segunda-feira, 10 de maio de 2004

Aquele Beijo

AQUELE BEIJO QUE TE DEI...





Bom, cheguei até aqui. Não posso sair dessa sem dar pelo menos um beijo nela. Eu sei, eu tenho 10 anos, ela deve ter uns 9 anos (engraçado, pensando nisso agora, lembro que eu ainda não perguntei a idade dela). Mas foi tudo culpa da minha irmã. Estava eu quieto na minha turma, até que tive que ir à sala dela na segunda série. Entrei lá e uma colega dela me olhou. Elisângela, seu nome. Uma pele morena, como se fosse café com leite, seus olhos pareciam meio hipnóticos. Eu falei algo com minha irmã e voltei para minha sala. Difícil foi tentar entender o que a professora dizia, daí pra diante.

Nos dias seguintes eu estava sempre topando com ela. Já não sabia mais se era ela ou eu quem estava provocando tantos encontros "casuais". A escola era grande. Estou aqui sentado, na casa dela agora. Tudo convergia (ei, eu estou na terceira série, nem sei o que "convergir" significa) para que acabasse me apaixonando por ela. Ela morava a alguns metros da escola. E agora, toda vez que saíamos, eu ia com ela até o portão da casa dela.

Comecei a ir da minha casa até a dela, nos fins de semana. Deitados na grama, conversávamos coisas de criança... ou simplesmente ficávamos ali, olhando o céu. Em algum lugar tocava uma música assim "na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê". Acho que vou lembrar para sempre desse quadro, talvez até escreva algo sobre isso, se minha letra melhorar até lá.

Esqueço da cena de nós dois deitados na grama, e volto ao presente, e estou sentado ali, na casa dela, e não sei o que fazer. Ou melhor, sei, só não sei se terei coragem. Eu preciso beijá-la. Parece tão fácil na televisão. Acho que sinto minhas pernas pesadas, mesmo estando sentado. A garganta seca. Onde está ela? Fico aqui assistindo televisão e ela sumiu. Há um pequeno agravante, que talvez seja o que esteja fazendo minhas mãos suarem: o pai dela está dormindo nesta cama na qual estou sentado. Afinal a casa é pequena e a TV fica no quarto dos pais dela, e eu estou sentado na cama dos pais dela enquanto assisto TV. Mas algo me diz que eu já demorei demais e agora, dane-se "papai"!

Como chego a essas situações? Será que toda minha vida vou me meter nessas enrascadas? Afinal, ficamos de mãos dadas, conversamos tanto que eu não consigo acreditar que duas crianças como nós consigam tanto assunto. Venho à casa delas há muitas semanas. Ela é tão linda e... infantil. Mas eu nunca a beijei. Nem mesmo me insinuei. E justo aqui e agora eu resolvo isso. Mas tenho um problema, quando resolvo algo, tenho de fazer. O pai dela ronca um pouco mais alto. A mãe dela não está em casa.

Muitas vezes eu comprava alguns doces com pequenos brinquedos. Comprei uma caixinha com um anel e dei a ela outro dia. Lembro que ela gritou para alguém, não sei por quê: "Meu namorado é da terceira série". Devo ter ficado vermelho feito um tomate. Eu nunca vi Elisângela triste. Ela parecia que não parava. Percorríamos as proximidades do bairro de mãos dadas. Fugíamos de maribondos das árvores em volta. Éramos o que éramos, apenas crianças.

Ah, até que enfim. Ela voltou, com um copo d'água. Ela senta do meu lado. Bem colada. Põe a mão sobre seus joelhos, olha pra mim e sorri. Seu pai apenas ronca, mas parece um cadáver. Se não fosse o ronco e o movimento das costas (ele está de costas) eu não saberia se estava vivo. Ele não saiu da mesma posição desde que cheguei.

O que está passando na TV eu nem faço idéia. Meu coração parece que vai sair pelos ouvidos, tamanha é a pulsação que sinto nas têmporas (onde eu aprendo essas palavras difíceis?). Mas tem de ser feito. Eu estou com a mão sobre a mão dela. Quase num sussurro eu chamo:
- Lisângela - Ela responde e se vira para mim.

Eu desliguei toda e qualquer racionalidade ou medo, segurei o rosto dela meio desajeitado e colei meus lábios no dela, no meu primeiro beijo. Ela ficou assustada, mas não recuou. Retribuiu do modo que achava que deveria ser um beijo. Quando separamos nossos lábios, nenhum dos dois falou nada. Ela estava sem jeito, mas não tanto quanto eu. Ela olhou para o copo d'água, estava vazio, eu tinha bebido. Ela perguntou se eu queria mais água. Eu disse que sim. Então ela levantou para pegar, e me disse:
- Vamos lá na cozinha pegar. - O pai dela roncou mais uma vez, mas não se mexeu.

Fui com ela até a cozinha e aquele primeiro beijo, no quarto, deixou de ser o único daquele dia.


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