quinta-feira, 8 de julho de 2004

Boquiaberto

BOQUIABERTO

Sendo apenas noite, eu me tranquei no porão da minha mente. Mas de dentro dela fui arrebatado, como que por uma catapulta. Lançado para a realidade e caindo em teus braços surreais. Decidi, boquiaberto, receber o beijo de tua boca. Nem mesmo tive tempo de dizer sim, pois teu beijo já estava em mim. Boquiaberto.

Sentei na pedra, à beira do rio, e fiquei a esperar, durante as horas, a água parar de correr. Mas nem mesmo eu sabia por que a água corria. Quis parar, mas nem mesmo sabia como faria. Ao meter a mão na água gelada, senti um calor me preencher. Era a resposta do rio que nunca secaria. Eu estava tão insensato. Ingrato para com a dádiva da natureza.

Eu me queimei ao passar perto do fogo apagado. Jurei que estaria seguro ao teu lado, ao lado da luz que o fogo nem mesmo luzia. Era algo que dependia da fé, dos olhos internos, de ver com e mente. De repente a chama crepitou e o fogo apagado acendeu, para a chama lamber o lado oposto de minha mão, aquele lado que eu estava a proteger. Não queimou.

Dançava eu na chuva, enquanto os outros olhavam disparatados, pensando que era loucura o que eu fazia, mas a chuva é minha amiga. Eu contava os pingos da torrente que caía, e meus olhos, sim meus olhos estavam inundados de chuva e alegria. Minhas lágrimas eram a chuva e a chuva era feita de minhas lágrimas. De vez em quando um relâmpago sorria.

Atraquei meu barco no sonho mais próximo e nem mesmo, sim, nem mesmo reparei que era um sonho recorrente. Soltei a âncora, e parei ali. Saltei e o sonho não era meu, era seu. Sonho de luar, sonho de noites de festa, com músicas tocadas em violões, cantorias ao sabor da noite, alegrias escritas em melodias improvisadas. Eu tentava te enxergar por entre a neblina da noite e quando reparei, você estava junto a mim.

Então o poeta se perdeu em suas próprias palavras. E, além de você, havia a poesia marcada pelo fulgor do teu olhar, pela tua risada alegre e contagiante e por cada sussurro proferido por você. O poeta incendiou-se de paixão e suas cinzas foram jogadas ao mar de areia, onde se misturou ao deserto e no deserto ele sentiu tuas pegadas, teus passos que iam na direção do infinito. A bela mulher de saia rodada e de guizos que vai para o norte. O poeta era poeira, a poeira do deserto que te seguia de perto. Boquiaberto.


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