segunda-feira, 21 de junho de 2004

Cheiro de Asfalto

CHEIRO DE ASFALTO

Até que enfim! Estamos em 1982 e finalmente vão asfaltar este fim de mundo. Depois que colocaram as pedras de brita por todo o bairro, eu achei que seria só aquilo e pronto. Afinal isso aqui parece meio esquecido. Pelo menos agora os patinetes poderão descer a ladeira sem cair nas valas abertas pelas chuvas fortes. Não que eu ande de patinete, não gosto.

O bairro inteiro está presente em todas as ruas. Isso aqui tá atraindo mais atenção do que a Copa do Mundo desse ano. Aliás ontem consegui entender como funciona aquele esquema de eliminatórias. Afinal, na última copa eu tinha 9 anos e não entendi nada do que estava acontecendo. A única coisa que lembro é de umas tampinhas de refrigerantes com coisas relacionadas àquela Copa. Este ano eu estou me acabando no chiclete, para completar um álbum com todas as seleções.

Mas voltando ao assunto. O sol está a pino. O cheiro do piche que é derramado está forte, mas não incomoda. Não hoje. Já vi na outra rua o Marcos e ele está com aquela camisa maluca. Ele soube que meu irmão desenhava alguma coisa e pediu que ele desenhasse o rosto do Cíclope numa camisa e escrevesse "X-Marcos". Não entendi, ele nem é fã dos X-Men.

Um rolo compressor passa por cima do asfalto já colocado em uma parte da rua. Eu faço um tour por todas elas. Nunca lembro o nome de todas, apesar do bairro se razoavelmente pequeno. Passo pela Rua Cintra, onde o asfalto não vai chegar ainda. Só lembro o nome dela porque é onde mora a Ana Carla. Aquela que já citei aqui. Pele branca, cabelos negros. Sou apaixonado por ela. As irmãs menores dela são hilárias. Eu chamo a Cristina de Coristina. Elas não estão em casa. Passo direto.

Numa outra rua, o Roberto, que conserta relógios, assiste ao asfaltamento de sua cadeira de rodas. Mais um para quem o asfaltamento será muito útil. Aceno para ele e continuo andando. Tanta gente. Nem mesmo a vinda do velho circo há uns anos atrás causou tanta comoção. Passo próximo a rua onde começa outro bairro, e noto que ali precisa urgente de asfalto, mas algo me diz que tão cedo isso não vai acontecer.

A rua principal já foi asfaltada. Ela faz um reta do ponto de ônibus até a rua onde moro. Quer dizer, ela continua ao se subir a tal ladeira dos patinetes, ou daí eu viro a esquerda e entro na minha rua, a Rio Tejo. Eu dou uma olhada rápida e vejo que duas pequenas ladeiras próximas a minha rua não serão asfaltadas. Isso é um problema, pois quando chover a lama será arrastada e vai, com certeza, cobrir o asfalto. Eu suspiro e continuo andando.

A rua onde acontece a mais tradicional festa junina do bairro já está completamente asfaltada. O Arraiá da Dona Rosa deve arrasar este ano, já que o pessoal vai poder dançar em cima do asfalto. Eu nunca participo. Nem na escola, nem no bairro. Sou tímido demais para isso. Já fui a alguns ensaios e participei de brincadeira. Mas nunca teria coragem de participar da festa em si.

Foi nesta rua que de certa forma eu conheci Ana Carla. Mais ou menos. Eu estava na casa que minha mãe trabalhava e olhando por cima do muro vi o irmão dela do outro lado. Lembrava dele, e que ele era irmão dela, porque os via passar para a escola, da padaria onde eu trabalhava. Saltei o muro e comecei a fazer amizade com ele. Fomos até a casa dele (meu objetivo) e lá eu a conheci. Daí, quase sempre que podia eu passava o dia por lá. A mãe dela uma pessoa muito simpática, já o pai parecia um zumbi e nunca dava as caras, preferindo ficar dentro de casa.

Acabei por fazer amizade com várias pessoas da rua, inclusive com a Neve - que sofre com as brincadeiras por causa daquele comercial de papel higiênico Neve, e de vez em quando alguém a sacaneia gritando "Alfredooooo" - e sua irmã. Moram no único prédio do bairro, de três andares. E todos esses moram na tal Rua Cintra, que como já disse, não será asfaltada.

Bom, está anoitecendo e é claro que eles não terminarão de asfaltar o bairro inteiro em um dia apenas. Ou mesmo dois. Assim eu resolvo ir para casa. Piso no asfalto recém colocado e sinto o calor sob meus chinelos. Parece haver um significado maior em tudo aquilo e sei que nunca vou esquecer este ano em que o bairro foi asfaltado. Claro que a Copa do México servirá um bocado como referência, e se o Brasil ganhar, mais ainda. Quem sabe ele ganhe. O Zico está muito bem na Copa. Creio eu. Sou péssimo conhecedor de futebol.


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