quinta-feira, 20 de maio de 2004

O Homem Que Se Despede

O HOMEM QUE SE DESPEDE...





Já se despediu de alguém? Provavelmente sim. Pois bem, vou contar uma história de um homem que teve de partir logo após ter chegado a uma cidade. Ele chegou sem ser convidado. A cidade até o conhecia, mas ele mesmo não conhecia a cidade. E ele, ainda assim, adentrou-a, sem pedir permissão. Tão logo pode, ele conquistou a simpatia e o carinho, que a cidade já nutria por ele. Mesmo sem ser convidado, foi bem recebido. Foram dias de festas, de risos.

Os cidadãos o homenagearam, as crianças o abraçaram, parecia até mesmo que o sol se tornara mais forte e o céu mais azul. Mas uma coisa a cidade esqueceu, ele entrou sem permissão. Claro, eles abriram suas portas, sim, mas ainda assim, ele chegou sem aviso, chegou num lugar em que ele não podia ficar. E os conquistou, e foi conquistado. Não parou pra pensar que a cidade não era dele, nem nunca seria. Por mais que ele se esforçasse, por mais que ele amasse cada centímetro do lugar.

Mas o homem, quando pensava nisso, procurava logo esquecer, entrava num bar da cidade, contava piadas, histórias, e todos sorriam e ele esquecia-se de que não pertencia àquele lugar.

Até mesmo deram a ele, lhe emprestaram um cantinho, um lugarzinho para ele morar, cultivar a terra e, assim, tentar se estabelecer. Daí, ele foi dormir. Entrou na sua casa humilde, mas que para ele era uma mansão, pois estava ali, no coração da cidade, que ele amava de paixão. Dormiu um sono profundo. Um sono de três dias. Ao acordar, com o cantar do galo, se espreguiçou, se lavantou, lavou o rosto e escovou os dentes. Depois de tudo foi passear. A cidade era igual, mas parecia diferente.

Não, nada mudara. Era o mesmo lugar. Ele sabia. Mas percebeu que dormira demais, e ao acordar, despertou para a realidade que ele não queria enxergar. A cidade não era seu lar. Então ele foi... sim foi arrumar as suas coisas. Mas pediu permissão para partir, mesmo sem ter pedido para entrar. Os cidadãos entristecidos e até indgnados, disseram para ele ficar, pois ele sempre seria bem-vindo. O homem que tentava se despedir, perguntou então ao prefeito, se ele podia ali se estabelecer, até mesmo ali viver não apenas numa pequena casa, mas ele mesmo contruir algo seu, para ali ficar até morrer.

O prefeito não entendeu, pois disse que ele já tinha o bastante. Não precisava se preocupar. Ele tentou argumentar, mas acabou convencido, e voltou pra sua cabana, assim um pouco esmorecido. Ainda tentava cultivar a sua terra, mas sabia que a ele, a terra não pertencia. E ele, indignado com aquilo, com aquela situação, acabou por destruir o que com tanto carinho cultivara. Se estava para nascer, não deu tempo de crescer, pois na sua indignação, o broto ele não pode ver.

E passou-se aquele dia. Ele acordou muito cansado, olhou a cidade triste, e ficou desconsolado. Ainda era a mesma cidade, o mesmo lugar que amava, mas ao tentar permanecer, viu que se distanciava. O homem então, arrumou as suas coisas, escreveu uma carta bem tristonha. Aproveitou, que a cidade dormia, foi-se embora e não queria se despedir, mas a carta em sua mão, que não o deixava mentir, ele afixou lá no portão e pôs-se, então, a ir.

E andando ele encontrou, um rapaz com uma mochila, que ia na direção da cidade donde o homem partia. Perguntou para o rapaz para onde ele iria, o rapaz disse, para a cidade onde o som de um violão ele, de longe, ouvia. O homem o aconselhou, meu rapaz saiba o que faz, pois nem sempre se deve ir atrás de uma doce melodia, quem sabe se você é capaz de ouvi-la e acompanhar, quem sabe se ela está sendo cantada para você? Meu rapaz seja sensato, não vá aonde não é chamado, só por ouvir um belo toque de um violão bem dedilhado. Mas não fique assim, com essa cara amuada, pois eu aprendi que não resolve. Siga o seu caminho, para onde desejar, mas saiba se ao fim do caminho, alguém está a te esperar.

Os dois seguiram adiante, retomaram outro caminho. Quem olhava assim distante, via apenas um sozinho. E a despedida tão difícil, como toda despedida é, tornou- se a despedia de duas pessoas diferentes, do homem que esteve lá, naquela cidade presente e do rapaz que seguia o som do violão ao longe, plangente.

Não olharam para trás, pois a dor os consumiria, enquanto andavam cada vez mais... a cidade então... SUMIA.

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