domingo, 11 de dezembro de 2005

Memórias Quentinhas

MEMÓRIAS QUENTINHAS

Sentado naquele banco alto, debruçado sobre o balcão de vidro, olhando a rua, eu me recordo de que já são três anos trabalhando aqui nesta padaria. Hoje é meu último dia, mas eu ainda não sei disso.

Quando comecei aqui, aos 12 anos de idade, eu não pensei que fosse ficar tanto tempo. Mas o tempo foi passando, eu fui ficando, acabei por deixar a escola, sem nem mesmo terminar a oitava série, saindo no meio do ano. Não sinto muita vontade de voltar a estudar, de certa forma acho que usei o trabalho para me ver livre dos estudos. E minha mãe caiu nessa. Às vezes penso que eu tenho falta de surra. Liberdade demais de escolha para um garoto.

Quando vim trabalhar aqui, um lugar de pouquíssimo movimento, estava aqui a Denise, de 18 anos. Uma garota divertida demais, e bonita. Ela ia sair em breve e eu ia ficar no lugar dela. Uma única pessoa dava conta de tudo, é uma padaria pequena. O dono é o Seu Fausto. Um coroa branco, como se fosse um português, mas sem ser. Calvo e barrigudo, eu tenho essa relação empregado-patrão, em que o empregado detesta o patrão apenas pelo motivo dele ser patrão.

Voltando à Denise, ela lia alguns livros, entre eles Agatha Christie. Não sei por que, mas eu pedi a ela que me emprestasse algum desses livros, e ela disse que eram "difíceis demais" para eu entender. Aquilo foi quase ofensivo. Mas como era a Denise que dizia, não parecia tanto, ela só estava me subestimando.

Lembro que quando ela me disse o nome dela todo, eu inventei uma fórmula de gravar: eu dizia que era Denise técnico da seleção e marca de cigarro. Lembro que o técnico da seleção na época era algo Coutinho, mas a marca de cigarro, não lembro mais. E ela se foi, e ficou tudo mais chato.

Mas meu mundo girava em torno deste trabalho. Daqui eu ia (e ainda vou ao cinema), logo adiante, assim que saía. Daqui eu conheci a Ana Carla. E toda vez que venho para o trabalho eu passo na banca de jornal, que passei a conhecer por trabalhar aqui. Sempre acordo mais cedo que o necessário e vou até a banca pegar os lançamentos. Até mesmo fiado eu já compro, e quando chego já dizem "sim, tem coisa nova", ou então "xiii... cara, não chegou nadinha". Na verdade eu abro os pacotes lacrados. Acho que tudo isso tira a chatice deste trabalho monótono.

Todo dia a mesma coisa: acordar, andar uns 20 minutos a pé, seguindo a "rodovia" principal. Chegar, abrir a padaria e começar a rotina de varrer a frente, fazer o café, limpar a poeira das garrafas de pinga e correlatos, limpar balcão, carregar a lenha para o forno (nossa, isso é muito chato). Depois o Seu Fausto chega, e fica por aqui. Não conversamos, não temos nada em comum.

Seu Fausto tem sua rotina também: bebe sua cerveja preta totalmente sem gelo (nunca entendi aquilo), jogava porrinha com Seu Nelson e Seu Zé (veja o que é porrinha aqui, mas eles jogavam com moedas), e depois ele ia dormir. Dorme muito e eu passo a maior parte do tempo aqui sozinho, o que eu acho bem melhor.

Por passar tanto tempo sozinho, e cuidando de uma caixa registradora, digamos que a tentação é grande, e digamos que, em três anos eu comprei mais gibi que meu salário poderia permitir. Digamos que isso foi uma boa influência no meu gosto por HQs, apesar de ser de um modo um tanto quanto radical.

Os parceiros de porrinha de Seu Fausto eram Seu Nelson e Seu Zé, como já disse. Seu Nelson é um coroa que cuida de um ferro-velho enorme, que fica aqui em frente a padaria, e mora lá mesmo. Só toma uma cachaça feita de carquejo. Ou melhor ela vem COM carquejo dentro... seja lá o que seja isso, mas parece amarga só de olhar. Seu Nelson é uma ótima pessoa, simples, anda como um caipira, com um chapéu uma palha na boca. Seu Zé, um senhor escuro, fala com um trem desabalado, e não se importava se a gente está ouvindo ou não. Às vezes fala sozinho. Só toma a tal de catuaba.

O filho do Seu Fausto aparece sempre ao domingos, vindo da Zona Sul, onde mora. Domingo é o dia da feira que é bem aqui em frente corta todo essa rua e além. É o dia de maior movimento aqui, com gente tomando cerveja até dizer chega. O dia de algumas gorjetas legais, como a do Luís, um coroa boa gente, feirante com uma filha adulta, que nossa senhora!!! O filho do Seu Fausto tem uma mania de mandar comprar sempre três jornais: O Globo, O Dia e o Jornal do Brasil, e lê os três. Ele gosta de filmes e a gente conversa bastante. Lembro quando saiu o Retorno de Jedi e ele disse "daqui a três anos vem Guerras Clônicas". Tomara que sim, eu gosto de Guerras nas Estrelas.

Em três anos tem muita história, que quem sabe um dia eu escreva sobre elas. Não sei exatamente como, e se alguém iria ler, mas sei lá, talvez escreva para que eu mesmo leia e não esqueça. Seu Fausto chega, e começa a falar algo sobre limpeza mal feita e todo o peso desses três anos vem à tona, eu resolvo que acaba ali. Apenas me viro, e vou embora. Não falo nada.

ALGUNS ANOS DEPOIS:

Engraçado, Seu Fausto morreu. Ele esteve aqui em casa, anos depois de eu ter saído da padaria. E conversou comigo, ele era amigo de minha mãe, por isso me arranjou o emprego. Foi lá nos visitar. Era estranho vê-lo como pessoa e não patrão. Era diferente. A conversa era diferente. O sorriso era diferente. E hoje minha mãe diz que ele morreu. De certa forma eu me sinto triste com isso.


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