quinta-feira, 17 de junho de 2004

Andar na Praia

ANDAR NA PRAIA

Desço a passagem subterrânea e saio próximo ao Clube de Regatas Botafogo. Ali começa meu passeio pela praia. Ando um pouco olhando a praia de Botafogo. A areia é suja, a água é muito calma, não forma ondas e não é a praia mais popular do Rio. Ops, estou na faixa para bicicletas, uma quase me acerta. Sigo adiante, olhando o Pão de Açucar, ele me acompanha por todo o percurso. Pessoas passam fazendo seu cooper matinal, outras andando compassadamente. Eu apenas ando. Sem nenhuma pretensão de me exercitar.

A praia não atrai banhistas, mas estão lá alguns pescadores esporádicos. Penso se estão ali por alguma pescaria realmente ou se só pelo prazer. Um senhor lança a linha longe, mesmo ali solitário, parece que a pesca lhe faz companhia. Ando na parte gramada do caminho olhando, ora para a água calma da praia, ora para os prédios e o trânsito ao meu lado esquerdo. Adiante uma mulher idosa coloca comida para gatos que vivem por ali.

É gostoso o caminho da praia de Botafogo. Não reparo muito nas pessoas. Estão tão perdidas em seu próprio mundo. Fico lembrando de um texto onde descrevia-se as qualidades dos cariocas e falava como os cariocas cumprimentavam-se sem nem mesmo conhecer as outras pessoas. O pouco que reparei nas pessoas não vi isso acontecer. Daí, parei de repará-las. Fiquei com a paisagem.

O ar continua frio, mas não me incomoda. Chego ao caminho de terra que vai me levando em direção à Praia do Flamengo. Passo por um canal, atravesso uma pequena ponte e estou lá. Estão desarrumando o palco e tudo mais que estava relacionado a passagem da tocha olímpica. Nota-se que tudo está devagar, talvez por ser ainda cedo. Há uma preguiça coletiva. As ondas fazem um barulho bom, hipnótico.

Chego até o caminho de asfalto, onde as pessoas caminham sozinhas, com seus carrinhos de bebês, com outras pessoas ao seu lado. Sigo para o caminho que fica mais perto da praia. Vejo o palco do show do dia anterior. Ainda está muito longe de ser desarmado. Vejo algumas cabanas armadas de atendimento médico. Penso comigo como se dá uma atenção detalhada a essas coisas, como se gasta dinheiro nisso, e penso nas pessoas que estão dormindo a noite, no frio. Noto que são várias as cabanas de atendimento médico. Só posso pensar. O barulho do mar afugenta meus pensamentos.

Resolvo que já andei o bastante. Dou meia-volta inicio meu retorno. Um rapaz sentado olha para mim, se levanta e vem na minha direção. Um outro com uma câmera fotográfica também vem. Ele começa a dizer que está fazendo uma enquete. Detesto essas coisas. Não sei o que dizer, fico enrolado. De repente o rapaz me pede desculpas e diz que precisa fazer a enquete com uma pessoa que está passando ali, pois ela é uma personalidade. É o Nílton Santos. Eu penso, ufa! Salvo pelo Nílton Santos. Tento me lembrar quem ele é, fico sem lembrar direito se ele é ex-jogador de futebol ou se tem algo a ver com a ditatura... minha memória é péssima.

O rapaz sai dizendo que depois fala comigo. Eu sorrio comigo mesmo, afinal eu estou andando e não vou ficar ali esperando. Entro numa curva para sair logo dali. Refaço meu caminho. Ando calmamente em direção a Botafogo. Vejo o Pão de Açucar de mais um ângulo diferente. Uma equipe de fotógrafos está lá adiante, claro, aproveitando o cartão postal do Rio de Janeiro. É um espaço onde também muitas pessoas estão fazendo exercício ou estão com seus cães brincando. Há uma churrascaria Porcão ali. Passo, gostando daquele pedaço que tem o chão de terra batida. Lembra minha infância.

Chego a parte calçada e minha jornada de volta está quase completa. Apenas caminho, sem pretensão nenhuma de me exercitar. Ando com calma.

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