quarta-feira, 26 de maio de 2004

Chove Lá Fora

CHOVE LÁ FORA





Alguns acontecimentos na vida (pelo menos na minha) depois de um tempo, quando paro para relembrar, são tão surreais quanto o mais louco dos sonhos.

Era um sábado a noite. Chovia muito. Lá estava eu no meio de uma chuva pesada, vestindo um paletó azul marinho, os sapatos sujos de lama, muita lama. Os caminhos que eu percorria eram bem íngremes as vezes e... cheios de lama. Eu estava indo buscar um estudante da bíblia, que era como chamávamos as pessoas que as Testemunhas de Jeová catequizavam. Era um senhor, meu único estudante. Uma "boa" Testemunha de Jeová tem de ter vários estudantes para que demonstre que sua "obra" está de acordo com sua fé.

Bom, ele nunca fora a nenhuma reunião, e aquele dia era especial para as Testemunhas de Jeová, uma espécie de Natal, mas comemorado em seu local de reuniões e sem o clima de festa. Então, eu resolvi ir buscá-lo, mesmo na chuva, mesmo estando sem guarda-chuva. Assim, lá ia eu passando por lugares sem iluminação, com meu terno pingando, totalmente encharcado e com uma pasta marron na mão. Eu imaginava se a água já teria conseguido atravessar o fecho da pasta.

Não me lembro agora o nome do homem, um senhor de uns 60 e poucos anos, vivendo solitário, numa casa de pau-a-pique, num lugar afastado, quase dentro do mato, mesmo estando a pouca distância do asfalto. Eu ia lá toda semana e tentava passar para ele o que passaram para mim, tentava convencê-lo do "caminho da salvação", mas a verdade é que ele gostava mesmo era da companhia.

Estranhamente não estou apreensivo por estar passando por lugares que a noite se tornam totalmente tenebrosos e que, com a ajuda da chuva e da falta de iluminação, se tornam aterrorizantes mesmo. Está impossível de enxergar através dos óculos molhados, mas se os tiro não enxergarei nada mesmo. Prefiro permanecer com eles. Mais uma subida à frente. A chuva parece que nunca mais vai terminar.

Várias vezes que eu fui à casa daquele senhor e ele me ofereceu sua hospitalidade, de muito mais bom grado que muita gente que tem mais que ele já me ofereceu. Eu tomava o café feito no fogão a lenha. Ele já notara que eu gostava bastante de café. Entre uma "palavra do Senhor" e outra, ele me contava sobre sua vida. Talvez por isso eu preferisse ir sozinho e não com um parceiro, como é o costume das Testemunhas de Jeová. Eu não me importava de me desviar do "assunto".

Agora entro na rua que leva em direção à casa dele. Meus sapatos parecem agora ter saltos altos, de tanta lama. Retiro os óculos um instante, para "limpar" um pouco o rosto. Começo a pensar no porque daquilo tudo, e chego a uma conclusão. Continuo caminhando. O matagal logo atrás da casa dele está sendo agitado pela chuva. Bato palmas. Começo a tossir. Bato palmas, mas parece que com aquela chuva ele não vai escutar.

Sei que nossos estudos não vão fazê-lo se "converter". Talvez eu nem mesmo queira isso. Só estou fazendo o meu "trabalho". Tenho de mostrar serviço, afinal já sou Testemunha de Jeová há bastante tempo. Talvez por isso eu tenha resolvido enfrentar a chuva e levá-lo atá a reunião, como eu prometera a ele que faria. Mas porque faço aquilo tudo realmente?

A chuva não pára. Continuo batendo palmas. Daí eu penso que, mesmo sendo apenas 8 horas da noite, uma pessoa solitária, que não tem uma televisão, só estaria fazendo uma coisa: dormindo. De repente eu sinto um sufoco, um nó na garganta. Pego minha pasta marron, meu terno azul marinho encharcado e meus sapatos enlameados e começo a fazer o caminho de volta. A escuridão e a chuva continuavam a não me preocupar. Eu tinha preocupações mais importantes na cabeça. Eu achava que estava fazendo algo por ele, mas na verdade era apenas por mim mesmo. Eu estava tentando me convencer de que eu acreditava em tudo aquilo. A chuva se confunde com minhas lágrimas.

Ainda faltava muito tempo para eu sair da chuva e da escuridão...



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