segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Titãs

EU NÃO SOU UM BOM LUGAR


Acordei cedo para fazer um bico ajudando na parte de som, na gravação do clip Eu Não Sou Um Bom Lugar, dos Titãs. Subo a "pequena elevação" que vai dar na casa do tal sonoplasta, técnico de som, ou seja lá como se chama alguém que trabalhe na filmagem de um videoclip. Quando chego lá, me deparo com um cara que parece tudo, menos alguém que trabalhe com algo tão... interessante. Tudo bem, acho que as aparências enganam. Quando vejo o veículo que levará o material de som, chego a conclusão que as aparências não enganam: uma Kombi ou pelo menos o que sobrou dela. Quando ele abre a garagem para pegar a aparelhagem, me sinto como se estivesse em Brazil - O Filme de Terry Gilliam. Não, isso não é um elogio.

Entramos na Kombi e me pergunto onde está o resto dela. O cara parece mais ou menos aquele faxineiro dos filmes do Harry Potter, Filch, Finch, sei lá. As filmagens são no centro do Rio. No caminho encontramos uns caras filmando um comercial de algum carro novo. Quando a Kombi pára, alguém da filmagem se aproxima e conversa com o "patrão". Realmente o cara é conhecido nessa área de filmagens, por mais incrível que pareça.

Chegamos no "set" de filmagens, um pátio de um complexo de prédios que, aparentemente estão abandonados. Armamos a aparelhagem. Todos os técnicos parecem estar lá. Não consigo definir quem é o diretor. Parece que vai demorar bastante a começar a filmar. Todo mundo conversa, passa o tempo. É nessa hopra que chego a conclusão que meu "amigo" é totalmente pirado. Eu simplesmente não consigo acreditar em certas coisas que ele fala com o pessoal. Certa hora, em que estamos numa roda com algumas pessoas, ele solta essa: "Hoje tá tudo ao contrário. Os filhos são caretas e os pais avançados. Se meus filhos quisessem, eu arranjava da boa pra eles." O pessoal em volta fica em silêncio, naquele estilo peido no elevador. Ninguém sabe o que dizer, porque todo mundo sabe que ele tá falando sério. Há uma debandada discreta.

Começam a armar um trilho circular. Outro pessoal traz um ventilador enorme que fica bem atrás do som. Depois de tudo armado chega o Tony Belotto, que fica em cima de uma plataforma no centro do trilho circular. O chefe entra em ação. A máquina de vento também. Playback e ventania. O pessoal começa a jogar papel picado, jornal, copos plásticos, tudo no vento que segue na direção do Belotto, que dubla a música e "toca" uma guitarra. CORTA!!! Acabou o lixo e a música não acabou. Inacreditavelmente não se encontra o que jogar no cara cantando. A solução? Ir até a banca e comprar jornal para rasgar e jogar. Isso vai demorar. Bem que a Malu Mader podia aparecer.


Depois de muito tempo, conseguem terminar a "cena do lixo". Chegou a hora do almoço. Agora descobri pra que serve esse caminhão enorme parado aí na frente: comida. O Belotto não fica pro almoço. O Paulo Miklos e Charles Gavin já chegaram para suas cenas e almoçam por ali mesmo, nas mesas armadas. Depois da digestão, começa a odisséia para montar a cena com Charles Gavin na bateria. A "cena da chuva".

Canos e mais canos. Caminhão-pipa. Vai começar... eu acho. Playback... "chuva". Bateria. Saiu errado. Isso vai demorar. Depois de algumas tomadas... tudo bem, depois de muitas tomadas, eu simplesmente não suporto mais escutar a música. Já sei de cor, de trás para frente, pulando as vogais, sei até em aramaico. O Gavin está tremendo de frio. Provavelmente xingando a décima geração de quem teve aquela idéia. Sorte dele que hoje não está frio. Mais uma tomada... o prato da bateria cai. Arrumar prato. Secar bateria. Parece que eles dão mais importância a bateria do que ao Gavin. Enquanto isso ao meu lado, o chefe diz que é um feiticeiro, e que vai enganar a morte. Penso se ele tá com alguma "da boa" na cabeça. Depois de bastante tempo a "cena da chuva" termina. Fico sabendo que outras cenas serão filmadas em um outro prédio. Vejo o pessoal fazendo a tampa de um bueiro falsa, para esta outra filmagem. Mas aqui ainda falta uma cena, com o Paulo Miklos agora, é a "cena da teia".

Parece que mesmo começando a escurecer não vão parar. Arrumam um local com um monte de entulho e o Miklos senta, se encostando na parede. Aí é que começa o sofrimento dele. Ele tem que ficar imóvel, só podendo mover a boca para poder dublar o playback. Isso até o pessoal dos efeitos especiais o cobrirem com algo parecido com uma teia. O problema é que isso tem que ser gradativo. Ele canta um pouco, e a teia vai aumentando, até formar quase um casulo em volta dele, e nesse tempo todo ele não pode se mover. Realmente, o cara é profissional. Playback... canta... pára... "teia"... playback... canta... pára... "teia". Isso vai demorar. Tô com pena do cara.

As esposas e filhos dos outros integrantes estão por perto desde a "cena da chuva". As crianças tiram fotos. Por fim, a filmagem termina por aqui. A equipe vai para o interior de outro prédio, mas lá não somos necessários. O chefe "feiticeiro" levanta acampamento e nós vamos embora. Foi tudo bem legal. Sempre gostei dos Titãs, mas não pedi autógrafo de ninguém, acho isso muito mico. Pelo menos vou ter algo pra escrever no blog quando faltar assunto.



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