segunda-feira, 28 de junho de 2004

Divagando

DIVAGANDO

Lá estava eu, novamente entregue aos meus próprios pensamentos. Pensava muito sobre o passado, mesmo meus problemas estando no presente. Ali de cima daquela pequena elevação que ficava no quintal da nossa casa, eu observava a rua logo abaixo. Pra dizer a verdade, podia-se ver boa parte do bairro, mesmo não sendo tão alto assim. Eu e meus pensamentos.

Logo me sentei e abracei os joelhos. Eu realmente estava distante. Os pensamentos desordenavam-se. Por entre fantasias em que eu era algum personagem de quadrinhos, com superpoderes, eu contemplava a vida, pensava em meus sentimentos, tentava adivinhar o meu futuro. Mas o que eu estava fazendo mesmo era apenas me isolando. Não estava a fim de companhia. Eu queria aquele momento pra mim.

Olhava para um futuro e tentava acreditar que nele, mais do que dinheiro, mais do que uma carreira, eu encontraria algo que a alma humana, a minha alma sempre necessitou: amor verdadeiro. Não, não como o amor da minha mãe, que está lá dentro de casa agora. Este é verdadeiro sim, sempre será. Eu pensava no amor que faria com que toda a vida valeria a pena. O amor que faria tudo aquilo fazer sentido.

Por vezes contra-argumentava comigo mesmo, ali sentado, que isso nunca aconteceria. Que era tudo ilusão, que amor não existia. Mas na mesma hora o "eu" advogado de defesa, surgia. Ele "falava" eloqüentemente na minha cabeça que sim, ele existia. Podia estar distante, podia estar muito adiante na minha vida, poderia até mesmo acontecer de eu me desencontar dele mas sim, ele existia. As vezes meus pensamentos podiam ser bem convincentes.

Eu apertei mais os joelhos, abraçando-os com mais força, apertando-os contra mim. Suspirei. Era de manhã ainda, e aquela hora passei a pensar se tal amor ainda estaria para surgir, ou quem sabe, se estaria talvez até mesmo, para nascer. A idéia foi engraçada: amor para nascer. Comecei a pensar se de repente, além de estar longe em termos de distância, tal amor também estaria longe... de nascer. E se eu só a encontrasse quando eu tivesse quem sabe, 20 anos?! Parecia muito tempo para se esperar. E se então ela fosse muito jovem?

Eu começava a sentir uma leve dor de cabeça. Eu penso demais, pensei eu comigo mesmo. Mas ali, parado, era só o que eu podia fazer. Puxei uma haste daquele troço que crece junto com o mato, e que eu nunca soube o nome. É composto de várias outras hastes como um esqueleto de guarda-chuva virado para cima e tem um monte de grãos, também verdes, nestas outras hastes. Fiz o que faço sempre que as pego. Vou retirando cada uma daquelas hastes, como uma espécie de bem-me-quer mal-me-quer. No fim só fica a haste principal. Não sei porquê isso me acalma.

Amor verdadeiro... Sorrio sem saber porque penso estas coisas assim, sem mais nem menos. "Corto" o vento com a haste, ouvindo o barulho que ela produz. Tento fugir de meus pensamentos. Mas eles não se vão assim tão fácil. Resolvo que está na hora de entrar. Quem sabe eles ficam lá fora, pelo menos por enquanto. Afinal tenho 8 anos, e muito tempo para esperar... o amor verdadeiro.


Nenhum comentário:

Business

category2