quarta-feira, 5 de maio de 2004

Reverberando no Vácuo

REVERBERANDO NO VÁCUO




18:47 hs.

Saio para a Voluntários da Pátria, aqui em Botafogo. Por alguns instantes reparo no trânsito. Está intenso como sempre. Neste horário as pessoas ainda estão indo para as suas casas. Mesmo morando aqui há um bom tempo, ainda não me sinto parte disto. Me sinto distante disto tudo, destas pessoas. Vou até a banca de jornal, apenas por ir, sem intenção de comprar nada. Uma linda mulher passa por mim, quase esbarrando. Pressa. Ela e todos os outros a têm.

Da banca vejo o Estação Botafogo. O cinema dos filmes-cabeça. Como Tarantino é "cabeça" para muitos, Kill Bill está em cartaz. Paro para olhar os cartazes, as pessoas passam ao meu redor. Lembro de água e óleo. Sou a água ou o óleo? Não me sinto parte disto. Meu mundo é outro. Mas ao mesmo tempo lembro que eu não tenho mundo. Pelo menos não mais.

Por um instante presto atenção apenas na cor amarela do cartaz do filme de Tarantino. Alguém esbarra em mim e continua andando. E eu nem estou no meio da calçada. A pressa. O cheiro nauseante da pipoca doce, do carrinho de pipocas logo ao meu lado. Alguns garotos de rua passam, com uma lata de refrigerante, com cola dentro, cheirando a mesma. Penso em algo engraçado, na hora: o cheiro deve estar melhor do que o desta maldita pipoca doce.

Não sei quanto tempo estou aqui, olhando os cartazes, mas me pego lembrando de quando assisti Waking Life aqui. Um filme que falava de se estar preso em um sonho. Não como estar preso em um pesadelo, apenas em um sonho. Não é tão desagradável a ponto de se desesperar, mas também não é tão agradável a ponto de se querer continuar nele. O garoto do filme quer acordar... e não consegue.

Uma garota nova passa fumando. Ela traga, eu suspiro. Já não estou mais olhando os cartazes, estou apenas parado. Talvez seja este o problema. Por um momento um turbilhão de lembranças invade minha mente. Esqueço o cheiro da pipoca, lembro de cheiro de hospital. Lembro de ser levado por minha mãe às visitas de minha irmã caçula, internada, com pneumonia. Tudo me assusta, desde o cheiro, até aquele ambiente asséptico. Me pergunto, naquele momento, por que minha mãe me levava. Qual era a vantagem de eu ir? Eu era tão pequeno. Não podia ajudá-la em nada. Por que ela não leva minha irmã ou meu irmão? Tento responder: companhia, eu acho.

Num instante, lembro de quase todas as vezes que estive num hospital. Nunca fiquei internado. Mas lembro de como as vezes que ia começaram a aumentar. Primeiro por causa dos meus irmãos, depois por causa de meus próprios problemas. Crises respiratórias. Não é nada, senhora. Por fim, aprendi a controlar o medo que as crises respiratórias causavam e acho que era apenas sinusite que me acompanha até hoje.

Me viro para a rua, para os carros em movimento, o trânsito intenso. Lembro de onde minha mãe mora e onde morei. Barulho de carros só de vez quando. Lembro de ficar sentado no muro da varanda, pensando no que viria pela frente, o que eu faria quando tivesse, sei lá, 30 anos! O cachorro está brigando com o gato, mas de brincadeira. Duque e Naninha. No muro, sentado, penso, por que diabos os cachorros que minha mãe tem nomes diferentes, mas todo gato, seja macho ou fêmea tem sempre o nome de Naninha?

Uma buzina me acorda e ainda estou em frente ao cinema, em Botafogo. A pergunta não tem resposta. Nunca teve. Nunca importou. A vida era assim, cheia de complicações simples. Alguém passa a minha frente, rindo. Num instante lembro das nossas risadas, ou então das risadas que causávamos e lembro de minha mãe rindo tanto, que começava a chorar e não se controlava e nós já não sabíamos mais se ela estava rindo ou chorando mesmo. Por alguma razão lembro da risada do meu pai, com mais dois tios meus, num Ano Novo de muitos anos atrás. Eles estavam na rua, altas horas e não sei porque, eu estava junto. Eles cumprimentavam um amigo, que estava bêbado, e uma arma caía. Lembro das risadas cessarem, meu pai apanhar a arma e devolver ao dono. E o dono colocar na cintura. E todos caíam na gargalhada. Eu não estava mais rindo.

Volto para a banca de jornal. Tento me concentrar em alguma coisa na banca, mas é difícil. Na minha mente eu vejo alguém me entregando vários gibis, mas não sei mais de quem é o rosto. Lembro que eu pensei, "mas eu não sei ler"! Mas ainda assim gostei de ter ganho aquelas revistas, que eu nunca vira antes, eram divertidas as figuras. Meus tios que sabiam ler pegam a maioria. Isso me faz relembrar a época em que todos moraram na nossa casa e nós na casa dos fundos. Meus avós e meus tios, todos morando ali, pertinho. Meu avô me ensinou a andar de bicicleta nesta época.

Casa. Lembro como odeio apartamentos. Casa parece ter uma simbologia muito maior para mim. Na Voluntários muitos sem-teto não têm as suas. Minha mente reprime essas imagens. Me envolvo nas lembranças. Casa: ver TV deitado no chão, mudar os canais com pé, tomar café mergulhando o pão com manteiga no café com leite, pular a janela pra não levar uma travesseirada, se esconder no guarda-roupa, pegar baldes para aparar goteiras, escutar a chuva no telhado, ser o mais velho e "chefe"... da casa.

Saio da banca. Tiro os óculos e seco um pouco o rosto, rapidamente. Alguém que passa olha para mim, faz uma cara estranha, de incompreensão e continua. Penso em como eu queria que chovesse naquele momento. Lágrimas do ceú.

Vou na direção do prédio e entro.

20:11 hs.

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