sábado, 26 de junho de 2004

Conto de Um Olhar

CONTO DE UM OLHAR

Havia um certo carinho em seu olhar. Um sorriso complacente. Eu devolvi-lhe o sorriso, tentando ser o mais simpático possível. Me sentia bobo, meio infantil. Ela não falava nada. Seu sorriso permanecia. De repente ela falou algo, citou meu nome. Creio tenha sido uma pergunta. Tento lembrar agora o que foi, mas não consigo. Prestava atenção demais ao seu rosto. Tanto que tentei responder qualquer coisa. Responder a pergunta que não lembro qual foi. Talvez eu nem tenha realmente a escutado. Lembro que eu balbuciava, e não saía realmente nenhuma palavra inteligível.

Lembro que ela deu uma pequena risada. Não me senti envergonhado. Ela não estava debochando. Notei que tudo ela fazia era extremamente angelical. Até mesmo quando riu de minha confusão em responder-lhe. Seu rosto era de uma beleza infantil, seus traços denotavam uma tranquilidade e ao mesmo tempo uma sagacidade que me deixava meio inquieto. Na minha confusão, acabei resolvendo não tentar falar mais nada. E ela apenas sorria, agora com um olhar meio tímido. Havia apenas um silêncio. Mas não era daquele constrangedor. Era um silêncio recíproco.

Então passei a reparar-lhe no meu silêncio, enquanto ela mantinha os tímidos olhos distraídos de mim. Tinha aquele ar de quem sabia tanto, mas queria aprender sempre mais. As macãs de seu rosto eram salientes. Macãs era realmente aplicável, meio avermelhadas que eram. Me perguntava se era a timidez que causava aquilo ou se era o natural dela. Seu queixo era pequeno, combinando com seu rosto miúdo. Fazia um conjunto interessante com sua boca, de lábios que não eram grossos, mas também não tão finos, apenas delicados.

Os olhos que agora eu não conseguia ver, mas que me lembrava bem, eram de uma placidez que me fazia pensar em águas calmas. Olhos negros. Águas profundas. Seu cabelo curto, também era negro. Foi daí que notei como ela era delicadamente pequena. Nem mesmo me dera conta disso, tanto que eu apenas reparava seu rosto. Neste momento, como que escutando meus pensamentos, ela levantou os olhos para mim, e perguntou algo novamente. Desta vez, apesar de estar encantado com o brilho de seus olhos, eu escutei:
- Quem está sonhando? Eu ou você? - foi o que ela perguntou.

Fiquei confuso com a pergunta e então percebi que aquela situação era bem estranha. Eu não conseguia definir onde estava, não lembrava como fui parar ali. Eu... eu estava sonhando? Não podia ser. Estava confuso. Ela estendeu a mão para tocar a minha e uma lágrima escorreu-lhe do rosto. Ela disse:
- Tenho de acordar...

Eu só tive tempo de dizer:
- Não por fav...

...

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