pode matar o viciado, que assim seja

Se preciso parar, se preciso de ajuda
Só se for ao te encontrar, vício delirante
Com tua mão firme então me acuda
És minha cura, vício desintoxicante


terça-feira, 22 de junho de 2004

Dead Man's Party

DEAD MAN'S PARTY





Ele saiu do trabalho e foi com um amigo dar um passeio por Madureira. Sempre ia até lá, fosse para comprar LPs, fosse para ir aos cinemas onde chegou até mesmo a assistir De Volta Para o Futuro 2 por lá. Passeava pelo recém construído shopping, e pelas lojas do bairro. Fazia uma verdadeira jornada, geralmente sozinho, depois que saía do trabalho. Mas neste dia, foi com um amigo. Talvez ele nunca tivesse feito o que fez se não fosse o tal amigo. Na verdade, apenas um conhecido de infância, do bairro onde ele morava.

Talvez fosse o fato de ter 18 anos, talvez fosse o fato de que nunca desafiara o perigo, talvez tenha sido apenas o amigo que o tenha instigado, ou quem sabe ainda, ele gostasse muito do Oingo Boingo. Vai saber. Sabe-se apenas que ele entrou numa dessas lojas de departamentos e foi até a seção de música. Comprou um LP qualquer que foi colocado num saco plástico. Daí ele viu que seu grupo predileto, Oingo Boingo, lançara um álbum duplo. O dinheiro não dava. Talvez até desse, mas ele já metera na cabeça que ia levar o álbum duplo... sem pagar. Só precisava de um incentivo.

Cláudio, o tal amigo, começou a fazer seu papel de instigador, quando ele apenas falou-lhe da idéia meio idiota que tivera. Não precisou que Cláudio falasse muita coisa. Ele já estava decidido. Ia levar, só não sabia como... ainda. Mas a idéia foi logo amadurecendo. Era só abrir o saco plástico que envolvia o LP comprado e arrastar o outro LP para dentro do mesmo. Não havia câmeras, nem alarmes naquela época. Pelo menos, não que ele soubesse.

E lá foi ele, fazendo exatamente como planejara. Abriu o saco plástico e arrastou o álbum duplo para dentro. Ele só fazia aquilo porquê para valer a pena estar quase tendo uma síncope, tinha de ser um álbum duplo e do... OINGO BOINGO!!! Senão nem mesmo cogitaria. E, também, pela aventura. Sua vida tão pacata e tediosa ganhava um pouco mais de emoção. Claro que estas emoções poderiam aumentar muito mais, se ele fosse pêgo. E era nisso que ele pensava e ao mesmo tempo procurava não pensar.

Seu amigo estava tranquilo, não era ele que teria de passar pelos seguranças com o pacote. Sua garganta parecia que ia fechar, seu coração pulava tanto que a camisa parecia estar se mexendo ao ritmo do mesmo. Tudo parecia mais lento, mais demorado. A saída parecia mais longe. Quando, enfim saiu para a luz do sol, não respirou aliviado ainda. Foram em silêncio até a próxima curva que os deixaria longe da loja. Ao deixarem a loja para trás, começara rir nervosamente. Acabou. Simples assim? É. Mas ele pensava, "nunca mais, nunca mais eu vou conseguir fazer isso de novo!".

Moral da história: Ladrão que rouba ladrão, pode ter um ataque do coração!

Perdão

PERDÃO

Perdão por ter acendido uma chama incontrolável
Nem mesmo tinha como mantê-la acesa
Não havia como tornar a chama palpável
Sem queimar toda e qualquer certeza

Perdão por te deixar em total desolação
Não se deixe levar por tal sentimento
Não fique aí, escondida na escuridão
Todos precisam de tua alegria, não lamento

Perdão por ser apenas quem eu sou
Lembre-se apenas do eu anterior
Que um dia teu olhar singelo admirou
Aquele que nunca te trouxe dor

Perdão por palavras que se tornaram vazias
Foram ditas sinceramente, no coração
Tantas palavras e tantas delas poesia
Sobrando apenas agora uma que pede... perdão.

segunda-feira, 21 de junho de 2004

Cheiro de Asfalto

CHEIRO DE ASFALTO

Até que enfim! Estamos em 1982 e finalmente vão asfaltar este fim de mundo. Depois que colocaram as pedras de brita por todo o bairro, eu achei que seria só aquilo e pronto. Afinal isso aqui parece meio esquecido. Pelo menos agora os patinetes poderão descer a ladeira sem cair nas valas abertas pelas chuvas fortes. Não que eu ande de patinete, não gosto.

O bairro inteiro está presente em todas as ruas. Isso aqui tá atraindo mais atenção do que a Copa do Mundo desse ano. Aliás ontem consegui entender como funciona aquele esquema de eliminatórias. Afinal, na última copa eu tinha 9 anos e não entendi nada do que estava acontecendo. A única coisa que lembro é de umas tampinhas de refrigerantes com coisas relacionadas àquela Copa. Este ano eu estou me acabando no chiclete, para completar um álbum com todas as seleções.

Mas voltando ao assunto. O sol está a pino. O cheiro do piche que é derramado está forte, mas não incomoda. Não hoje. Já vi na outra rua o Marcos e ele está com aquela camisa maluca. Ele soube que meu irmão desenhava alguma coisa e pediu que ele desenhasse o rosto do Cíclope numa camisa e escrevesse "X-Marcos". Não entendi, ele nem é fã dos X-Men.

Um rolo compressor passa por cima do asfalto já colocado em uma parte da rua. Eu faço um tour por todas elas. Nunca lembro o nome de todas, apesar do bairro se razoavelmente pequeno. Passo pela Rua Cintra, onde o asfalto não vai chegar ainda. Só lembro o nome dela porque é onde mora a Ana Carla. Aquela que já citei aqui. Pele branca, cabelos negros. Sou apaixonado por ela. As irmãs menores dela são hilárias. Eu chamo a Cristina de Coristina. Elas não estão em casa. Passo direto.

Numa outra rua, o Roberto, que conserta relógios, assiste ao asfaltamento de sua cadeira de rodas. Mais um para quem o asfaltamento será muito útil. Aceno para ele e continuo andando. Tanta gente. Nem mesmo a vinda do velho circo há uns anos atrás causou tanta comoção. Passo próximo a rua onde começa outro bairro, e noto que ali precisa urgente de asfalto, mas algo me diz que tão cedo isso não vai acontecer.

A rua principal já foi asfaltada. Ela faz um reta do ponto de ônibus até a rua onde moro. Quer dizer, ela continua ao se subir a tal ladeira dos patinetes, ou daí eu viro a esquerda e entro na minha rua, a Rio Tejo. Eu dou uma olhada rápida e vejo que duas pequenas ladeiras próximas a minha rua não serão asfaltadas. Isso é um problema, pois quando chover a lama será arrastada e vai, com certeza, cobrir o asfalto. Eu suspiro e continuo andando.

A rua onde acontece a mais tradicional festa junina do bairro já está completamente asfaltada. O Arraiá da Dona Rosa deve arrasar este ano, já que o pessoal vai poder dançar em cima do asfalto. Eu nunca participo. Nem na escola, nem no bairro. Sou tímido demais para isso. Já fui a alguns ensaios e participei de brincadeira. Mas nunca teria coragem de participar da festa em si.

Foi nesta rua que de certa forma eu conheci Ana Carla. Mais ou menos. Eu estava na casa que minha mãe trabalhava e olhando por cima do muro vi o irmão dela do outro lado. Lembrava dele, e que ele era irmão dela, porque os via passar para a escola, da padaria onde eu trabalhava. Saltei o muro e comecei a fazer amizade com ele. Fomos até a casa dele (meu objetivo) e lá eu a conheci. Daí, quase sempre que podia eu passava o dia por lá. A mãe dela uma pessoa muito simpática, já o pai parecia um zumbi e nunca dava as caras, preferindo ficar dentro de casa.

Acabei por fazer amizade com várias pessoas da rua, inclusive com a Neve - que sofre com as brincadeiras por causa daquele comercial de papel higiênico Neve, e de vez em quando alguém a sacaneia gritando "Alfredooooo" - e sua irmã. Moram no único prédio do bairro, de três andares. E todos esses moram na tal Rua Cintra, que como já disse, não será asfaltada.

Bom, está anoitecendo e é claro que eles não terminarão de asfaltar o bairro inteiro em um dia apenas. Ou mesmo dois. Assim eu resolvo ir para casa. Piso no asfalto recém colocado e sinto o calor sob meus chinelos. Parece haver um significado maior em tudo aquilo e sei que nunca vou esquecer este ano em que o bairro foi asfaltado. Claro que a Copa do México servirá um bocado como referência, e se o Brasil ganhar, mais ainda. Quem sabe ele ganhe. O Zico está muito bem na Copa. Creio eu. Sou péssimo conhecedor de futebol.


sexta-feira, 18 de junho de 2004

Pelo Que Você é

PELO QUE VOCÊ É


O livro é aberto e meu nome é chamado
Serei eu por algum tipo de deus julgado?
Não, é apenas o livro do destino que é aberto
O que está escrito nele não sei ao certo

A águia consegue me levar como sua presa
Serei eu servido à sua selvagem mesa?
Não, é apenas um gesto de carinho
Não sinto medo, não me sinto sozinho

A mão da Morte meu ombro ela toca
Serei tragado tão cedo, minha vida não importa?
Não, é apenas um pequeno aviso
Ela ainda vai demorar, diz ela com um sorriso

Sou levado a um tribunal por um crime que desconheço
Serei condenado por minhas palavras ditas com apreço?
Não, a sentença é dita comigo ali em pé
És livre, não pelo que você diz, mas pelo que você é.

quinta-feira, 17 de junho de 2004

Andar na Praia

ANDAR NA PRAIA

Desço a passagem subterrânea e saio próximo ao Clube de Regatas Botafogo. Ali começa meu passeio pela praia. Ando um pouco olhando a praia de Botafogo. A areia é suja, a água é muito calma, não forma ondas e não é a praia mais popular do Rio. Ops, estou na faixa para bicicletas, uma quase me acerta. Sigo adiante, olhando o Pão de Açucar, ele me acompanha por todo o percurso. Pessoas passam fazendo seu cooper matinal, outras andando compassadamente. Eu apenas ando. Sem nenhuma pretensão de me exercitar.

A praia não atrai banhistas, mas estão lá alguns pescadores esporádicos. Penso se estão ali por alguma pescaria realmente ou se só pelo prazer. Um senhor lança a linha longe, mesmo ali solitário, parece que a pesca lhe faz companhia. Ando na parte gramada do caminho olhando, ora para a água calma da praia, ora para os prédios e o trânsito ao meu lado esquerdo. Adiante uma mulher idosa coloca comida para gatos que vivem por ali.

É gostoso o caminho da praia de Botafogo. Não reparo muito nas pessoas. Estão tão perdidas em seu próprio mundo. Fico lembrando de um texto onde descrevia-se as qualidades dos cariocas e falava como os cariocas cumprimentavam-se sem nem mesmo conhecer as outras pessoas. O pouco que reparei nas pessoas não vi isso acontecer. Daí, parei de repará-las. Fiquei com a paisagem.

O ar continua frio, mas não me incomoda. Chego ao caminho de terra que vai me levando em direção à Praia do Flamengo. Passo por um canal, atravesso uma pequena ponte e estou lá. Estão desarrumando o palco e tudo mais que estava relacionado a passagem da tocha olímpica. Nota-se que tudo está devagar, talvez por ser ainda cedo. Há uma preguiça coletiva. As ondas fazem um barulho bom, hipnótico.

Chego até o caminho de asfalto, onde as pessoas caminham sozinhas, com seus carrinhos de bebês, com outras pessoas ao seu lado. Sigo para o caminho que fica mais perto da praia. Vejo o palco do show do dia anterior. Ainda está muito longe de ser desarmado. Vejo algumas cabanas armadas de atendimento médico. Penso comigo como se dá uma atenção detalhada a essas coisas, como se gasta dinheiro nisso, e penso nas pessoas que estão dormindo a noite, no frio. Noto que são várias as cabanas de atendimento médico. Só posso pensar. O barulho do mar afugenta meus pensamentos.

Resolvo que já andei o bastante. Dou meia-volta inicio meu retorno. Um rapaz sentado olha para mim, se levanta e vem na minha direção. Um outro com uma câmera fotográfica também vem. Ele começa a dizer que está fazendo uma enquete. Detesto essas coisas. Não sei o que dizer, fico enrolado. De repente o rapaz me pede desculpas e diz que precisa fazer a enquete com uma pessoa que está passando ali, pois ela é uma personalidade. É o Nílton Santos. Eu penso, ufa! Salvo pelo Nílton Santos. Tento me lembrar quem ele é, fico sem lembrar direito se ele é ex-jogador de futebol ou se tem algo a ver com a ditatura... minha memória é péssima.

O rapaz sai dizendo que depois fala comigo. Eu sorrio comigo mesmo, afinal eu estou andando e não vou ficar ali esperando. Entro numa curva para sair logo dali. Refaço meu caminho. Ando calmamente em direção a Botafogo. Vejo o Pão de Açucar de mais um ângulo diferente. Uma equipe de fotógrafos está lá adiante, claro, aproveitando o cartão postal do Rio de Janeiro. É um espaço onde também muitas pessoas estão fazendo exercício ou estão com seus cães brincando. Há uma churrascaria Porcão ali. Passo, gostando daquele pedaço que tem o chão de terra batida. Lembra minha infância.

Chego a parte calçada e minha jornada de volta está quase completa. Apenas caminho, sem pretensão nenhuma de me exercitar. Ando com calma.

quarta-feira, 16 de junho de 2004

Através

ATRAVÉS

Condição de urgência esta gratidão que sinto
Eternal turbulência se manifesta em cada gota
Presente entregue num passado longínquo
Através de palavras escritas de maneira afoita

Na tarde que o dia trouxe um pouco mais cedo
Dedilhando palavras numa partitura musical
O grito que ouvi foi alegria, não de medo
Através da vastidão distante, felicidade imortal

Emoção lançada pelo prazer da reciprocidade
Abraçando o livro guardado na caixa de madeira
Onde estão as jóias de grande valor, sem igualdade
Através de um amor que perdura a vida inteira

Enevoando o horizonte no contorno da pintura
Vejo a chuva cair como brincos numa elegante moça
A torrente de água chora com beleza e candura
Através dos céus a tempestade cai com toda sua força

Signo da sorte num horóscopo secreto
Avisando sobre o futuro ao solitário incauto
Com lábios recitando um antigo dialeto
Através de uma voz que me toma de assalto

Vejo que o tempo desalinhou seus cabelos
Mas o vento subsequente tratou-os com carinho
Encenando um aviso de que poderia tê-los
Através de um poema escrito, também, em completo desalinho.

Era Uma Vez... ou Duas

ERA UMA VEZ... OU DUAS

Estranho que parando para pensar um pouco aqui, no que escrever hoje, eu comecei a me lembrar de que fui uma criança um tanto quanto séria e precoce, agindo como um adulto em miniatura. Eu vivia com o que se chama "cenho franzido", pensativo. Minha mãe achou que eu tinha problemas com o sol e logo cedo eu comecei a usar óculos com lentes de grau dessas que escurecem, como é mesmo o nome? Caramba, esqueci! Bom, só sei que são as lentes que uso até hoje. Me pergunto se meu jeito de encarar a vida, quando era criança, acabou fazendo com que eu usasse óculos desnecessariamente. Não sei.

Claro que eu não era sério 24 horas. Eu era alegre, nossa família, meus tios e tias por parte de meu pai (por parte de minha mãe eu só conhecia um tio e uma tia que via muito pouco) sempre foram alegres por natureza, e não era diferente comigo e meus irmãos. Mas, eu sempre estava pensando na vida, desde que me entendo por gente. Na sala de aula juntava-se isso a minha timidez e eu era como um túmulo. Quase não falava. Ganhava status de aluno comportado.

Percebo em várias fotos minhas quando criança, que eu estou ali como se não estivesse. Pensando apenas. Lembro de uma em que eu era muito, muito pequeno, estou num velocípede, apenas de short, entre alguns tios que estão em pé. Eu olho para a câmera como quem a está repreendendo, como quem não está nem um pouco contente. Se não fosse as gordurinhas que aparecem devido a eu estar sentado no velocípede e aos meus tios sorrindo, eu diria que seria uma foto bem séria.

Com o tempo e a idade parece que eu fui "desamadurecendo". Passei a encarar a vida com cada vez mais humor, ceticismo e sarcasmo. Apesar de a timidez ser grande ainda, eu agora sabia rir da vida, rir com a vida. Lembro que a vida foi ficando cada vez mais "engraçada" a medida que eu crescia. Eu me desapontava com as coisas, sofria, mas no fim de tudo, demorasse o que demorasse, eu ria.

Isso acabou me transformando no inverso do que eu era quando criança. Me tornei um adulto que no fundo é uma criança. Foi como um crescimento ao contrário. A medida que eu crescia em tamanho, toda aquela seriedade diminuía. Claro que assim como eu não era sério 24 horas quando criança, não sou um palhaço 24 horas. Apenas sou sério quando preciso ser. Se ainda fecho a cara para pensar, volto à imagem daquele menino sério, mas quase sempre estou sorrindo. Não porque a vida se tornou melhor, apenas porque não adianta chorar.

Lembro de um episódio em que esse meu jeito sério de ser confundiu alguém. Eu devia ter uns 13 anos. Trabalhava numa padaria pequena, sozinho. Estava lendo as tirinhas de um jornal qualquer na parte baixa do balcão. Chegou um cara, um vendedor, ele vendia revistas pornôs, de piadas e etc. Era estranho, eu não lembro de ter conhecido nenhum outro vendedor de revistinhas pornôs. Bom, só sei que ele as vendia como quem vendia um tônico fortificante, mostrava o produto, falava pelos cotovelos, e eu só o encarava. Na verdade, eu estava em outro mundo, no meu mundo. Pensava nos meus problemas, e só o olhava, não olhava para as revistas. De repente ele parou. Pegou suas coisas e ao sair disse: "Desculpe eu não sabia que você era crente".

Eu sempre acho graça quando lembro disso. Pois eu não disse uma única palavra. Eu estava apenas pensativo, longe do que ele estava dizendo. Acho que meu jeito sério deu a ele a impressão errada. Mesmo que eu quisesse as revistas, não tinha dinheiro para ficar com elas. Não estava prestando atenção em nada do que ele dizia.

Se fosse hoje em dia... eu apenas começaria a me segurar para não rir da cara dele.


terça-feira, 15 de junho de 2004

Caminho de Terra

CAMINHO DE TERRA


Saio do asfalto e entro no pequeno caminho de terra
Deixo quem eu sou para trás
Avanço pelo estreito caminho relembrando o passado
Quem eu sou agora está mais a frente
Piso no chão de pés descalços, ando devagar

O caminho, o pequeno caminho de terra me leva
Eu agora não sei mais aonde vou
Estreito, longínquo, uma vereda sem fim
Não posso mais voltar
O caminho de terra surge cada vez mais

Desacostumado que estou, meus pés se machucam
Mas a dor é pequena, sou quem eu sou
A curva adiante parece nunca chegar, caminho de terra
Me acostumo com o novo lugar
Meio caminho andado, meio tempo passado
Vejo que há alguém adiante

O caminho de terra se estende, caminhos dentro de caminhos
Passo por você e toco seu braço
O caminho parece infinito e, sim, talvez seja
Você passa a trilhar o mesmo caminho
Mas sendo longo o caminhar passo a recitar

O poema do caminho de terra
Você sabe um poema, um poema antigo
Não paro mais para pensar, nem descansar
Sua poesia é mais do que posso merecer
O caminho agora é apenas o que tenho a percorrer

Na sua cantiga você fala de um caminho e estou nele com você
Então não paro mais de deixar minhas pegadas
Você me conta ao ouvido o segredo da distância
O caminho e a poesia agora são um só
Sei agora, eu sou a terra e você meu caminho.

segunda-feira, 14 de junho de 2004

À Beira da Praia


O HOMEM À BEIRA DA PRAIA


Sentado a beira da praia, olhando a vida, percebo você
Ao longe, tão distante que meu coração fica agitado
Sozinho na praia, onde não posso realmente te ver
Te imagino vindo a mim num barco mistificado

Você está agora comigo, na beira da praia
Nada fala, pois não é preciso, apenas fica comigo
O vento remexe teus cabelos e agita tua branca saia
Parece que tudo é uma pintura de um belo quadro antigo

Aos olhos das pessoas que passam, pareço estar sozinho
Mas tua presença se faz sentir em todo redor
Sinto teu beijo suave, no meu rosto, com carinho
Sinto meu mundo, fora do mundo, um mundo melhor

Por um instante, volto a estar na praia, apenas eu
Você se foi, mas voltará, garante um sussuro do mar
Mesmo sozinho estou feliz, não sei dar adeus
E as águas da praia farão você retornar.

sexta-feira, 4 de junho de 2004

Olhar ao Longe

OLHAR AO LONGE


Ela fita a distância num olhar mudo, ela fita o mundo
Impossível distinguir o que somente ela vê
Num olhar de um azul do mar profundo
Olhando pelas janelas de sua alma
Focaliza algo num ponto qualquer
Ela vê algo oriundo
Do seu espírito mulher

Os cabelos esvoaçando ao vento, nos seus olhos
São como a dança de algo perdido no tempo
Roubando o cenário, não deixando espólio
Ela gesticula fazendo um desenho no ar
Um círculo num gesto de magia
Aponta algo que não sei onde está
Ela sorri da minha mente tardia

Olho na direção de seus olhos incrustados
Vejo a linha fina do horizonte quente
Uma ilusão de ótica, o que vejo mudado
É algo que parece meio inconsequente
Um óasis talvez, uma cidade quem sabe
Tento decifrar o que ela me revela
Parece que saber, no entanto, não me cabe

Quando retorno meu olhar para seu rosto pacífico
Noto que ela não está apontando distância nenhuma
Que não há nenhum ponto específico
Sem fôlego, entendo encabulado
Todo o ritual de seu olhar incidental
Ela olha, então, para onde estou, ao seu lado
E seus olhos revelam o segredo final

quinta-feira, 3 de junho de 2004

Poesia Perdida

POESIA PERDIDA




Parar para expressar o que sente e perder
Num pequeno lapso, num pequeno erro
O poema se foi, como a te desobedecer
Te fazendo entrar em desespero

Palavras perdidas, sentimentos perdidos
Jóias retiradas do fundo do poço, coração
Cada pensamento registrado, derretido
Como ouro, logo roubado por vil ladrão

Poema inacabado, poema não publicado
Sede não saciada, romance não estabelecido
Viagem interrompida por algo inesperado
Susurros perdidos por um surdo ouvido

Poema evanescido pela corrente de ar
Levado por um erro fatal
Inspiração da alma que procurou se elevar
Para escrever algo tão vital

O sono dominou a minha mente
A madrugada levou algo singular
Palavras que viajam ao sol nascente
Fazendo uma poesia surgir para aquela relembrar.

terça-feira, 1 de junho de 2004

Duelo

DUELO


A poeira é levada pelo vento quente,
Ao longe nada se vê além dos casebres mal acabados
Mas no meio da estrada que leva até eles
Em pé, olhando na minha direção, está meu algoz

Eu não tenho armas, eu não tenho nada
Eu tenho a roupa do corpo que de nada me protege
Ele tem armas de fogo
Suas botas se arrastam na poeira, ao longe

Eu não posso fugir, tenho de enfrentar
Só não tenho a mínima idéia de como será
Sinto sede, a garganta seca arranha
Meu suor escorre e sinto o gosto salgado

Ao longe, ele não se move, a fumaça de seu cigarro sim
Ele saca e dispara um unico tiro, e erra
Foi proposital, um aviso
Apenas para se divertir

Não consigo lembrar por que chegamos a essa situação
Morrer, eu não sabia que seria tão dramático
Sem chances, tão covardemente
Sem direito a defesa, morrer como um cão

Ouço o segundo tiro, e sinto-o logo em seguida
Minha roupa se mancha de vermelho
Na altura do peito
A cor parece tão significativa

Eu caio, de uma única vez
O estranho se aproxima, posiciona sua arma
Na direção da minha cabeça
Pergunto o seu nome

DESTINO, ele diz, e atira.
Nada acontece... ainda estou vivo.
O estranho ainda está lá e diz:
"Vá embora, seu lugar não é aqui"

E, cambaleando, eu sigo em frente
Tendo em mente que estou vivo
Apenas porque o Destino quis
E que o deixei para trás.

Frias Manhãs

FRIAS MANHÃS DE TERÇA-FEIRA




Sou despertado do sono por um leve empurrão no ombro. Tenho de levantar, fazer a coleta de sangue para exame marcada para hoje. Estou desde ontem, 19:00 hrs, sem comer nada. Estranhamente não sinto fome. Mas minha cabeça dói. Ela dói desde ontem a noite. Por um instante esqueço e pego um comprimido e tomo. Logo depois penso que não devia ter tomado, devido a coleta do sangue. Mas já é tarde demais.

Saio com um casaco pesado e, na rua, noto que o frio não é tanto para um casaco tão pesado. Saio da Voluntários da Pátria e entro na parte final da Praia de Botafogo, onde fica o prédio da VIVO. Vejo uma garota colocar o cabelo para trás da orelha e penso o quanto acho esse gesto bonito. Fico lembrando de cabelos, muito cabelo, cabelos negros, pele branca, alva, como Ana Carla, por quem me apaixonei aos 15 anos.

Mas minha cabeça ainda dói, parece que há alguém batendo um enorme gongo, dentro dela. Entro da Avenida Pasteur. O sol começa a dar o ar de sua graça. De repente me lembro que tive vários e vários sonhos e que não consigo lembrar de nenhum. Mas num estalo (estalo, não estralo... afinal não é beijo estralado... ah, esqueçam) eu me lembro do último, pouco antes de ser acordado.

Eu estava num bar, trabalhando nele, quando alguém pergunta se pode beber uma garrafa de água mineral que está lacrada. Eu digo que não, não pode. A pessoa, um rapaz, ainda assim abre a garrafa e bebe. Eu fico muito chateado. Mas em vez de brigar, eu só digo: "Essa água está envenenada". Como é um sonho, o cara acredita. Acredita e entra em desespero. Então aparece um amigo seu com um bloco de notas, com várias coisas rabiscadas, vários textos, muito mal escritos. Nos textos ele sabem que há um antídoto para o veneno (veneno este que não existe). Quando param na página para "Antídotos para veneno em água mineral" (Eu não vi isso escrito, ma imagino que tenha sido isso, pois eles param numa página lá) começam a ler apressadamente. Mas quando se dão conta de que o que se pede para fazer é impossível. Ir a lugares distantes procurar tais ervas e etc. Impossível, ele vai morrer. Eu olho aquilo tudo e fico sorrindo, pensando como alguém pode ser tão ingênuo.

Foi quando fui acordado. Não procuro significado para o sonho. Não acredito nisso. Foi apenas um sonho que teve a sorte de ser lembrado, entre tantos sonhos esquecidos.

Saio da Av. Pasteur e entro na Av. Venceslau Braz, onde fica o shopping Rio Sul, um dos mais conhecidos do Rio de Janeiro. Mas estou longe dele. Eu estou dentro da hora, por isso não me apresso. Chego ao lugar que abriga, não só o local que onde vou tirar sangue, mas o Hospital Phillipe Pinel (que quando o vi pela primeira vez, foi que me liguei porque chamam uma pessoa louca de "pinél", é um hospital para doentes mentais). Do lado direito fica um hospital para problemas neurológicos, que me foge o nome agora. Frequentei-o algumas vezes, quando só se diagnosticava a eplepsia.

Mas meu destino é mais adentro. O IPUB (Instituto de Psquiatria Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas não vou me consultar, só coletar sangue. Entro na área em que ficam vários prédios diferentes. O pátio é agradável. Muitas árvores, algumas enormes. Viro a esquerda e entro na área perto do manicômio (não sei se chamam assim, mas várias pessoas com sérios probelas mentais estão internadas por lá). Entro e vou ao corredor em que o laboratório se localiza. Entrego minha ficha e espero. Mais 12 pessoas estão na minha frente.

Levei um livro, mas não consigo ler. A dor de cabeça não deixa. Ando pelo corredor. Olho alguns quadros. Fico pensando se são de pacientes internados ali. Um deles é meio perturbador, parece realmente representar a loucura. Tento gostar do quadro, mas não consigo, me lembra o que sinto numa crise de pânico. Me afasto dele.

As pessoas, principalmente senhoras, aproveitam para conversar. Alguns homens de meia-idade também esperam na fila. Demora um pouco e logo é minha vez. É a segunda vez que vou àquele laboratório. A enfermeira que vai tirar meu sangue tem um ar calmo. Se preocupa em que aquela borracha que aperta o braço não me machuque. Coloca-o por cima da manga da camisa. Ela procura a veia, por um bom tempo, sem pressa. Noto que meu ante-braço está levemente roxo. É o frio.

A mão dela desliza tentando encontrar a veia. Parece que ela tem todo o tempo do mundo. Ela então enfia a agulha, e retira um tubo de sangue. Depois outro tubo um pouco menor, e outro mais fino, porém, mais comprido. Lembro que da outra vez foram apenas dois tubos. Quase disse, tentando ser engraçado, se ela não ia deixar nenhum sangue pra mim. Mas estava tudo tão tranquilo. Por uns instante acho que quis ficar ali, tirando sangue o dia inteiro. Quando ela terminou e eu fui na direção da porta, ela disse "vai com Deus". Engraçado, não lembro do rosto dela. Devia lembrar, foi agora há pouco.

Saio, tento marcar o eletroencefalograma que a médica pediu, mas não consigo. Tudo fechado, ninguém chegou. Decido ir pra casa. Quando vou na direção da porta, várias estudantes estão perto da área do laboratório, com uniformes escolares. Saio para o pátio e coloco o pesado casaco de novo. Lá fora está frio. As vezes alguns internos rondam por ali, perdidos no seu próprio mundo. Hoje não vi nenhum.

Começo a fazer o caminho de volta. Na minha frente uma moça caminha. Ela tem o cabelo comprido. De repente, ela faz o movimento. Pega o cabelo com a ponta dos dedos e o leva para trás das orelhas. Cabelos negros, como os de Ana Carla...

segunda-feira, 31 de maio de 2004

Memória Recente

MEMÓRIA RECENTE

A criança sorri pelos campos nos quais corre
Pula obstáculos e continua correndo
O mundo é tão imenso, inimaginável
Assim, mesmo nas lágrimas a criança sorri.

Cabelos negros, olhos de um profundo perscrutar
Seu sorriso se desfaz para pensar algo distante
O futuro
E pára sob uma árvore, e senta debaixo dela

O futuro distante agora tão próximo,
Mas apenas em pensamentos,
A criança dorme
E sonha com a realidade

O pai que se vai, ela não entende
A mãe que fica , como uma vencedora
Irmãos dos quais ela toma conta
Mesmo que eles não saibam disso

A criança debaixo da árvore, sonhando
Sonhando com a realidade, se remexe
Ela passa a crescer frenéticamente
Ela muda, o mundo muda, sua vida muda

No sonho ela pára diante de um pequeno arbusto
Retira de dentro uma pequena fruta
Fruta num arbusto?
O cheiro é bom, ela abocanha.

Seu mundo... muda.
Já não é mais criança, agora é adulto
E aprendeu muito da vida
Viveu muita coisa, mas se dá conta, de repente
Mesmo adulto, ainda é criança

Não sabe onde está a linha reta
Não sabe andar pelas estradas sem tropeçar
Tropeça e levanta, mas tem medo
O medo se dissipa num sorriso

Sorrisos que bailam
Como o do gato de Alice
Mas não assim maliciosos
A criança adulta atravessa outro mundo

Se vê andando sem rumo, mesmo com rumo certo
Não sente tristeza
O sonho sob a árvore continua
E ela quer sonhar, saber

Se vê diante de uma nuvem incerta
Ela quer descrevê-la e não consegue
E mais adiante, ele percebe
É o seu futuro

Mas futuro que não se sabe
Ela não consegue moldar a neblina
Tenta e não consegue, tenta e erra
A neblina foge de qualquer tentativa

A criança acorda, com os pingos de sol
E percebe em sua ingenuidade
Que no futuro sonhado
No futuro aguardado

Ela terá de lutar , contra algo terrível
Lutará e será vencida, várias e várias vezes
A criança pequena, em sua lucidez
Percebe que a luta será algo cansativa

Um monstro terrível que a rondará até lá
Uma competição de apenas um que participa
Ela mesma, ela sabe
Lutar contra si mesma, contra a terrível apatia.

Mas ela vê coisas boas, lembra o que sonhou
Lembra de escrever, e de saber disso tudo
E lembra o que terá de fazer
A criança diz: seja forte... eu vou ser.

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