terça-feira, 1 de junho de 2004

Frias Manhãs

FRIAS MANHÃS DE TERÇA-FEIRA




Sou despertado do sono por um leve empurrão no ombro. Tenho de levantar, fazer a coleta de sangue para exame marcada para hoje. Estou desde ontem, 19:00 hrs, sem comer nada. Estranhamente não sinto fome. Mas minha cabeça dói. Ela dói desde ontem a noite. Por um instante esqueço e pego um comprimido e tomo. Logo depois penso que não devia ter tomado, devido a coleta do sangue. Mas já é tarde demais.

Saio com um casaco pesado e, na rua, noto que o frio não é tanto para um casaco tão pesado. Saio da Voluntários da Pátria e entro na parte final da Praia de Botafogo, onde fica o prédio da VIVO. Vejo uma garota colocar o cabelo para trás da orelha e penso o quanto acho esse gesto bonito. Fico lembrando de cabelos, muito cabelo, cabelos negros, pele branca, alva, como Ana Carla, por quem me apaixonei aos 15 anos.

Mas minha cabeça ainda dói, parece que há alguém batendo um enorme gongo, dentro dela. Entro da Avenida Pasteur. O sol começa a dar o ar de sua graça. De repente me lembro que tive vários e vários sonhos e que não consigo lembrar de nenhum. Mas num estalo (estalo, não estralo... afinal não é beijo estralado... ah, esqueçam) eu me lembro do último, pouco antes de ser acordado.

Eu estava num bar, trabalhando nele, quando alguém pergunta se pode beber uma garrafa de água mineral que está lacrada. Eu digo que não, não pode. A pessoa, um rapaz, ainda assim abre a garrafa e bebe. Eu fico muito chateado. Mas em vez de brigar, eu só digo: "Essa água está envenenada". Como é um sonho, o cara acredita. Acredita e entra em desespero. Então aparece um amigo seu com um bloco de notas, com várias coisas rabiscadas, vários textos, muito mal escritos. Nos textos ele sabem que há um antídoto para o veneno (veneno este que não existe). Quando param na página para "Antídotos para veneno em água mineral" (Eu não vi isso escrito, ma imagino que tenha sido isso, pois eles param numa página lá) começam a ler apressadamente. Mas quando se dão conta de que o que se pede para fazer é impossível. Ir a lugares distantes procurar tais ervas e etc. Impossível, ele vai morrer. Eu olho aquilo tudo e fico sorrindo, pensando como alguém pode ser tão ingênuo.

Foi quando fui acordado. Não procuro significado para o sonho. Não acredito nisso. Foi apenas um sonho que teve a sorte de ser lembrado, entre tantos sonhos esquecidos.

Saio da Av. Pasteur e entro na Av. Venceslau Braz, onde fica o shopping Rio Sul, um dos mais conhecidos do Rio de Janeiro. Mas estou longe dele. Eu estou dentro da hora, por isso não me apresso. Chego ao lugar que abriga, não só o local que onde vou tirar sangue, mas o Hospital Phillipe Pinel (que quando o vi pela primeira vez, foi que me liguei porque chamam uma pessoa louca de "pinél", é um hospital para doentes mentais). Do lado direito fica um hospital para problemas neurológicos, que me foge o nome agora. Frequentei-o algumas vezes, quando só se diagnosticava a eplepsia.

Mas meu destino é mais adentro. O IPUB (Instituto de Psquiatria Universidade Federal do Rio de Janeiro). Mas não vou me consultar, só coletar sangue. Entro na área em que ficam vários prédios diferentes. O pátio é agradável. Muitas árvores, algumas enormes. Viro a esquerda e entro na área perto do manicômio (não sei se chamam assim, mas várias pessoas com sérios probelas mentais estão internadas por lá). Entro e vou ao corredor em que o laboratório se localiza. Entrego minha ficha e espero. Mais 12 pessoas estão na minha frente.

Levei um livro, mas não consigo ler. A dor de cabeça não deixa. Ando pelo corredor. Olho alguns quadros. Fico pensando se são de pacientes internados ali. Um deles é meio perturbador, parece realmente representar a loucura. Tento gostar do quadro, mas não consigo, me lembra o que sinto numa crise de pânico. Me afasto dele.

As pessoas, principalmente senhoras, aproveitam para conversar. Alguns homens de meia-idade também esperam na fila. Demora um pouco e logo é minha vez. É a segunda vez que vou àquele laboratório. A enfermeira que vai tirar meu sangue tem um ar calmo. Se preocupa em que aquela borracha que aperta o braço não me machuque. Coloca-o por cima da manga da camisa. Ela procura a veia, por um bom tempo, sem pressa. Noto que meu ante-braço está levemente roxo. É o frio.

A mão dela desliza tentando encontrar a veia. Parece que ela tem todo o tempo do mundo. Ela então enfia a agulha, e retira um tubo de sangue. Depois outro tubo um pouco menor, e outro mais fino, porém, mais comprido. Lembro que da outra vez foram apenas dois tubos. Quase disse, tentando ser engraçado, se ela não ia deixar nenhum sangue pra mim. Mas estava tudo tão tranquilo. Por uns instante acho que quis ficar ali, tirando sangue o dia inteiro. Quando ela terminou e eu fui na direção da porta, ela disse "vai com Deus". Engraçado, não lembro do rosto dela. Devia lembrar, foi agora há pouco.

Saio, tento marcar o eletroencefalograma que a médica pediu, mas não consigo. Tudo fechado, ninguém chegou. Decido ir pra casa. Quando vou na direção da porta, várias estudantes estão perto da área do laboratório, com uniformes escolares. Saio para o pátio e coloco o pesado casaco de novo. Lá fora está frio. As vezes alguns internos rondam por ali, perdidos no seu próprio mundo. Hoje não vi nenhum.

Começo a fazer o caminho de volta. Na minha frente uma moça caminha. Ela tem o cabelo comprido. De repente, ela faz o movimento. Pega o cabelo com a ponta dos dedos e o leva para trás das orelhas. Cabelos negros, como os de Ana Carla...

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