domingo, 24 de dezembro de 2006

O Natal de Jerusalem Jones

O NATAL DE JERUSALEM JONES


Então não havia muito o que festejar. Jerusalem Jones estava bêbado como um gambá alcóolatra. Queria apenas esquecer que era Natal. Não, não que sua infância tenha sido um desastre, e ele nunca tenha ganho nada. Seu Natal sempre foi o de uma criança normal. Pena que ele nunca foi uma criança normal. Ele detestava o Natal apenas por detestar. Ou era apenas mais um desculpa para se entupir de bebida. Na verdade, acho que era isso mesmo, afinal ele dizia odiar a Páscoa também, e enchia a cara pelas mesmas razões... ou falta delas.

Jerusalem Jones nunca acreditou em Papai Noel e, certa vez que seu pai foi cair na besteira de brincar com isso, tentanto subir no telhado da casa, Jerusalem Jones, lá com seus 8 anos de idade, pegou o revólver do pai, e começou a atirar em sua direção, que rolou, deslizou pelo telhado e caiu no chão, passando o Natal todo quebrado. Jerusalem Jones nunca entendeu qual era a da barba branca e da roupa vermelha. Sua mãe só fazia rir de tudo aquilo.

É, Jerusalem Jones apenas detestava isso de espírito natalino. Ele dava graças a Deus de não ter parentes ou mesmo amigos a quem tivesse que dar presentes. Além de estar sempre duro, provavelmente daria algo que não seria do agrado da pessoal. Foi pensando nisso tudo, meditando na vida ao sabor do álcool destilado, que Jerusalem Jones viu, àquela hora da noite, quatro Papais Noel saindo de um dos bancos da cidade. Cada um com um saco mais cheio do que o outro. Jones sabia, por algum motivo, que os sacos não deviam estar cheios de brinquedos.

A rua estava deserta, pois todos estavam em volta de suas árvores de Natal, e a Gangue do Papai Noel parece ter achado a oportunidade ideal para limpar o banco. E, com aquele disfarce, podiam ser abordados por aí e diriam que eram mais um dos tantos Papais Noel que andavam circulando pela cidade.

Jerusalem Jones foi notado por todos eles, que olharam em sua direção, mas vendo o estado alcoolizado dele, não deram a mínima importância e seguiram em frente. Mas Jones estava sóbrio agora, apesar de não parecer. Havia duas coisas que deixavam Jerusalem Jones sóbrio por mais bêbado que estivesse: cheio de mulher gostosa e cheio de dinheiro. E ele estava sentido o cheiro de muitas notas naquele momento.

Mantendo o aspecto de bêbado, Jones seguiu a quadrilha a uma certa distância. Eles estava indo na direção de uma carruagem, que já tinha um cocheiro à espera. Entraram todos os quatro e a carruagem partiu a toda. Jerusalem Jones entrou em desespero. Tinha que segui-los. Enfiou dois dedos embaixo da língua e tentou assoviar para chamar seu cavalo. Não conseguiu. Tentou novamente. Só saía baba. Ele ainda tinha efeito do álcool agindo sobre ele. O jeito foi gritar:

- CADÊ VOCÊ, CAVALO DE UMA PORRA?!

O cavalo apareceu dobrando a esquina e correu em sua direção. Jones pulou na cela do jeito que dava e disparou na direção da carruagem. A noite estava um breu e a lua mal iluminava o caminho. Ele mais escutava a carruagem do que propriamente a via. Seguiu mantendo uma boa distância até, que depois de um longo tempo, viu que eles decidiram parar. Com certeza iam dormir, para seguir viagem de dia. Estavam todos eles no meio do deserto.

Jerusalem Jones saltou e tentou pensar no que ia fazer. Uma coisa que ele tinha notado agora, ele não pensou em nenhum plano para enfrentar quatro Papais Noel armados. Ele suspirou, tossiu, e quase morreu com o próprio bafo de cachaça. O que fazer, afinal? Nessas horas é que ele queria que algo de estranho acontecesse. Uma daquelas coisas que costumam acontecer com ele quase sempre, sem ele saber o motivo. Ele precisava de ajuda! Ou isso, ou era morrer tentando tomar a grana daquele pessoal.

Jerusalem Jones via a fogueira, que eles acenderam, tremular no meio da escuridão. Ele tirou seus revólveres da cartucheira, segurou bem rente ao rosto, se preparando para fazer algo que ele nem sabia mesmo o que era. Morrer, talvez. Foi quando ele começou a escutar gritos horrendos e barulho de ossos sendo quebrados, despedaçados. Ouviu grunhidos e gritos de dor lancinantes. Sua espinha tinha virado uma trilha de gelo em suas costas. Os sons eram horríveis demais. Jones achava que nunca mais conseguiria dormir. Quando, enfim, o rebuliço parou, o silêncio voltou a reinar sobre o deserto. Mas ir lá ver o que era, nem pensar, não com essa escuridão.

Jerusalem Jones esperou, esperou e esperou até o dia amanhecer, sem pregar os olhos. Qaundo o sol nasceu, Jones sentia dores horríveis pelo corpo, por não ter conseguido dormir. Foi andando, devagar, até o local onde os bandidos estavam acampados. Quando chegou bem perto, conseguiu entender mais ou menos o que acontecera. Eles não viram, mas levantaram seu acampamento bem no centro de um cemitério indígena de animais. Ou talvez até soubessem, mas não estavam nem aí.

Mesmo assim, Jerusalem Jones não entendia o que podia ter atiçado a ira desses espíritos para tanto. Havia pedaço de Papai Noel para todo lado. Roupa vermelha, barba branca e pedaços de gente enterrados no chão. Jones olhou ao redor e viu os sacos de dinheiro intactos. Sorriu feliz da vida. Olhou mais em volta, vendo todos os estranhos túmulos de animais mais adiante, que eram marcados por pedras empilhadas. Viu que uma das covas estava remexida, e não acreditou no que viu. Um dos bandidos abriu o que pensou ser apenas um buraco e cagou dentro. Vendo o que restava dos ossos, Jones viu que era o tumulo de cão bem grande. Devia ser de algum chefe da aldeia. Que péssima idéia esse cara teve.

Jerusalem Jones se apressou em juntar os quatro sacos, quando ouviu um barulho às suas costas. Ah, não. Era o xerife e seus ajudantes:

- Jones! Foi você mesmo quem fez isso, meu filho?! Eu sempre achei que você era um vagabundo insolente, mas nunca pensei que fosse dado a heroísmos. Vou conseiderar esse massacre - que não faço idéia de como cometeu - como legítima defesa, meu filho. Pelo jeito você sabia que esse dinheiro era para obras de caridade de quatro cidades, doados pelo governador e conhecidos seus, devido ao Natal. Passe as sacolas, filho. Você fez um bom trabalho.

Jerusalem Jones ficou ali, parado, segurando quatro sacos vermelhos, cheios de dólares, pensando em como ele odiava ser chamado de "filho", por pessoas que não eram seu pai. Ele fungou, pensativo. Estava meio perdido em seus pensamento, até que decidiu entregar as sacolas e disse:

-É, xerife, tudo pelas criancinhas. Feliz Natal para o senhor e sua família.
- Pra você também, meu filho.

E o xerife deu as costas e se foi com seus ajudantes em seu encalço, sem que vissem o dedo que Jerusalem Jones mostrava para eles.

Já estava indo embora quando viu um é atrás de uma grande pedra. O corpo de um dos bandidos estava destroçado atrás dela, um de seus braços estava mais adiante, segurando um maço de notas. O idiota deve ter tentado subornar a assombração. Que coisa mais imbecil. Jones pegou o maço de notas e viu que tinha uma grana considerável.

Olhou para onde estava a cabeça do bandido, ainda com a barba branca (na verdade a barba parecia verdadeira), e disse:

- Obrigado, Papai Noel! Eu adoro o NATAL!

E se mandou para a cidade mais próxima, onde iria comprar alguns presentes para si mesmo!

domingo, 10 de dezembro de 2006

JJ e o Encontro Insólito

JJ: ENCONTRO INSÓLITO NO DESERTO

Eu gosto do deserto, isso é um fato. Outro fato no entanto, é que é no deserto que me acontecem as coisas mais estranhas e inesperadas. Talvez no fundo eu goste de coisas estranhas e inesperadas. Sim, estou tocando nesse ponto porque esses dias aconteceu mais um desses estranhos casos que parecem me perseguir aqui pelo deserto. Talvez o mais estranho de todos.

Eu vinha de Start City e ia na direção de Ending City, atravessando o deserto, e não estava nada contente por ter perdido dinheiro no jogo. Estava chateado por mais de um motivo, já que o dinheiro não era meu e, sim, um pagamento que fui incumbido de fazer aos irmãos McNeill. Certo, eu achava que estava com sorte e resolvi usar o dinheiro do resgate do pequeno Bob Laughton, que havia sido sequestrado há 12 dias pelos tais irmãos. Convenci o pai do Bob de que eu poderia levar o dinheiro em segurança e resgatar o garoto. É incrível como as pessoas acreditam em qualquer um hoje em dia.

Certo, não me olhem desse jeito. Eu apenas sou fraco quando se trata de jogatina. Perdi toda a grana e ainda tive de empenhar minhas armas. O pobre Bob estava em maus lençóis. De certa forma eu tinha intenção de resgatá-lo sim, mas ficaria com o dinheiro, mandando os irmãos McNeill para o inferno. Como exatamente eu iria fazer isso, no caminho eu ia decidir.

Como nada disso saiu como planejado, fui atravessando o deserto indo para bem longe. Se o pai do Bob me pegasse, não haveria quem me salvasse. Bom, mas como eu ia dizendo, eu passava pelo deserto, nessa travessia que costumo fazer em tantos outros desertos e que já me renderam algumas aventuras bizarras, quando eu vi um caveleiro ao longe se aproximando rápido. Não pude deixar de notar que ele carregava alguém junto. Alguém pequeno. Quando ele ia passar por mim à toda velocidade, eu quase caí do cavalo de susto: O DESGRAÇADO ERA A MINHA CARA!!!

Acho que ele passou tão rápido que não me notou. Parecia com bastante pressa. Resolvi ir atrás e quando o alcancei, foi que ele se deu conta da semelhança que havia entre nós e parou. Ficamos meio que estupefactos por um tempo, até que um dos dois resolveu falar, eu, no caso:

- Somos irmãos que se perderam ou algo assim? Qual é seu nome?
- M-meu nome é Jerusalem Jones. E o seu?

Eu não podia acreditar, era algum tipo de brincadeira. O que estava acontecendo afinal?

- Quem é o garoto com você, posso saber?
- Cara, eu não sei o que está acontecendo aqui, até as nossas vozes são idênticas. O garoto se chama Bob Laughton, eu acabo de resgatá-lo e estou levando o garoto e o dinheiro de volta para o pai dele. Espero que os dois consigam reconstruir suas vidas depois desse pequeno constrangimento.

Minha cabeça estava doendo demais. Quando ele disse essas coisas é que notei que haviam algumas diferenças entre nós dois: ele parecia mais... mais... honesto. Já ia comentar sobre isso quando olhamos os dois para um outro cavaleiro que se aproximava e eu, não sei o motivo, sabia que era outro Jerusalem Jones. E não deu outra.

Ele se aproximou de nós dois, tinha um olhar insano, e estava com o mesmo garoto na garupa, só que um pequeno detalhe: o garoto estava morto, esfaqueado. O novo Jerusalem Jones estava coberto de sangue. Ele não parecia ver nenhum problema em estar diante de mais dois parecidos com ele, e disse:

- Reunião de família? Hehehehehe? Hein? Reunião, é... hehehehehe. Tenho que entregar essa encomenda ao velho Paul Laughton. Eu disse que resgatava o filho dele... hehehehehe... só não disse como o entregaria! Heheheheheeheh... vocês precisavam ver o que fiz aos irmãos McNeill. Pena que não consegui me controlar e deixar o garoto vivo.. heheheheeh.

- Porque diabos você matou o garoto? - Perguntou meu eu mais honesto.
- Porque o Demônio das Sete Chaves ocultas falou comigo enquanto eu cagava em Barrows City. Ele disse que se eu fizesse isso eu salvaria o mundo e ganharia a simpatia dele. Ah, e porque eu estava sem fazer nada.

O meu eu mais honesto ia retirar o revólver do coldre, quando um quarto cavalo vinha se aproximando e, claro, havia alguém sobre ele. Mas dessa vez parecia ser uma mulher. Respirei mais aliviado ao constatar isso. Mas isso durou pouco, pois quando a mulher se aproximou, estava vestida como uma pistoleira e... se parecia comigo também. Ver meu rosto emoldurado por cabelos compridos e com batom não foi nada animador. Eu me senti tonto. O meu eu psicopata perguntou:

- E aí, querida? Você também é da família? Qual seu nominho? - Disse ele babando.
- Meu nome é Jerusalena Jones, e o primeiro que rir do meu nome, leva chumbo.

Ela não tinha ninguém na garupa. Mas parecia ter participado de algum tipo de luta, pois parecia bem machucada. Por curiosidade, eu perguntei:

- Você estava tentando resgatar alguém?
- Roberta Laughton, filha de Paula Laughton. Cheguei tarde demais. Mas consegui dar cabo nos assassinos. Mas o que diabos significa isso tudo, porque todos somos tão parecidos e porque diabos esse maluco está com um garoto idêntico ao que está vivo na garupa ali do outro?

Foi quando ela disse isso que vi que o garoto que ainda estava vivo olhava para todos nós de boca aberta, como se estivesse vendo fantasmas, e eu nem podia culpá-lo. Eu estava querendo apenas continuar meu caminho e deixar aquelas cópias de mim mesmo, para trás. Quando dei sinal de que ia partir, meu eu insano sacou da arma para atirar em mim, quando meu eu honesto se meteu na frente e levou o balaço. A garota Jerusalena sacou da arma e atirou no doido, bem no peito, mas não escapou de levar um tiro bem na cabeça. Eu fiquei ali, em meio àquela carnificina. Todo mundo morto, menos eu e... o garoto.

Vi que os corpos tremeluziram e foram desaparecendo, mas o garoto ficou. Talvez por estar vivo, não sei. Me veio a idéia de que eu devia compensar o fato de ter perdido o dinheiro do Paul Laughton, e levar o filho dele de volta. Mesmo que não fosse exatamente o mesmo, afinal o original já deveria estar morto a essa altura.

- Vem, garoto. Vou te levar pra seu pai. - Ele subiu na garupa e partimos de volta para Start City.

Eu não sei o que aconteceu ali, nem faço muita questão de saber. Quando estava de volta para a cidade, um outro cavaleiro passou por mim, achei que ele parecia muito comigo, só que era negro. Eu estava com pressa e não queria mais pensar em cópias alteradas de mim mesmo. Apenas segui em frente.

domingo, 26 de novembro de 2006

JJ e o Caçador de Recompensas Chinês

JJ E O CAÇADOR DE RECOMPENSAS CHINÊS


Eu detestava quando isso acontecia. Era um verdadeiro pé no saco. De tempos em tempos eu era confundido com algum bandido, pé-rapado ou não, que estivesse sendo procurado. E, por mais que eu dissesse que meu nome era Jerusalém Jones, o desgraçado do caçador de recompensas não acreditava. Assim sendo, era sempre um custo para me livrar deste bando de urubus que caíam em cima de mim como abutres.

O pior de tudo é que eu nem tinha como provar que eu era eu mesmo. Você já reparou que nós que vivemos no velho oeste (quer dizer, ele ainda é novo, mas quando você estiver lendo isso, ele será velho) nunca temos um documento de identificação? Tipo, como a gente sabe que o Buffalo Bill é o Buffalo Bill? Só por causa daquele cavanhaque brega? Qualquer um pode ter um cavanhaque idiota daqueles. Qualquer um pode dizer que é o Bufallo Bill.

O fato é que, desta vez, era um maldito de um chinês que estava no meu encalço. Eu fugia pelo deserto como o gato foge de água molhada. Não que eu realmente estivesse com medo daquele amarelo, o desgraçado nem mesmo tinha armas. Eu corria apenas porquê não queria ter de matar um filho da mãe e depois ter, realmente, minha cabeça posta a prêmio. E mais, ter minha cabeça posta a prêmio e por uma ninharia, o que seria mais vergonhoso.

Assim sendo eu galopava o vento (nossa, se um dia eu for escritor vou colocar essa frase pro texto ficar mais, tipo, cheguei!). Lá ia eu galopando o vento quando meu cavalo se assustou com alguma coisa (uma cobra eu acho) e me derrubou, saindo em disparada, me deixando sozinho a mercê do comedor de peixe cru (peraí, é japonês ou chinês que come peixe cru, eu nunca sei).

Não demorou muito pro amarelo me alcançar e ele saltou sem nem mesmo pôr as mãos no cavalo. Por um momento eu achei que o nanico tinha voado da cela. Devia ser o sol que estava me fazendo ver coisas. Se tudo aquilo tivesse um fundo musical, eu teria escutado um assovio melodioso.

Me levantei e encarei o china bem dentro dos olhos. Minha vontade era sacar e encher o boneco de balas. Afinal eu estava bem arranhado por conta da queda, e o suor que caía nos arranhões não me faziam ficar mais feliz. Mas, em vez disso, eu apenas gritei: "EU NÃO SOU QUEM VOCÊ ESTÁ PENSANDO, SEU CHINEZINHO DE MERDA, MEU NOME É JERUSALEM JONES!". E, antes que eu me desse conta, senti um pé no meu queixo, rodopiei três vezes e caí no mesmo lugar de onde havia terminado de levantar.

Eu me levantei grogue, olhei para o desgraçado parado a minha frente, sorrindo, me olhando com aqueles olhos que eu não tinha certeza se estavam mesmo abertos. Me dei conta de que ele devia ter parte com o demo, já que eu não lembro de ter visto ele se mexer. Ele deu outro sorrizinho e disse:

- Meu nome é Pe Bo Lim! Você não "Zerusarem" Jones! Você Paul "Macarister", e eu vou levar você "pureso" e "pegá" a "lecompensa"!

- Peraí, Paul McCallister? Como alguém pode me confundir com aquele troncho do Paul McCallister? O cara é uma mistura de Corcunda de Notre Dame com Frankenstein. EU NÃO SOU TÃO FEIO ASSIM!!!! Vê se abre mais esse olho, china desgraçado - ser comparado com o Paul McCallister foi demais pra minha beleza. E aquele china tava tentando me matar, assim seria apenas legítima defesa. Saquei as armas e... e nada.

O china deu um pulo no ar. Se existisse cinema nessa época eu diria que a cena toda ficou em câmera lenta. Eu meio que vi o china flutuar, com aquela roupa rídicula de cowboy que não combinava com ele, então girar no ar, e daí seus pés acertaram meus dois revólveres, jogando-os muito, mas muito longe.

Ele voou! Eu juro que o china voou. Foi coisa de segundos, mas o viadinho voou! Quando ele aterrisou seus pés se enterraram no chão. Ele olhou de volta para mim, com um olhar (pelo menos eu deduzia que fosse um olhar, já que não se via nada, a não ser seus olhos fechados) de "eu sou o maioral". E pra completar, ele disse, todo cheio de confiança:

- Ou vem "poro" bem, ou vem "poro" mal!

Diacho, eu já tinha ouvido historinhas sobre esses chineses, e que eles tinham umas técnicas de luta conhecidas como Funde Ku, Bung Fu, ou algo assim. O Padre Crowns disse que uma vez, estava em um clube de lutas proibido quando aceitaram um desses amarelos numa luta onde valia tudo. O padre disse que foi um massacre, e que Dwight, o peso-pesado mais assassino de todos os tempos, ficou aleijado. Claro, o padre Crowns sempre bebeu demais e sempre viu coisas demais. Ele jurava que quando esteve pelas bandas de Roswell viu um "pires voador", assim sendo eu não acreditei em nada do que ele disse. Pelo menos até agora...

Eu não estava nem um pouco a fim de ser preso no lugar do McCallister. Eu até podia deixar ele me levar e ver a cara de idiota que ele ia ficar quando o xerife dissesse que não era eu que estavam procurando. Era isso que eu fazia na maioria das vezes que me confundiam com procurados. Mas agora, agora eu estava puto, e aquele amarelo não ia me levar a lugar nenhum, pois mesmo não sendo eu o bandido, iam rir de minha cara por ser capturado por aquele toco de gente. Eu precisava dar uns pipocos no rabo desse chinês e pôr ele pra correr.

Olhei na direção das minhas muito distantes armas. Olhei para o chinês metidinho e... disparei na direção delas. Eu corri como nunca corri em minha vida. Eu escutei um barulho de tecido ao vento, atrás de mim, e senti uma pancada nas costas. O viadinho me acertou de novo. Eu pensei que ia ter de enfrentá-lo e isso não seria muito bom... pra mim. Pra piorar, eu suava tanto que um bando de moscas se juntava em mim, por causa do suor e dos meus arranhões que devia estar uma beleza de podres. Agora eram o chinês e as moscas que me irritavam.

Me levantei e fiquei de frente para o chinês. Eu não sabia bem o que fazer. Se eu corresse ele me enchia de porrada, se eu ficasse ele me levava preso e o vexame seria maior. Quando eu espantei uma mosca da cara, ele se assustou e ficou em posição de ataque, com as mãos em frente ao rosto. Fazia uns barulhos esquisitos, uns gritinhos meio afeminados demais para o meu gosto. Uma mosca quase entrou em meu nariz e eu fiz um gesto mais brusco, o que bastou para que ele me desse um chute na cara. PORRA!!! Esse chinês é maluco??!!

Meu nariz sangrava. Agora as moscas (de onde vinha tanta mosca?) estavam na minha cara aos montes. Eu dei um grito de raiva e o chinês pulou com a perna esticada pra me acertar de novo, foi quando ao tentar afugentar as moscas eu acertei o pé dele e o derrubei no chão. Ele se levantou estupefacto. Na verdade eu também estava, só que não tinha tempo pra isso, pois as moscas me perturbavam.

O chinês estava furioso por ter sido derrubado, deu um grito e avançou pra mim, começando a tentar me acertar golpes com as mãos, a cada vez que ele tentava, eu o impedia sem querer, enquanto tentava me livrar das moscas que zuniam na minha frente. Era golpe do chinês de lá, e golpes meus, sem querer, de cá. Acabei por me defender de todos os seus golpes. Quando ele tentou me acertar a orelha com um golpe do pé, eu tentava pegar uma mosca ali bem na hora e acabei por pegar o tornozelo do china. Sem pensar duas vezes rodopiei o cabra pelo tornozelo e acertei a cabeça do disgramado numa pedra que estava ao meu lado.

O chinês apagou na hora. Acho que ele não esperava isso, e nem eu. As moscas nessa hora, se dispersaram, foram embora. Não entendi muito bem. Zung Fu, né? Olhei para aquele corpo estendido no chão, com mais ou menos metro e meio e pensei que não existia lutador perfeito, e que tudo dependia da sorte... ou das moscas, sei lá.

Estava sem saber o que fazer com o chinês desacordado, (que, claro, amarrei bem amarrado) quando me lembrei do que o Padre Crowns disse sobre o clube de lutas clandestino. Eu sabia onde tinha um, e se era dinheiro que o amarelo queria, ele ia ganhar, mas ia ter de dividir comigo. Ou isso, ou eu ia colocá-lo para trabalhar em uma pastelaria.

Chamei meu cavalo de volta, joguei o china amarrado no dele, e fui na direção do pôr do sol, sabendo que tudo que se precisa para ganhar dinheiro na vida, é um chinês que lute Fung Su.

Rai rô, rai rô... Ó suzana, não chores por mim, vou voltar pro Alabama tocando Pe Bo Lim... (argh... podre essa!)

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Fragmentado

FRAGMENTADO

Estou deitado no sofá, assistindo a qualquer coisa na TV, quando o sono chega, como areia movediça me puxando para baixo. Mas não quero dormir, não está na hora. Essa luta contra o sono provoca uma sensação estranha, que já senti tantas outras vezes. Uma mistura de dèja vú com uma impressão de não estar realmente ali mas sim, em outro lugar. Olho em volta com os olhos pesados e quase não reconheço a sala aonde estou. O sono que sinto é diferente do sono normal. Sinto algo como um pressentimento de morte iminente, e parece que se eu sucumbir ao sono, não voltarei mais. É um sono macabro.

Tento prestar atenção ao que se passa na TV, mas tudo é uma mistura que o sono não deixa eu compreender. Penso em me levantar e ir fazer alguma outra coisa, mas não consigo, quero apenas dormir, mesmo sabendo que não posso. Por várias vezes, quando quase durmo, tenho a impressão de estar caindo.

Fecho os olhos por menos de um segundo e quando os abro estou em uma maca. Alguém está colocando eletrodos em meu peito. Meus olhos cansados de sono não conseguem divisar a pessoa. Parece ser uma jovem, algo como uma enfermeira, não sei. Ela tagarela sobre seus filhos e de como ela precisar fazer um upgrade em seu computador que está ultrapassado. Ela continua colocando eletrodos em meu peito. Ela passa alguma coisa gelada, algum tipo de gel e os coloca. Prende meus tornozelos contra a maca, com alguma coisa, e meus pulsos também. Ela faz tudo aquilo como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Ela coloca dois eletrodos em cada lado de minha cabeça, esses bem maiores que os outros. Não acredito quando ela abre minha boca e coloca um pedaço de pano dobrado entre os meus dentes. Ela diz algo como "Vai dar tudo certo desta vez. Nada de paradas cardíacas, tenho certeza". Sem saber o que me espera, sinto uma descarga elétrica percorrer o meu corpo. Entro em convulsão. Minha cabeça parece querer explodir em mil pedaços que e esses pedaços em outros mil pedaços. Perco a consciência.

Acordo com a água fria à minha volta. Água fria e salgada entrando em minha boca. Estou me afogando. Estou afundando lentamente, em algum lugar que não sei aonde é, e nem porque estou ali dentro. Estou prestes a morrer. De repente sinto que uma mão agarra meus cabelos e me puxa de volta para a superfície. Sou levado de volta à praia. Estou na praia do Flamengo no Rio de Janeiro. O sol está a pino e eu estou com apenas com um short. Como pude vir parar aqui, vindo do meu sofá e daquele lugar estranho onde me eletrocutaram?

As pessoas estão me olhando estranho. A garota que me tirou da água enfia a mão na minha boca e retira... nossa, ela arranca um dente meu. A dor é horrível. Ela puxa um dos meus caninos e arranca com força. O sangue jorra na minha boca, sinto o gosto, e me sinto mal. Estou deitado na areia com a boca cheia de sangue. A multidão em volta... bom, na verdade não é uma multidão tão grande... fica olhando para o dente que a garota acabou de arrancar da minha boca. Um murmúrio de "é ele! é ele!" se faz ouvir. Quando parecem ter certeza de que sou eu mesmo, seja lá quem eu seja para eles, eu vejo uma espécie de arpão surgir na mão de um dos caras que está mais próximo de mim. Ele levanta aquela porra e com toda a força, finca bem no meu coração.

Eu sinto o ar escapar de meus pulmões num grito abafado e quando me dou conta, estou sentado aqui, em frente ao computador, com o editor do Blogger aberto. Acho que cochilei enquanto pensava em algo para escrever. Olho para a tela e há um texto nela. Este texto, que não consigo lembrar de ter escrito. Minha cabeça dói levemente.

Estou com sono, e resolvo ir me deitar no sofá. Depois eu leio esse texto que não escrevi. Esse sono quando chega... é como areia movediça, me puxando para baixo.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Roland Bishop - Conclusão

A ESTRANHA MORTE DE ROLAND BISHOP
CONCLUSÃO


Anteriormente no Rapadura Açucarada:

Roland Bishop foi atropelado e morto enquanto apenas atravessa despreocupadamente em um sinal fechado. Depois de ser levado por estranhos paramédicos que injetaram algo que o ressuscitou, acabou em um laboratório maquiavélico onde o seu corpo (e de muitas outras pessoas) terminou de ser ressuscitado, sendo transformado em um zumbi. O fantasma de Bishop, no entanto, acompanhava de perto as desventuras de seu corpo, antes sem vida. Para piorar, viu seu corpo-zumbi ser encaminhado para um teletransportador, e sendo munido de um cinto com explosivos, sendo agora um zumbi-bomba. Ao ver seu corpo entrar no teletransportador, Bishop não pensou duas vezes e o seguiu, para saber para onde seria enviado. É aqui que nossa história continua.


Senti um empuxo estranho que parecia me dividir em bilhões de partículas. Eu e meu corpo zumbi estávamos sendo teletransportados e eu, em alguns instantes, saberia para onde.

Quando senti que eu era novamente recomposto, e abri os olhos, foi que eu percebi: eu havia aberto meus olhos!!! O meu eu-fantasma, no processo de teletransporte, fora reunido novamente ao meu corpo-zumbi. Mais ou menos como naquele filme a A Mosca, ou algo parecido. Eu sentia minnha vida plagiando um filme velho. Meio desconcertado ainda, me sentindo tonto, e com muitas dores de um corpo muito estragado, foi que comecei a ouvir as explosões à minha volta. Eu estava no meio de uma guerra. E o meu cinto começou a zumbir. Estava se preparando para explodir, e eu estava no meio de soldados, e acho que estava em algum lugar do Oriente Médio.

Tentei mostrar que me rendia, mas ele gritavam muito e apontavam as armas para mim. Eu precisava tirar o cinto, mas eles não pareciam entender isso. Eu gritava que tinha de tirar o cinto, eles gritavam mais alto. O cinto zumbia mais alto. Não tinha opção, meti a mão e arranquei o cinto ao mesmo tempo que levava uma saraivada de balas. Ainda consegui jogar o cinto longe e escutei a explosão, antes de apagar.

... ... Quando acordei, eu estava em um lixão. Estava por cima de outros cadáveres. Quando me pus de pé, caí e saí rolando até a base daquela montanha de lixo e cadáveres. O lugar devia feder muito mas, felizmente eu não conseguia sentir isso. Parecia que era uma das vantagens de morar agora em um corpo de zumbi. Uma das outras vantagens que eu conseguia divisar mais rapidamente era que eu não podia mais ser morto tão facilmente. E o que quer que tenham injetado em meu cérebro fez com que as feridas das balas cicatrizassem, apesar de os ferimentos do atropelamento ainda permanecerem.

Me sentei um pouco adiante, num velho banco de cimento,que ficava diante do lixão, e tentei entender toda a situação. Quando eu cheguei, apareci no meio de um pelotão do exército. Antes de ser fuzilado pude perceber que outro zumbis explodiam logo adiante, junto a outros agrupamentos militares. Obviamente os americanos haviam inventado um novo modo de atacar tropas do Oriente Médio, ou seja lá onde eu estivesse. Era uma guerra biológica inusitada.

Os soldados que me fuzilaram, achando que eu estava morto (e eu nem sei mais se estou ou não estou), me jogaram nesse depósito de lixo e mortos. E agora eu não faço a mínima idéia de como vou sair daqui, ou de como vou voltar para meu país. Sou agora um morto-vivo que não sabe se está mais morto ou mais vivo. Parecia que as coisas não poderiam piorar. Parecia.

Uma chuva pesada começou a cair.

Eu me sentia terrivelmente cansado, mas meu corpo agora parecia não mais se cansar, era um cansaço interno. Comecei a caminhar na chuva, sem saber para onde ir. Ao longe os sons da batalha chegavam até mim. Zumbis-bomba. Que idéia ridícula. Esses caras andaram vendo muito filme B. Isso deve ter saído da cabeça daquele presidente idiota.

Estava assim, perdido em devaneios, quando senti uma aproximação e, quando me dei conta, vi que eram alguns soldados americanos. Apontavam sua armas para mim. Logo entendi tudo. Eu devia estar com algum sinalizador em meu corpo, ou roupa (ou o que restou dela) e eles me localizaram. Todos os zumbis deviam ter pro caso de algo dar errado e o governo poder limpar a sujeira. Bom, os faxineiros chegaram.

Dois soldados brutamontes me agarraram e me jogaram na traseira de um jipe do exército, onde fiquei junto a outros soldados, que me olhavam como se eu fosse um extra-terrestre, ou coisa parecida. O jipe nos levou até uma base americana e pude perceber que eu seria reenviado de onde vim, de avião. Percebi que todos se espantavam quando me viam. Não sabia se pelo fato de eu estar com aquela aparência de zumbi, ou apenas por eu ser um zumbi que não explodiu de acordo com o planejado.

- Como foi que essa coisa sobreviveu?! - perguntou um cara com jeito de comandante, confirmando a segunda hipótese.
- Não sei, senhor. Nós o encontramos através do sinalizador, loge do campo de batalha. - disse um dos soldados que me carregava.
- Bom, coloque-o no avião e mande-o de volta. Aqueles idiotas que tiveram essa idéia imbecil devem querer seu lixo de volta.

Sem que percebesse, um cara vestido como se fosse um médico, injetou alguma coisa em meu braço e eu apaguei na hora. Claro, eu não achava que as coisas seriam tão fáceis assim.

Acordei totalmente grogue, dentro do avião. Acho que não era bem isso que tinham em mente, que eu acordasse aqui, mas sim, lá no laboratório dos cientistas malucos. Creio que os efeitos das drogas não são os mesmos em corpos "zumbificados". Acreditando que eu estava manso, nem mesmo me prenderam. Estou sozinho aqui na traseira do avião. Vejo alguns pára-quedas espalhados e, assim que penso como seria bom pular dali, o avião sofre um solavanco. Nossa! O que será que aconteceu? Sinto que estamos caindo.

Sem esperar mais nada, enfio desajeitadamente um pára-quedas e é quando, na mesma hora, a frente do avião termina de explodir e eu sou lançado fora do avião que, enquanto caio, vejo terminar de virar uma bola de fogo. A explosão quase me ensurdece. Estou caindo e não consigo abrir o pára-quedas. Pedaços do avião passam por mim, quase me atingindo. Não consigo achar o troço de puxar, para abrir o pára-quedas. Não consigo. Acho que me mesmo meu corpo de zumbi vai sobreviver à queda. Cadê... a... porra... da.. CORDINHA?!

Vou me esborrachar. Virar patê de zumbi. Vejo a terra se aproximar mais rápido que nunca. Vejo que vou cair numa região metropolitana, mas não faço idéia de onde seja. Vejo prédios, alguns descampados, eu vejo que vou morrer... novamente. Ainda tento encontrar a cordinha desesperadamente, quando finalmente encontro e puxo. O pára-quedas se abre me puxando para cima e começo a cair suavemente.

A pergunta é, onde está o localizador que implantaram em mim? Preciso tirá-lo, para que não me encontrem novamente. Pensando nisso, é que aterriso todo sem jeito em um parque, escapando assim de bater em algum prédio. O pára-quedas me cobre. Tiro-o de mim, e olho em volta. Não consigo mesmo identificar onde estou. Será outro país? É bem possível.

Quando largo o pára-quedas de lado, percebo uma pessoa correndo em direção ao parque onde estou. Depois mais uma, mais outras e, quando vejo, uma multidão está correndo, apavorada, sendo perseguida por uma outra multidão, sendo essa dos meus amigos zumbis. Sim, era uma cena típica dos filmes de George Romero. As pessoas gritavam em minha língua, e zumbis estavam atrás delas, uma multidão deles. Pelo jeito não demorou nada para que o "Projeto Zumbi" desse errado.

A multidão passava por mim, e muitos se apavoravam ao ver que eu também, era de certa forma, um zumbi, e corriam para longe. Logo a multidão de zumbis os alcançou e aquilo tudo não foi nada bonito de se ver. Uma carnificina a qual eu assistia meio indiferente. Os zumbis passavam por mim, sem se importar se eu estava ali. Um deles ainda parou e me cheirou, e viu que eu não era mais carne fresca.

Senti uma tristeza profunda ao constatar que eu não era nem humano, nem zumbi. No novo mundo que estava chegando, eu estaria totalmente sem um lugar. Provavelmente os humanos não me aceitariam, e eu não fazia muita questão de ser aceito pelos zumbis. Me senti meio desolado. Coloquei as mãos nos bolsos rasgados de minha calça, e me pus a caminhar. Comecei a assoviar a musiquinha que tocava no final do Incrível Hulk sempre que David Banner ia embora de algum lugar.

Um pensamento engraçado passou por minha cabeça: eu me sentia morto de cansado.


sábado, 4 de novembro de 2006

Roland Bishop

A ESTRANHA MORTE DE ROLAND BISHOP


Quando fui atravessar a rua, com o sinal vermelho, não percebi o carro que não freou cortando pela esquerda. A pancada não doeu. Provavelmente eu já estava morto antes mesmo de conseguir perceber a dor. Cético como eu sempre fui, ficava difícil de acreditar que eu estava vendo meu corpo estatelado, no chão, numa posição que me deu vontade de rir. O sangue aumentava, vindo de detrás da minha cabeça, formando uma poça. A multidão ia se juntando cada vez mais. Um metido a médido se abaixou para tocar meu corpo. Eu tentei contê-lo mas minha mão apenas atravessou seu ombro. Ele deu um pulo, ficou de pé, olhou para trás, mas não conseguia me ver. De repente ele parecia estar com muito frio.

Eu não sabia muito bem o que um morto deveria fazer, quais eram os protocolos a seguir. Afinal, eu nunca acreditei que algo assim pudesse acontecer. Eu, um fantasma. Na verdade, eu achava que a morte era o fim de tudo. Ah, esqueci de dizer que o motorista que me atropelou, fugiu desabalado. Eu até que olhei a placa, mas a novidade de ser um fantasma me tirou a atenção. Além disso, como eu ia anotá-la? Minha memória sempre foi péssima.

Ficar entre aquela multidão não estava sendo uma boa experiência. Frequentemente as pessoas me atravessavam e a sensação não era das melhores. Eu sentia algo como gosto de cabo de guarda-chuva. Pensando nisso, me perguntei quem foi o idiota que inventou essa expressão "gosto de cabo de guarda-chuva". A imagem de alguém experimentando o cabo de um guarda-chuva me veio à mente. Se é que eu tinha uma mente. Acho que ser fantasma não era bem como nos filmes. Eu ainda existia, mas eu não sabia exatemente o que eu era. A meu ver, fluído de isqueiro tinha mais consistência que eu.

Eu não estava nu, mas também não estava vestido. Eu não me sentia exatamente com tendo uma forma. O que me parecia, era que eu tinha apenas a idéia de um"corpo". Eu tinha cabeça, tronco e membros, mas apenas como uma abstração. Foi chegando a essa conclusão que eu consegui dar passos, sem exatamente andar. O problema todo nem era andar, mas para onde diabos eu iria. Foi com essa última expressão em mente que pensei se o Inferno realmente existiria, já que se eu não acreditava em vida após a morte e estava errado, devia estar errado sobre todo o resto. Ou não.

Estava divagando sobre tudo isso, quando vi uma forte luz branca e senti algo me puxando para dentro dela. Um desejo incontrolável de adentrar aquela luz se apossou de mim, quando de repente eu escutei um grito vindo da multidão: "ELE AINDA ESTÁ VIVO!"

Agora a coisa toda se complicava. Como eu poderia estar vivo e ao mesmo tempo ser um fantasma? Atravessei a multidão (literalmente falando) e dei de cara com dois paramédicos que terminavam de injetar alguma coisa em meu corpo, que fez com que este se mexesse, e começasse a grunhir, como se tentando acordar. Aquilo foi meio assustador. Logo me colocaram em uma maca e me puseram na ambulância. Sem pensar duas vezes, entrei na mesma, para ver como terminaria essa história. Eu não podia estar vivo. Eu estava morto. E bem morto.

Os dois paramédicos iam na frente, e eu estava sozinho com meu corpo, lá atrás. Eu tinha parado de me mexer, mas senti que estava respirando, ou pelo menos era algo que se parecia a uma respiração. O que será que injetaram em mim? Adrenalina ou algo assim? Droga, eu acho que assisti filmes demais. A ambulância saiu da estrada pavimentada e entrou numa estrada de terra. Daí a viagem foi bem longa e algo tenebroso, passando por lugares que eu não conhecia. Depois que eu já estava pensando que nunca chegaríamos a lugar algum, entramos em um túnel, descemos uma rampa e entramos em um galpão enorme. Com certeza aquilo não era um hospital.

Os supostos paramédicos agarraram a maca onde meu corpo estava e, rapidamente, levaram por uma entrada bem iluminada. Acompanhei-os da melhor forma que pude. Me jogaram dentro de um elevador, que desceu muito fundo. Ninguém acompanhou o corpo. Quando as portas se abriram duas pessoas puxaram a maca e a levaram para um lugar que parecia saído de um filme de ficção científica. Se eu tivesse uma boca, meu queixo teria caído. O que diabos era aquilo?

Uma fileira de macas cobertas com lençóis brancos estavam perfiladas e o número delas eram incontáveis. Mas diferente da minha, que acabara de chegar, essas estavam sendo despachadas e recebiam uma placa com um número e um código, como por exemplo "5428 Rejeição Intravenosa". Em cada maca a palavra "rejeição" se repetia mudando apenas o motivo. Eu quase pude sentir um frio no estômago que não tinha mais. Distraído quase não vi meu corpo ser carregado. Novamente fui até onde eles o levavam.

A quantidade de pessoas ali dentro, do que era óbvio ser um laboratório, era enorme. O teto era alto. Parecia um hangar para a contrução de um zepellin, ou algo parecido. Uma sala envidraçada foi onde meu corpo foi parar. As portas de vidro se abriram e lá dentro uma penca do que pareciam ser cientistas se preparavam para fazer alguma coisa com meu corpo.

Dois que pareciam apenas assistentes pegaram meu corpo e colocaram sobre uma mesa de metal. Logo acima, uma coisa horrorosa estava diretamente apontada para mim, quer dizer, para meu corpo. Uma espécie de braço mecânico com pelo menos uma centena de agulhas, que obviamente, carregavam alguma coisa a ser injetada naquele que um dia foi meu corpo.

Dado um sinal, todas as pessoas na sala colocaram aqueles óculos protetores, numa cena bem clichê, e ao disparar de um alarme, o braço mecânico se expandiu e as agulhas começaram a brilhar, num tom meio esverdeado. Num movimento rápido, acertaram meu corpo. As agulhas entraram TODAS em minha caixa craniana. Eu quase senti a dor daquilo.

Um silêncio mortal se abateu sobre todos. Era surreal que um lugar tão apinhado de gente e de máquinas pudesse, de repente, ficar em tão profundo silêncio. Todos olhavam para meu corpo, inclusive eu, é claro. Parecia que os segundos que se passaram era horas, até que...

Com um grito sepulcral meu corpo levantou-se ficando sentado na mesa metálica. Todo escoriado do atropelamento e com algumas fraturas, eu me vi ali, sentado, com olhos vazios. Senti algo muito ruim quando meu corpo girou a cabeça e olhou diretamente para onde eu estava. O que afinal era aquilo tudo. Uma fábrica de zumbis? O que queriam ressuscitando corpo de pessoas mortas? A resposta não demorou a chegar.

Uma gritaria tomou conta do lugar. Todos estavam felizes, se cumprimentando. Todos diziam ""deu certo", "mais um". Meio que apressados, como se alguma coisa fosse perder o efeito, pegaram meu corpo que, apesar de estar "vivo" novamente, não tinha muita idéia do que estava acontecendo, afinal era só uma casca vazia, e levaram para uma outra parte daquele lugar imenso. Segui-os novamente.

O que vi a seguir era ainda mais impressionante. Uma enorme câmara estava aberta e uma fila de mortos-vivos estava apontada para ela. A porta da câmara se abria, um zumbido horrível se fazia ouvir, ela se abria vazia e um outro zumbi entrava. Por um instante pensei que estavam sendo desintegrados, mas não faria muita lógica. Olhando para o resto do lugar, pude ver que se parecia com uma estação da NASA, ou algo assim. Monitores mostravam gráficos incompreensíveis para mim. Vi que alguns homens com roupas protetoras se aproximaram de meu corpo e amarraram um cinto estranho em minha cintura. Cheguei mais perto e vi que havia um contador. Obviamente era um bomba.

Me distraí e não percebi que já era minha vez na câmara. Sem saber o que pensar entrei junto. Cheguei a conclusão de que aquilo era um teletransportador, como aquele de Jornada nas Esttrelas, só que muito maior e mais desengonçado. O meu eu zumbi olhava em volta, com aquele ar de idiota, típico de zumbis. Era até bem claro ali dentro. Mas a pergunta era, será que eu, um fantasma, seria teletransportado? O alarme soou e eu saberia em poucos segundos.

Um clarão cegante tomou conta da câmara, um tremor sacudiu tudo e um som irritante, como um zumbido no ouvido, foi aumentando. Um barulho como uma explosão fez a câmara balançar. Logo eu saberia se um fantasma poderia ser teletransportado, ou não.

Continua...

terça-feira, 31 de outubro de 2006

JJ e os Contos Rejeitados

JERUSALEM JONES - TEXTOS REJEITADOS





De Volta Para O Exterminador do Futuro:

Jerusalem Jones sente o ar do deserto crepitar e um gosto de ozônio se instala em sua boca. Não que ele saiba como é o gosto de ozônio, na verdade, ele nem sabe exatamente o que é ozônio, mas é o que acontece. Acordado no meio da noite, de seu sono no deserto, Jones vê uma bola de fogo branco se formar quase que à sua frente. Depois de todo misancéne (não sei como se escreve isso), uma mulher aparece ali no meio do nada e vai em direção a um Jersusalem Jones estupefato:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação!
- De que diabos a madame tá falando? Quem raios é você?
- Meu nome é Sarah Connor, fui enviada de 1987, onde o mundo é dominado pelos nazistas desde 1938. Mas um homem nos deu a esperança, e ele é seu filho. Os nazistas estão enviando um robô exterminador para que o senhor não gere um filho, o nosso salvador, Indiana Jones!
- Mas pera lá... Eu nem mulher tenho!
- Senhor Jones, porque acha que fui enviada pelada?!


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O Ataque dos Tomates Verdes Fritos:

Jerusalem Jones fecha o livro que acabara de comprar e ler. Sentado em sua casinha recém-adquirida de cerca branca, passa os dias a ler romances água com açucar e fingir que não está chorando, para que seu cão de estimação, Murdock, não perca o respeito por ele. Tudo corre tranquilo na vida de um Jerusalem Jones aposentado, que viveu tantas aventuras. Ele escreveria um livro, se sua letra não fosse tão horrível que nem ele mesmo consegue ler os recados que deixa para sí.

Jerusalem Jones sabe que, mesmo aposentado, as coisas não costumam ficar tranquilas para ele. Tanto sabe que não se espanta quando vai até sua plantação de tomates e leva uma mordida que não sabe de onde vem, até ver um tomate quicando à sua frente. E mais outro, e mais outro, e mais outro!

Jerusalem Jones sai em desabalada quando dá um encontrão em uma mulher:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação!
- Peraí... tem coisa errada. Por que você tá pelada?


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O Dia em Que a Terra Parou... Olhou Para os Dois Lados e Atravessou:

O eclipse estava assombrando a todos na cidade de Deckard Town. Todos olhavam para cima, boquiabertos, enquanto Jerusalem Jones bocejava em uma mesa do Saloon Goldmine. Eclipses.. bah... quem precisava deles. Jerusalem Jones precisava de dinheiro urgentemente. O pouco que tinha não dava nem para pagar mais uma bebida. Foi pensando nisso que Jones sentiu uma sensação estranha. Olhou para frente e viu que tudo estava parado demais. Literalmente. Tudo e todos estavam impassíveis, imexíveis.

Jones se levantou, saiu do saloon e quando pôs os pés para fora, uma mulher o agarrou:

- Venha comigo Senhor Jones, o futuro depende de sua salvação!
- Ah, chega disso! - E dizendo isso, empurrou a mulher para longe que cambaleou atônita sem entender nada.

Jones andou mais um pouco e via que as pessoas realmente estavam estáticas. Somente então é que sua mente, que trabalhava devagar, entendeu que aquilo era um sinal dos céus. Era para que ele pudesse recolher a grana dos incautos paralisados. Para não ser injusto deixaria os doces das criancinhas intocados. Quando meteu a mão no bolso do primeiro transeunte ouviu um grito em uníssono:

- PEGADINHAAAAAAAA!!!!!!

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Sua Mente em um Liquidificador

SUA MENTE EM UM LIQUIDIFICADOR





Pisco duas vezes, tentando concatenar as idéias. A pessoa à minha frente é meu colega de seção, no almoxarifado onde trabalho. Ele falou alguma coisa, eu escutei atentamente, mas eu não entendi nada. Sorrio e concordo com a cabeça, para que ele não perceba que não estou entendendo nada do que ele está falando. Estamos no refeitório da Piraquê Indústria de Produtos Alimentícios S/A.

Trabalho aqui a quase três anos. Entrei aos 18 anos e agora tenho 20. Fui para o almoxarifado, trabalhando de 12:00 às 22:00 hrs e, depois de um ano e pouco, pedi transferência para a manhã, de 6:00 às 16:00. No início meu trabalho era mais físico, empilhando a arrumando o material que chegava, todo referente à embalagem de biscoito e macarrão: caixas, plástico e etc. Devido a um início de incêndio, acabei subindo de posto. Explico, um dos funcioinários que cuidava da parte burocrática não teve álibi e, mesmo sem se provar que foi ele, o mandaram embora, devido ao início de incêndio na seção. Entrei no lugar dele. Aqui é assim. Daqui a dois anos serei eu a experimentar esse tipo de injustiça.

Eu tento me concentrar e algumas coisas que meu colega diz fazem sentido, mas em seguida eu perco de novo. O refeitório é enorme, com mesas longas e brancas, a luz de lampâdas fluorescentes incide sobre elas. Aquilo me incomoda naquele momento, em que não consigo me concentrar. Me lembro que não é a primeira vez que isso me acontece. Nos últimos dias, quando converso com as pessoas, perco parte de coisas que elas dizem. Vendo TV também tem acontecido isso. Continuo comendo, mas não me sinto muito bem.

Depois que passei para a manhã, preciso acordar às 4:00 hrs., para pegar o ônibus às 4:30, e depois mais um até a fábrica. Dia desses dormi andando, enquanto ia para o ponto de ônibus, e caí... duas vezes. Chego às 6:00, e se chegar às 6:01, não pode mais entrar, preciso esperar até às 7:00, e ser descontado em uma hora, no salário. Se me atraso, todo meu serviço se atrasa. Só eu posso fazê-lo. A carga de responsabilidade é estressante.

Eu paro termino a refeição e levanto da mesa. Levo a bandeja de alumínio vazia, até onde se empilham elas, para serem lavadas. Não me sinto muito bem. Meu colega continuou na mesa. Vou até o vestiário, pego escova e pasta de dentes. Vou até uma torneira e começo a escovar os dentes. Realmente não me sinto bem. Lembro que aos 15 anos tive uma única crise convulsiva. Não sei por que isso me veio à mente. Meu coração dispara sem motivo algum. Minhas mãos começa a suar descontroladamente e minha barriga começa a doer do nada. Sinto um terrível pressentimento de morte iminente.

Quando entro na fábrica preciso ir direto para as máquinas onde se embalam os biscoitos e recolher todo materia que se estragou, que não colou direito, ou que simplesmente rasgou. Subo alguns andares e faço o mesmo na seção do macarrão. Levo tudo para o almoxarifado, onde peso o que se estragou e anoto para fazer o devido relatório. É preciso ter calma e errar o menos possível, pois vai para a mão de um dos donos. Certa vez ele discutiu dizendo que a porcentagem estava tinha de ser retirada do que foi gasto e não do total. A coisa ficou feia, pois ele estava errado. Ainda não era eu a cuidar disso.

Minha mente entra em colapso. Eu não consigo mais saber onde eu estou. Olho na direção das pessoas que estão nessa parte do vestiário, mas não consigo dizer nada. Não consigo mais formular palavras. Um sentimento de despespero, morte e loucura se abate sobre mim. Olho em volta tentando definir em que lugar eu estou. Não consigo. Os pensamentos se amontoam em minha cabeça, mas nenhum deles faz sentido real. Não consigo entender de onde eles vem, o que são e porque aparecem assim do nada. Eu não estou raciocinando mais, meu cérebro não é mais meu. Alguma coisa tomou conta dele.

Eu termino de pesar tudo, entrego os sacos de material estragado para o pessoa que cuida da prensa. Um trabalho chatinho que eu já fizera também. Prensar o plástico estragado era o pior, pois exigia mais paciência, devido a ser escorregadio. Prensar o papelão estragado era bem mais fácil. Lembro de fazer isso, sozinho, à noite, naquela seção enorme e vazia, pois o turno da tarde/noite, era composto de apenas três funcionários para cuidar de dois andares: eu e mais dois. Depois que entrego o que foi estragado, subo para o último andar, onde fica minha "base de operações" sob o comando do encarregado Hotorgail (eu nunca me acostumo com esse nome).

O sentimento de que vou ou morrer ou ficar louco para sempre aumenta e parece que nunca vai ter fim. Meu cérebro parece que foi jogado em um liquidificador. Eu começo a andar na direção de alguém próximo quando sinto que vou perder a consciência. A pessoa me olha, assustada. Eu imagino como devem estar minhas feições. Não dá tempo de pensar mais em nada, pois eu apago. No meu entender, eu desmaiei. Estou inconsciente. Mas na verdade a coisa não é bem assim. Estou inconsciente, mas apenas para mim. Continuo a me mover. Estou tendo uma crise convulsiva, mas não sei disso. Quando ela começa, eu caio para trás e, a parte de trás da cabeça, atrás da orelha direita, acerta a pia de metal.

Eu passo para o computador todas as minhas anotações. O computador foi colocado a pouco tempo, e todo mundo da seção gostou. Bom, nem todo mundo usava o computador, mas todo mundo gostou da menina que vinha nos ensinar como usá-lo. Imagine uma seção com uns 20 homens arranjando sempre um motivo para passar em frente às mesas. Pois bem, o que era feito à mão, agora parecia que ia mudar. Mas não mudou. Depois de passar para o computador, tinha de preencher requisições de material entregue às seções, no dia anterior, e levar para os chefes das seções assinarem. Depois disso finalizar o relatório em uma pasta que ia para a mão de um dos donos.

Eu estou em convulsões, mas realmente acho que estou apenas demaiado esperando acordar. Quando acordo, estou sentado nas escadas que levam ao refeitório. Minha boca tem um gosto estranho e alguns funcionários estão a minha volta, assim como um segurança. Eu não consigo falar. Eles não me dizem o que aconteceu exatamente. Com muito custo pergunto porque minha boca está com um gosto estranho. Alguém me diz que enfiaram sal na minha boca. Não sinto gosto de sal. Não sei que gosto é, não consigo identificar. Mas não parece sal. Alguém me dá água, eu bebo, e a água tem um gosto esquisito. Não parece água. Na verdade, nada parece nada. Me sinto num sonho bizarro e não sei quem são aquelas pessoas e que lugar é esse que estou. Minha percepção da realidade foi alterada pela crise. Crise de quê, eu ainda não sei.

Terminado todo esse serviço burocrático, fico esperando os pedidos de materiais do dia, aos quais eu peço para alguém entregar, ou eu mesmo levo. Me acostumei a usar os carrinhos hidráulicos aos quais eu uso como se fossem patinetes, para ir até a pilha de caixas mais distante. As vezes os caras apostam corrida andando neles. Enfio o carrinho em um estrado com caixas e o levo ao elevador de carga. Vamos até o segundo andar, a seção de wafers, onde uma rampa me atrapalha a descer sem derrubar as caixas. Para piorar há uma máquina enorme que me impede se descer em linha reta. Coloco o estrado de frente para mim, e desço de costas, apoiando as caixas com a mão; quando começo a descer e pego velocidade, tenho de fazer uma curva brusca para não bater na máquina e essa curva, faz a pilha de caixas se inclinar. Vai cair, vai cair! Caiu!

Me levam para a enfermaria, me dão algum comprimido e descanso. As coisas vão tomando forma, a realidade se firmando. Isso não é algo rápido, dura mais de uma hora, creio eu. Não tenho como saber direito, pois a percepção de tempo também está alterada. Não sei o que eu tive ainda. Mas com o tempo acabo descobrindo: uma crise de pânico seguida de uma crise de epilepsia. Apenas 12 anos depois vou descobrir que isso é raro, por isso o tratamento adequado não era encontrado e sofreria 12 anos de crises, pois seria jogado de psiquiatria (para o pânico) para neurologia (para a epilepsia), pois ninguém entendia que eu tinha as duas doenças, e não apenas uma.

Eu termino meu trabalho. A cabeça dói um pouco de tanto fazer cálculos. Me sinto cansado física e mentalmente. Pegar dois ônibus e chegar em casa lá pelas 17:30 não ajuda muito. Mas me sinto melhor, a crise parece algo distante. Ninguém me manda embora da fábrica por causa disso. Venho a ter outras crises, sou sempre levado a enfermaria e prossigo meu dia de trabalho. Descubro que as crises são mais frequente durante as refeições então passo a fazer apenas lanches rápidos. Acho que como ela se seguiu a uma refeição, fiquei com fobia. Entro no ônibus, me sento no canto, e encosto a cabeça no vidro. Não demora nem 5 minutos e eu caio no sono. zzzzzzzzzzZZZZZZZZ!


Para saber mais sobre a Síndrome do Pânico, clique AQUI

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

O Portal

O PORTAL

20 de Outubro de 2006





O portal dimensional se abriu e a cena foi extremamente comum, para mim. Não era nada parecido com os filmes e gibis que eu vi em toda minha vida. Sim, existia um outro universo além do nosso e, provavelmente, como o portal ia verificar, existiam outros mais.

Os cientistas vasculhavam os espaço através das várias telas que o portal permitira abrir. Vários setores do espaço eram mapeados em segundos. Na verdade, eu não via muita diferença daquele universo para o nosso. A única coisa que tínhamos era a "palavra" do portal, pelo menos até então. Mas isso iria mudar.

Mapeando uma seção diferente, uma das telas captou uma formação estranha em um setor que parecia bem diferente de qualquer coisa vista em nosso universo conhecido. Os cientistas logo se alvoroçaram e denomiram a coisa de Buraco Branco. Eles deduziram que aquele universo estava nascendo dali. Explosões silenciosas ocorriam em seu centro e, por isso, os cientistas deduziram isso. Mas logo percebi que não era nada disso. Aquele era um efeito colateral da abertura do portal naquele universo estranho. Estávamos interferindo em um mundo que não era nosso, como sempre fizemos desde que a humanidade aprendeu a dominar o fogo.

Pensei em avisar aos superiores, mas seria perda de tempo, não iriam me ouvir. Apenas continuei a observar a tela em que o Buraco Branco aparecia. As explosões cessaram e o buraco se tornou azulado. O portal soltou um zumbido forte. Quando eles se deram conta da verdade, era tarde demais. O universo recém-descoberto começou a ser dizimado impiedosamente. O buraco, que um dia foi branco, agora estava de uma cor indefinida, que nem mesmo parecia ser conhecida por nós, e aumentava gradativamente, devorando toda a matéria em seu caminho.

Tentaram desligar o portal, mas isso não era tão simples assim. O portal estava programado para funcionar mesmo com falta de energia. Os computadores entenderam isso como se ele não pudesse ser desligado de imediato. Os cientistas, militares, pessoas com interesses particulares no projeto, estavam tensas e, na verdade, eu sei o que estavam pensando: que consequências isso poderia ter em nosso universo? Não foi preciso esperar muito tempo para se obter a resposta.

O portal não fora criado como uma passagem para outros universos, era para ser apenas um observatório... em teoria. O zumbido no portal ficou mais intenso e, de repente, uma nuvem negra o atravessou. A nuvem adquiriu um formato humanóide, mas continuava muito indefinida. O alvoroço no recinto piorou, alguns apenas correndo sem direção. A maioria ficou, inclusive eu. A curiosidade científica era maior.

A coisa apontou para as telas que o portal abrira. Apontou para elas depois para si mesma. Não precisava ser um gênio para entender que ela queria dizer que veio de lá. Nas telas, um branco cegante invadia tela por tela. O universo da coisa estava morrendo, e ela veio tomar satisfações.

Apontando para um dos cientistas, a nuvem negra lançou um pedaço de si mesma contra ele. O homem estrebuchou e uma coisa louca aconteceu, ele implodiu. Inchou um pouco e, em seguida implodiu. Sumiu como se nunca tivesse existido. Os cientistas e os com interesses particulares começaram a correr e a gritar. Os militares, é óbvio, ordenaram que os soldados atacassem. Eu fiquei ali mesmo olhando tudo aquilo.

A criatura parecia não dar importância ao ataque. Parecia estar se sentindo entediada. Não atacou mais ninguém. Recebia a saraivada de balas e outros tipos de armas, ali, parada. Pude ver que o que parecia ser sua cabeça, olhava para as telas. O seu universo seria destruído eternamente. Será que ela pensava em fazer o mesmo com o nosso?

Os soldados continuavam a atacar, destruindo muito mais o local do que a criatura, que nada sentia. Um verdadeiro inferno. A criatura pareceu suspirar e, de repente, começou a se dissolver, lentamente. Em pouco tempo, a criatura melancólica não existia mais. Os soldados cessaram o fogo, os cientistas que não fugiram ordenaram uma varredura subatômica em todo local. O portal havia sido destruído no ataque. O prejuízo era de bilhões de dólares.

Eu passei por toda aquela balbúrdia e peguei uma pequena placa que ficava perto do portal. Uma placa de vidro, que agora não tinha mais utilidade nenhuma. Fazia parte do portal. Percebi que ela estava enegrecida. Achei, inicialmente, que pudesse ter sido devido aos estragos provocados pelos soldados, mas não era. Fui até um microscópio subatômico que ninguém usava mais e coloquei a placa ali. Ajustei para o máximo, e o que eu pensava era verdade: a nuvem negra era um aglomerado de pequenas naves pilotadas pelos habitantes daquele universo, destruídas. Ninguém percebera, mas estávamos vendo um universo subatômico.

Até mesmo o tempo devia passar de modo diferente por lá, o que deu tempo para que organizassem uma fuga em massa usando o portal como meio de escape. Agora eles estavam por aí, e iam recomeçar suas vidas aqui mesmo, em nosso mundo, do melhor jeito que pudessem. Será que pensavam em vingar seu mundo, ou apenas recomeçar? Quem vai saber. De repente, senti uma mão sobre meu ombro. Era Johnson, chefe de todo o projeto.

- Templeton, o que falamos sobre você utilizar os aparelhos do projeto? Estamos com sérios problemas agora, por favor. Faça seu serviço e deixe as pesquisas para quem entende do assunto. - Ele me deu um tapa amigável e cansado, nas costas e foi embora.

Peguei meu balde e o esfregão e fui fazer meu serviço de limpeza, que agora seria bem maior do que aquele ao qual eu estava acostumado. Pelo menos o salário é bom.


sexta-feira, 13 de outubro de 2006

Gritar

GRITAR





Gritar talvez seja uma das melhores coisas da vida. Gritar para estravazar a raiva. Não se pode fazer isso sempre que se quer, pois com certeza teremos uma vaga imediata numa cela alcochoada ou, como provavelmente eu iria para num manicômio público, seria apenas amarrado a uma cama, com tiras de lençol velho.

Posso contar nos dedos de uma mão quantas vezes precisei fazer isso, para evitar que eu apelasse pra violência pura e simples, e acabasse machucando alguém, ou saísse bem machucado. Não sou de gritar sempre e, talvez por isso, quando acontece eu quase estouro as cordas vocais. É uma coisa meio Dr. Jeckyll e Mr. Hyde, o médico e o monstro, para quem ainda não sabe.

Uma dessas poucas vezes, eu devia ter uns 12 anos. Nunca fui de jogar bola, não gosto e nunca aprendi mas, como toda criança que se preze, já tentei jogar. Então eu estava na rua, num jogo apenas de toques, quando um marmanjo sentado numa escada, conhecido meu da vizinhança, começou a me encher a paciência jogando piadas sobre o fato de eu não saber jogar. Como ele era mais velho e maior, eu só tinha três opções: aguentar quieto, chorar ou ir embora pra casa. Bom, eu preferi uma quarta opção. Parei de jogar bola. Fui até onde ele estava sentado, com o coração saindo pela boca de raiva. Me postei a sua frente, respirei fundo e soltei uma avalanche de impropérios, palavrões e palavras de baixo calão, entremeadas por "O que diabos eu te fiz?", "Por que resolveu implicar logo comigo?".

Não eram bem as palavras que fizeram efeito, mas a altura com que eu as pronunciava. Todas as pessoas na rua pararam para olhar para nós dois. Depois de dizer tudo que eu queria no volume máximo, fiquei esperando a reação do cara, que parecia ter saído de uma academia de musculação. Estupefato, ele apenas balbuciou algo sobre eu ser doido e, desde então, nunca mais quis dar uma de técnico de futebol pra cima de mim.

Uma outra vez, mais adiante no tempo, foi com minha irmã caçula. Ela, depois que deixou de ser aquela criança engraçadinha, se transformou numa adolescente ranzinza e mandona, cheia de vontade, que só pensa nela mesma. Certo dia, ela me pediu e eu gravei um programa que ela queria, em uma fita de vídeo. Mesmo ela sendo como era (e é até hoje), fiz de boa vontade. No dia seguinte, enquanto ela assistia a TV, durante os comerciais, eu mudei de canal para ver o que estava passando nos outros. Televisão, desde que ela se deu por gente, tornou-se um problema para se assistir com ela em casa. Quando eu fiz isso, de mudar, ela começou a gritar comigo. Não prestou. Peguei a vida de vídeo que havia gravado no dia anterior, e o primeiro pensamento que me veio a mente, foi quebrar a fita na cabeça dela. Segurei a adrenalina e arrebentei a fita com as próprias mãos. Mas a adrenalina estava pra estourar, eu precisava de mais, só a fita era pouco. Pra não avançar nela, eu saí para o quintal e berrei o mais alto que pude. Tinha de liberar a raiva de ver uma pessoa tão mal agradecida, de alguma forma. Mas, só gritar não adiantou. Eu fui na direção da parte de trás da casa e havia um portão baixo de madeira na minha frente, eu dei um tapa com a palma da mão aberta e o portão, que estava bem preso, se soltou. Machuquei a mão, claro. Mas, pelo menos, me sentia melhor e deixei minha irmã viva no processo.

A última vez faz uns dois anos. Eu, voltando a estudar, fazendo segundo grau, estava bem lá na minha turma. Cismavam de me pedir para ser o representante, devido a minha cara de CDF. Não adiantava dizer que eu não servia para ser representante da turma. Certo. Eu acabava aceitando. Uma amiga era a vice-representante. Não demorou para que um dos alunos da sala tivesse problemas com ela, e ao ver que ele estava discutindo com ela, eu fui argumentar, coisa que não adiantava muito. Logo ele começou a ofender a garota. Eu disse que era melhor resolvermos aquilo na diretoria, tentando manter a calma. Ele não se mostrava disposto a isso. Não se movia de onde estava. Eu não podia pensar em brigar com ele na mão. Ele parecia pesado e forte. Ele não parava de falar um segundo. Aquilo estava me irritando. Ele queria vencer pelo cansaço. Estávamos na porta da sala. Vendo que a disputa era de quem falava mais alto, eu me coloquei a um palmo de distância da cara dele e berrei o mais alto que minhas amígdalas podiam.

Eu usei todos os argumentos de antes mas, agora, acompanhados de palavrões e de um volume de décibeis. Minha garganta chegou a arranhar. Estávamos no terceiro andar e, mesmo lá embaixo, todo mundo escutou. Dentro de instantes todas as pessoas, alunos e professores, vieram ver o que estava acontecendo. Ele calara a boca. A diretora veio ver o que era e fomos levados para a diretoria onde consegui explicar tudo. Com uma ficha de perturbações anteriores, o aluno nada pôde fazer e, depois de fazer beicinho - mesmo tendo uns 30 anos - admitiu forçadamente, que estava errado.

O ruim de gritar assim é que depois os ouvidos ficam zunindo.



domingo, 8 de outubro de 2006

JJ em Olhe Lá no Céu!

JESUSALEM JONES - OLHE LÁ NO CÉU!





Jerusalem Jones gostava do deserto, um lugar solitário e esquisito, assim como ele mesmo. Entre uma cidade e outra, uma aventura e outra, ele dormia pelos desertos, à luz de uma fogueira, olhando as estrelas e pensando em sua estranha vida. Pois bem, estava Jerusalem Jones fazendo exatamente isso, quando ele notou que uma das estrelas começou a aumentar de tamanho de repente. Ele ficou ali, deitado, com as mãos atrás da cabeça, apoiado a uma pedra, olhando aquilo, paralisado. Era incrível, mas a estrela estava aumentando cada vez mais. Apenas quando já era tarde demais, ele percebeu que a estrela estava, na verdade, vindo em sua direção.

Jerusalem Jones "acordou" e saiu correndo em direção ao cavalo. Pulou na sela, esporou o bicho e tentou correr o máximo que podia. Mas era tarde. O que quer que fosse aquilo, atingiu o chão perto de Jones, e lançou ele e o cavalo metros a frente. Pedra e poeira caíram sobre ele. Tossindo, ele se levantou e viu que o cavalo estava mais ou menos bem, só parecia não querer levantar de onde estava, como se estivesse muito cansado de tudo aquilo que passava ao lado (quer dizer, embaixo) de Jerusalem Jones. Suspirou e deitou a cabeça.

Jones bateu a poeira da roupa e olhou na direção da cratera aberta pela tal "estrela". Pequenas chamas rodeavam o local e havia algo dentro dela. Ele se aproximou cauteloso e viu que era uma coisa ovalada. Parecia quase como uma bala de canhão, só que mais enfeitada. Sem saber o que pensar ou fazer sobre aquilo tudo, Jones já estava para pegar seu cavalo e ir embora, quando ouviu um chiado forte e a coisa começou a abrir uma portinhola na parte de cima. Depois de sair muita fumaça de dentro - uma fumaça estremamente fria - deu para ver que havia dentro... um bebê!

Um bebê? Jerusalem Jones olhou ao redor, como se esperasse que alguém aparecesse para explicar tudo aquilo, mas, é claro, isso não ia acontecer. O bebê parecia bastante saudável para quem acabara de sofrer uma queda daquela dimensão. Ele erguia os braços na direção de Jerusalem Jones e fazia aqueles barulhos engraçadinhos que bebês costumam fazer. Jones sentiu uma coisa estranha dentro de si, algo que nunca sentira antes, seus olhos começaram a marejar sem ele saber porque. Jones não sabia, mas ele estava sendo sensível. Pena que não duraria.

Quando já estava até pensando em um nome para o filho das estrelas, que adotaria como seu, recebeu uma espécie de raio vermelho bem no ombro, vindo dos olhos do garoto. Jones deu um grito tão alto, mas tão alto que o eco durou alguns segundo para dissipar pelo deserto. O moleque assou o seu ombro esquerdo. Queimou como o inferno.

O moleque soltou uma risadinha de bebê que soou extremamente diabólica. Logo em seguida, ele começou a... flutuar! O desgraçado estava voando! Quando Jones viu os olhos do bastardinho ficarem vermelhos de novo, sacou de sua arma, tentando não pensar que aquilo era uma criança mas, sim, uma cria do Capeta. Quando disparou, Jones achou que tinha errado, pois o trocinho nem se mexeu, apenas disparou outro feixe de calor que por pouco não acerta a cabeça de Jones. Atirou de novo, dessa vez descarregando as armas no filho da mãe. Então Jones percebeu, ele era à prova de balas. O moleque riu de novo, e aquilo fez a espinha de Jones congelar.

Ele começou a flutuar em direção a Jones, e ele só tinha uma coisa a fazer, correr e muito. Quando deus as costas para o bebê, sentiu um rajada forte de vento, em suas costas e foi derrubado. Ele sabia que tinha sido ele, nem precisa ver para saber. Levantou antes que ele pudesse chegar em cima dele, olhou na direção de umas pedras mais a frente, onde poderia se esconder, e ia correr na direção delas, quando sentiu um vento no pé da orelha e viu que o moleque já estava lá, antes dele. As coisas não iam bem.

O trocinho começou a voar na direção de Jones e colocou um punho esticado para a frente, enquanto voava. Os panos de bunda que o envolviam eram vermelhos e azuis e estavam enrolados nele, mas quando ele começou a voar nessa posição, parecia que o corninho tinha uma espécie de capa. Jones pensou em como tudo aquilo era ridículo. Foi quando recebeu um soco no queixo. Ah, o punho estendido era pra isso...

Jerusalem Jones rodopiou e caiu. Não desmaiou, mas quase. Mas pouco adiantava estar acordado. Provavelmente era o fim de tudo, para Jerusalem Jones. O garoto estava em cima do peito dele, olhando na direção de sua cabeça. Os olhos estavam de um verde vivo e parecia que ele vasculhava algo dentro de Jones. Ele deu aquela risadinha irritante, quando seus olhos voltaram ao normal. Mas não por muito tempo. Começaram a ficar vermelhos de novo. E mirava a cabeça de Jones. Ele ia fritar seu cérebro e nada podia ser feito quanto a isso. Ou quase nada. Jones viu o céu ficar pontilhado de luzinhas verdes e de repente uma chuva bizarra teve início. Eram pedras pontiagudas, verdes. Uma delas atravessou as costas do moleque.

O grito que que a criança deu foi macabro. A coisa começou a meio que a derreter, a pele se desfazendo. Em pouco tempo só restou o esqueleto, em cima de Jerusalem Jones. Que tirou de cima de si, com um pavor e um nojo inesquecíveis. A chuva foi rápida e Jones deu graças a Deus de não ter sido atingido por nenhuma das pedras, mesmo que algumas estivessem bem perto dele. Ele não sentia nada perto delas. Pelo jeito só afetava o bacurinho mesmo. Sabe-se lá porquê.

Olhando em direção ao troço de onde o moleque saíra, ele viu que uma das pedras maiores atingiu o objeto em cheio, enterrando-o. Melhor assim, ele não estava mais curioso e não queria mais saber de adotar ninguém que viesse do céu, nem que fosse Jesus Cristo.

Seu cavalo, na hora da chuva, não foi bobo e se escondeu. Jesusalem Jones foi na direção dele, quando algo pequeno deu uma pancada forte em sua cabeça. Ele olhou pro chão e viu um anel verde. Pegou e viu que tinha um desenho de algo que lembrava uma lamparina. Colocou em seu dedo e viu que cabia. Ficou vendo se acontecia algo e nada. Esperou mais um pouco e nada. Sem querer guardar lembranças, tirou e atirou para trás com um palavrão.

Sem que Jerusalem Jones visse uma luz verde havia formado um dedo médio apontando para cima.


sábado, 30 de setembro de 2006

Pax Reactor

PAX REACTOR



Pintura de Sara Bernal-Rutter, minha amiga


Depois de tudo, do tempo, do infinito. Depois de todas as previsões de que o universo um dia acabaria. E acabou. O infinito tornou-se finito. Um tempo em que não existia nem a luz nem a escuridão, nem mesmo uma sombra em meio tom. Aliás, desculpem-me, um tempo em que, como eu já disse, não existia mais tempo. Nem mesmo havia um sentimento de perda por nada mais existir, já que não havia mais sentimentos.

Não havia mais Deus, pois não existia mais quem acreditasse Nele. Na verdade, não existia nem mesmo mais quem duvidasse de sua existência, quem a questionasse, quem dissesse "Não acredito em Deus", pois até essa descrença era uma força criadora. Não havia mais o choro dos desagregados, em meio a uma chuva fina e cortante, enquanto esperavam a sua cota de sopa e pão.

Nem mesmo o nada existia, pois se existisse um Nada, ainda assim, existiria o existir. E nem mesmo isso havia. Não havia mais as teorias de conspiração enfurnadas em gavetas lacradas. O selo perdido da carta que não foi enviada, também não mais fazia parte da existência. O som dos passos na escada, denotando a chegada de mais um dia de trabalho, junto com as calotas polares e os pedidos de casamento; nem mesmo a xícara quebrada antes mesmo de existir no centro de um buraco negro, segundo a teoria de um físico, também estes não existiam mais. Aliás, nem mesmo a teoria e nem o físico.

Nem ódios, nem valores acumulados, nem times de futebol, nem segundas-feiras recalcitrantes. O pólo aquático havia acabado, assim como a bocha, um jogo que eu nunca vi ninguém jogar. A matemática que minha professora tanto adorava e eu só passei a gostar porque nunca vi alguém chorar por achar que a culpa era sua de seus alunos não estarem conseguindo aprender, tudo isso, agora, não existia mais.

Os discursos inflamados e os shoppings lotados; as fotos em preto e branco e os museus de arte moderna; as bolachas de milho e as gaitas de fole; as moedas de 1 centavo e os quadros de Salvador Dalí, que só cito aqui, para parecer que sou culto. Nem mesmo os que se faziam de cultos, nem mesmo esses, juntos com os citados - nossa - nem mesmo eles, existiam mais.

Nem a bola de gude, ou o chiclete embaixo da mesa, nem o bafo-bafo (que era um jogo em que você tentava ganhar as figurinhas de seus colegas batendo com a palma da mão - as vezes em concha - para que ela virasse), nem patinete, nem queda de bicicleta, nem cascudo, nem pernas raladas, nem mesmo jiló que eu detestava tanto, nem mesmo aquela coisa amarga, existia mais.

Aquele gato de olhos de cores diferentes, o maço de cigarros que fui comprar para meu padrasto, a nota de R$ 10,00 que achei na rua, a antena quebrada em cima da TV, a cabeça arrancada da boneca da minha irmã, o porre de um copo de cerveja, o livro que dizia que "tu és responsável por aquilo que cativas", aquele que todas as misses já leram, tudo isso não mais existia. Nem mesmo as misses.

O cão apressado, o fanático por tampinhas de refrigerante, o carimbador maluco, o fiscal da natureza, o côncavo e o convexo, a doutrina e o doutrinado, a farofa e os farofeiros, a semente de uma idéia, a claridade de uma razão, a delícia de um beijo, a chuva e o cheiro dela na terra, a casca da castanha torrada, a fonte de Trevi, a rosa e o piegas, o brega e o chique, a saideira que nunca era a última, a cantada e o cantor, a teimosia do destino, a dança dos determinados, o ocaso, o acaso, nada disso mais havia.

Nem mesmo a injustiça para que se lutasse pela justiça, estava mais presente. O banal, o ridículo, a cola na mão, o caminho das índias, o rebolado das mulatas, a perdição, a contrição, a rebeldia, o rebelado, o encarcerado, a monotonia, a desobrigação, a fulaninha ou o enfurnado, o workaholic, o alquebrado, o carro a ácool, o desesperado, o vício ou mesmo o viciado, o demônio interior, ou mesmo o exteriorizado. A música cantada apenas no banheiro, o sonho que acabou, mas que tinha na padaria ao lado, a rima que aqui, de repente, eu cismei de rimar, como se fosse algo que foi soprado. Mas mesmo ela não mais existe, com todo resto citado.

A bolsa de valores, ou mesmo aquela sem valor algum, a caminhada na praia, a casa que deixei para morar no apartamento, onde ficava sonhando com a casinha branca de varanda, que também ela, assim como as cortinas e bolinhos de bacalhau, não mais existiam.

Nem mesmo este texto ou quem o escreveu, ou as idéias que o formaram, ou mesmo a pessoa que o escreveu - exato - não mais existiam. Havia apenas um silêncio. Um silêncio abstrato, sim, mesmo sabendo que silêncio nunca foi físico. Um silêncio perdido, pois nem mesmo ele podia ser por alguém encontrado. Um silêncio que nem mesmo sabia que era silêncio, pois não havia o que o fizesse ser quebrado - quer parar de rimar!

Mas havia uma certeza dentro daquele fim e daquele silêncio...

... mas eu não faço a mínima idéia de qual seja.

Descubra você.


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