quarta-feira, 16 de junho de 2004

Era Uma Vez... ou Duas

ERA UMA VEZ... OU DUAS

Estranho que parando para pensar um pouco aqui, no que escrever hoje, eu comecei a me lembrar de que fui uma criança um tanto quanto séria e precoce, agindo como um adulto em miniatura. Eu vivia com o que se chama "cenho franzido", pensativo. Minha mãe achou que eu tinha problemas com o sol e logo cedo eu comecei a usar óculos com lentes de grau dessas que escurecem, como é mesmo o nome? Caramba, esqueci! Bom, só sei que são as lentes que uso até hoje. Me pergunto se meu jeito de encarar a vida, quando era criança, acabou fazendo com que eu usasse óculos desnecessariamente. Não sei.

Claro que eu não era sério 24 horas. Eu era alegre, nossa família, meus tios e tias por parte de meu pai (por parte de minha mãe eu só conhecia um tio e uma tia que via muito pouco) sempre foram alegres por natureza, e não era diferente comigo e meus irmãos. Mas, eu sempre estava pensando na vida, desde que me entendo por gente. Na sala de aula juntava-se isso a minha timidez e eu era como um túmulo. Quase não falava. Ganhava status de aluno comportado.

Percebo em várias fotos minhas quando criança, que eu estou ali como se não estivesse. Pensando apenas. Lembro de uma em que eu era muito, muito pequeno, estou num velocípede, apenas de short, entre alguns tios que estão em pé. Eu olho para a câmera como quem a está repreendendo, como quem não está nem um pouco contente. Se não fosse as gordurinhas que aparecem devido a eu estar sentado no velocípede e aos meus tios sorrindo, eu diria que seria uma foto bem séria.

Com o tempo e a idade parece que eu fui "desamadurecendo". Passei a encarar a vida com cada vez mais humor, ceticismo e sarcasmo. Apesar de a timidez ser grande ainda, eu agora sabia rir da vida, rir com a vida. Lembro que a vida foi ficando cada vez mais "engraçada" a medida que eu crescia. Eu me desapontava com as coisas, sofria, mas no fim de tudo, demorasse o que demorasse, eu ria.

Isso acabou me transformando no inverso do que eu era quando criança. Me tornei um adulto que no fundo é uma criança. Foi como um crescimento ao contrário. A medida que eu crescia em tamanho, toda aquela seriedade diminuía. Claro que assim como eu não era sério 24 horas quando criança, não sou um palhaço 24 horas. Apenas sou sério quando preciso ser. Se ainda fecho a cara para pensar, volto à imagem daquele menino sério, mas quase sempre estou sorrindo. Não porque a vida se tornou melhor, apenas porque não adianta chorar.

Lembro de um episódio em que esse meu jeito sério de ser confundiu alguém. Eu devia ter uns 13 anos. Trabalhava numa padaria pequena, sozinho. Estava lendo as tirinhas de um jornal qualquer na parte baixa do balcão. Chegou um cara, um vendedor, ele vendia revistas pornôs, de piadas e etc. Era estranho, eu não lembro de ter conhecido nenhum outro vendedor de revistinhas pornôs. Bom, só sei que ele as vendia como quem vendia um tônico fortificante, mostrava o produto, falava pelos cotovelos, e eu só o encarava. Na verdade, eu estava em outro mundo, no meu mundo. Pensava nos meus problemas, e só o olhava, não olhava para as revistas. De repente ele parou. Pegou suas coisas e ao sair disse: "Desculpe eu não sabia que você era crente".

Eu sempre acho graça quando lembro disso. Pois eu não disse uma única palavra. Eu estava apenas pensativo, longe do que ele estava dizendo. Acho que meu jeito sério deu a ele a impressão errada. Mesmo que eu quisesse as revistas, não tinha dinheiro para ficar com elas. Não estava prestando atenção em nada do que ele dizia.

Se fosse hoje em dia... eu apenas começaria a me segurar para não rir da cara dele.


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