domingo, 2 de maio de 2004

A Banca

DUST IN THE WIND




A BANCA

Quando pré-adolescente e adolescente eu comprei gibis numa única banca de jornal. A única que havia no bairro próximo onde eu morava. Ela ficava praticamente no "centro" da "cidade". A banca era a única que havia em quilômetros. Para se ver outra que realmente tivesse algo além de apenas jornais, teria de se entrar num ônibus e viajar uns 20 a 30 minutos. O bairro, chamado Lote XV, era onde eu trabalhava também.

Como eu acordava cedo para ir trabalhar, eu procurava acordar mais cedo um pouco e ir até a banca de jornal para ver o que foi lançado. Certo dia acabei chegando tão cedo que eles ainda não haviam chegado, Acho que eram umas cinco e meia da manhã, não lembro bem, só sei que foi interessante ver a Kombi chegar e eu poder ver, em primeira mão tudo que estava chegando.

Então eu me acostumei a isso, chegava antes deles e esperavam, ou junto com os caras. Nem sempre eu comprava, por falta de grana. Mas não demorou muito para que eu acabasse podendo comprar a "crédito". Eu praticamente pulava dentro da Kombi quando ela chegava, e os jornaleiros (eram dois irmãos os donos da banca) já estavam acostumados com a minha presença.

A banca era um pólo que distribuía jornais por toda aquela área esquecida por Deus. Haviam várias bancas menores, filiais dela, espalhada pelos vários bairros ali por perto. Até mesmo no meu bairro havia uma, mas era apenas para jornal. Lembro que quando eu era bem pequeno essas bancas chegavam a ter gibi. Mas acho que não valia a pena e eles mandavam no máximo as revistas de fofocas.

Era horrível chegar lá, as cinco e meia, seis horas da manhã, e ouvir um deles dizer: "Hoje não tem nada pra você". Eu ia trabalhar (numa padaria próxima) péssimo. O jeito era ler as tirinhas nos jornais velhos que ficavam mofando por lá. No entanto, em certos dias eu saía com a minha conta na banca bem alta. Eu comprava tudo que saía: Disney, Turma da Mônica, MAD, Os Trapalhões (aquele da Bloch) e claro, super-heróis. Com o tempo passei a comprar Tex e Zagor.

Foi nessa época que minha coleção de HQs realmente era uma coleção. Cheguei a 500 revistas mais ou menos. Com o tempo eu saí de onde trabalhava, mas continuei comprando lá, até que fui parando aos poucos, comecei a andar mais, e até mesmo fui deixando e comprar tantas revistas. Hoje em dia a banca ainda está lá, mas não tem a mesma imponência de antes. Não vende mais revistas, apenas jornais. Está velha e corroída. Um terceiro irmão, mais carrancudo é quem toma conta e os outros dois originais não aparecem mais por lá.

Mas ainda é a única banca de jornal daquele lugar esquecido por Deus. Ela parece estar lá, mesmo tão decaída, insistindo em não se dar por vencida. Toda vez que vou à casa de minha mãe eu passo por ela, e do carro eu olho, mas prefiro não parar e ir até lá. É só uma sombra de um outro tempo. Uma curva deixa a banca para trás, mas não as lembranças que aqui relatei.


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