segunda-feira, 3 de maio de 2004

Eternas Nuvens

ETERNAS NUVENS QUE SE DISSIPAM



O ônibus sacoleja e me acorda. Não consigo mais dormir. Olho o relógio e ainda tenho duas horas até chegar ao meu destino. Que expressão idiota: "meu destino". O que vou fazer agora? Ficar pensando? Contando histórias pra mim mesmo? Estou indo rever amigos, mais que irmãos e amigas por quem seguro a respiração por um curto tempo, quando elas sorriem com seus lábios sinceros.

A paisagem lá fora é a mesma que já vi dezenas de vezes neste percurso. Ela sempre me espanta. Tanto "nada", com tanta coisa. Ficarei alguns bons minutos sem ver casas. Preciso ocupar a mente, enquanto admiro a paisagem. Pensar em quê? Talvez em algo para escrever no blog, quando eu voltar para casa. Algo que eu goste de ler, como se fosse outra pessoa que tivesse escrito.

Melhor pensar, e depois decidir se escreverei. Não sei. Pensar em quê? Lembrar do quê? Parece, as vezes, que a vida está comprimida na ponta de um palito de fósforo, quando estou sozinho com meus pensamentos. Mas quando estou com amigos e começo a relembrar de tudo que passamos, de tudo que enfrentamos e de tudo que achamos graça até o amanhecer, é como se o fósforo acendesse uma enorme fogueira.

Pensar em quê então? Vamos ver...

TV's. Sim televisores com aqueles seletores antigos, que ao girar parecia que estávamos quebrando-o: tum-tum-tum (ou algo assim, não sou bom com onomatopéias). O televisor em preto e branco em que meu pai assistiu a copa de 1978 e a qual eu não entendia nada. Porque ele ficava tão exaltado? Era apenas um jogo! O importante era estar ali, em frente aquela caixa mágica de madeira, literalmente falando. Girar o seletor para consertar o vertical e nos botões que consertavam o horizontal. Mexer na antena e perguntar aos berros: TÁ BOM AGOOOOOORA?

Meu garfo predileto. Minha madrinha me deu. Era meu garfo predileto, me pertencia. Para eu ter algo meu era um verdadeiro feito, já que mesmo os brinquedos eram de todos. Então penso no meu garfo predileto. Meu símbolo de poder! Era meu, ninguém podia tocar. Ele era diferente de todos. Era só meu e de mais ninguém. Abrir a gaveta na hora das refeições e encontrá-lo lá, era como... como... usar a cápsula e me transformar no Ultraman! Era apenas um garfo... mas era MEU garfo. Minha fada-madrinha me dera.

Amores. Porque eu me apaixonaria com oito anos? Eu sabia o que era isso? Eu já ouvira a expressão "apaixonar-se"? Provavelmente sim, mas não sabia seu significado, até então. Ela com sua pele tão clara e seu cabelo tão escuro. E seu sorriso. Eu me sentia tonto e não entendia porque. Estava na casa da amiga de minha mãe e ela era vizinha da mesma. Acabei sabendo que minha mãe soube pela amiga que eu estava apaixonado. Elas se divertiam, pois achavam que simplesmente era impossível. Bom, só sei que eu lembro de cada detalhe do rosto dela, mesmo depois que ela foi embora, há 26 anos atrás.

Aventuras. Pensar em aventuras parece algo tão estranho agora. Não foram muitas, mas as poucas que vivi valeram por uma vida inteira. Descer aquela ribanceira numa bicicleta sem freios, errar a passagem pelo quebra-mola, voar por cima da bicicleta, levantar, limpar a poeira, carregar a bicicleta no ombro e ir para onde estava indo... o trabalho. Montar um clube secreto, numa garagem nada secreta. Subir pelos tantos morros em volta de onde se mora e descê-los... correndo! Ficar bêbado numa festa infantil... com um copo de cerveja e vomitar tudo que comeu na festa, com apenas 9 anos de idade. Escutar LPs de histórias infantis da Disney, enquanto observa seus bonecos girarem em cima do disco. Fazer uma festa junina amadora e "brincar" com de guerra com as brasas da fogueira! Se apaixonar por três irmãs ao mesmo tempo... e ficar a ver navios. Tentar traduzir um gibi perdido do Thor, em inglês, usando apenas um dicionário e o inglês da quinta série. Passear por Copacabana e adjacências, tendo pego dois ônibus para chegar lá, e sem avisar a minha mãe.

Mulheres. Elas estiveram em todo lugar, em todo momento da minha vida. Denise de 18 anos, era apenas minha amiga, e já era muito, pois eu tinha 12 anos e era um moleque para ela. Ela só achava interessante que eu também gostasse de Agatha Christie, assim como ela gostava. Com a Nara Mary eu poderia ficar horas e horas conversando (e ficava) e eu só podia apreciar a sua inteligência dinâmica, num corpo moreno, e num olhar fraternal. Beijei Fernanda na boca, que apenas riu, e continuou a esperar que eu a alegrasse, como eu sempre fazia. Depois de mais de um ano roubei um beijo de Cristina, que aceitou o beijo, mas não se deu por vencida, éramos amigos e ela me amava assim, e me ama até hoje. Delma e eu éramos tão parecidos que eu só podia observá-la, com seu jeito sarcástico de olhar a vida. Poderíamos dormir na mesma cama e apenas conversaríamos e ficaríamos rindo da futilidade de certos aspectos da vida. Vânia era tão alegre e otimista que poucos notariam como sofria por dentro, se não fosse amigo dela. Sua beleza era algo estonteante, mas ela fazia parecer que isso não era nada, pois ela era apenas a Vânia, que tinha uma palavra de consolo para tantos e ao mesmo tempo esperava ouvir o que eu tinha a dizer a ela. E eu dizia. E veio Luciana, Flávia, Giselle... Mulheres, meninas e marcas no meu coração.

... hã! Acho que estou chegando. O ônibus entra na rodoviária. Chego ao fim da viagem. Saio e o sol está começando a baixar. Suspiro e sigo adiante. Sim, avanço sem pensar em nada específico agora. Só... sigo adiante.

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