sexta-feira, 30 de abril de 2004

Memórias de um Esquecido

MEMÓRIAS DE UM ESQUECIDO


Finalmente nasci. Estava cansado de ficar "contando as horas" para sair daquele aperto. Sim, sim... aqui fora é bem mais claro, machuca os olhos, estava no quentinho e etc e tal, mas ficar naquela posição NOVE MESES, é um saco! Hmmmm... estou em uma casa...e não é das melhores. Estou chorando só pra fazer charme... acho que esperam que eu faça isso... mas também porquê acabaram de cortar aquele troço da minha barriga com uma tesoura que devia ser de cortar tijolo! Minha mãe me segura. Não me perguntem como sei que é ela. Só sei que é. Um bigodudo me olha meio indiferente, como se nem fosse a primeira vez que ele tem um filho. Sai e acende um troço lá e começa a jogar fumaça pela boca. Deve ser uma espécie de ritual, sei lá. A mulher que é minha mãe não para de chorar, será que cortaram alguma coisa dela também?

Mas que casinha furreca! E parece estar no meio do nada, a não ser por algumas casas. Meus pais estão juntos agora, me olhando. Falam algo sobre ter de mudar, ir embora de onde estão, mas minha mãe parece não estar gostando da conversa, diz que gosta de onde está. De repente a casa é invadida por uma multidão. São meus tios, meus avós e alguns vizinhos. Minha mãe não me deixa ir com nenhum, mas me deixa à mostra, como se fosse um troféu, ou algo assim. Alguém pergunta qual será meu nome. Minha mãe balbucia: Eudes. Meu pai grita lá de trás: FRANCISCO! As pessoas resolvem não tocar mais no assunto.

É tanta gente falando com uma voz engraçada. Meu Deus! Eu vou falar assim? Lá no fundo alguém come um pedaço de algo que ouço alguém pedir, chamando de rapadura. Definitivamente, este lugar é esquisito.

Já se passaram alguns meses e meu pai quer realmente ir embora, para um lugar que ele chama de Rio de Janeiro. Minha mãe reluta um pouco, mas acaba concordando. Então, tudo decidido, eles se despedem e entramos em algo que nunca havia visto antes (não há muito o que ver por aqui): um ônibus! Se existe um lugar de tormento eterno, seu nome é ônibus para o Rio de Janeiro. E eu simplesmente já achava que íamos morar alí, que alí é que era o tal Rio de Janeiro.

Mais alguns meses se passam e estamos morando numa casa melhorzinha do que aquela em que eu nasci. Ouço muito falar em Duque de Caxias, acho que é onde moramos. Minha mãe cobra de meu pai que me registre logo, seja lá o que isso for. Mas parece ter a ver com aquela questão do nome. Há um pequeno quiproquó entre os dois. Minha mãe diz, aos gritos que quer que seja Eudes. Meu pai diz que será Francisco e ponto final. Ele me leva ao tal lugar e me registra. Agora tenho de atender pelo nome de Francisco de Brito Honorato. Que nome grande. Não vou conseguir lembrar.

Meu pai chega em casa, com a certidão, meio que feliz, como que tendo ganho uma batalha. Minha mãe me pega no colo e simplesmente me embala e diz:
- Oi, EUDES, gostou do passeio com o pai?
Meu pai parece que ia começar a dizer alguma coisa, mas em vez disso só abanou para ela a certidão e fala algo como "vale o que está escrito". Parece que isso ainda ia dar pano pra manga.

Nos dias seguintes minha mãe virou uma metralhadora e a munição era o nome "Eudes". Se algum vizinho perguntava meu nome ela dizia, sem pestanejar: Eudes. Com a chegada de vários tios que vieram de lá de onde morávamos (Ceará, se não me engano), a coisa piorou. Muitos chegavam e perguntavam onde estava o Eudes, pois nos meses que passei lá, minha mãe só me chamou assim. Meu pai ouvia tudo e não conseguia quórum entre os parentes (os tios citados, eram irmãos e irmãs dele) para que Francisco pegasse. Por fim, um dia chegando do trabalho, meio abatido, mas apenas por causa do trabalho, ele me viu deitado no berço, deitado, mas sem estar dormindo, apenas quieto, e perguntou à minha mãe:
- O Eudes tá com alguma coisa? - ele sabia que eu estava bem, mas acho que ele resolvera que era hora de admitir que perdera. Se os cearenses não fossem tão péssimos para demonstrar carinho nessas horas, acho que minha mãe o teria abraçado e beijado. Mas ela apenas deu sorriso matreiro e foi preparar o jantar dele.

Depois disso demorou alguns anos até que escutasse o nome "Francisco", referindo-se a mim, novamente. Mas ali eu percebi uma coisa: minha mãe era a mulher mais forte e persistente que eu conhecia. Ela "mudou" o que estava escrito. Deitado no berço, eu "pensava" em tudo isso e adormeci... e sonhei. E nunca mais acordei...

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