quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Amigos

AMIGOS

Eram quatro da madrugada quando acordei. Eu nunca vou me acostumar a esse horário do cão. Me arrumei, tomei café e fui embora. Desci as escadas, sonolento e, quando cheguei à rua que era uma reta longa, eu simplesmente dormi andando. Tropecei no paralelepípedo e caí... acordando. Levantei e comecei a andar de novo, e não aguentei e dormi de novo, em pé, andando. E, claro, caí de novo. Pelo menos era um mico que eu estava pagando sem platéia. Àquela hora não havia uma viva alma sequer na rua. Apenas eu, dormindo andando.

Cheguei ao ponto de ônibus, que logo chegou. Ainda bem que sempre dá pra ir sentado. Aleluia, irmãos! Nem bem me sento e já caio no sono. Não demora muito e acordo com o vidro da janela explodindo em mil pedaços em cima de mim. Estou com tanto sono que não consigo entrar em pânico. Ninguém sabe o que aconteceu. Devia estar podre ou algo assim. Me limpo dos cacos de vidros, que são redondinhos e não cortam, ainda bem. Mas vou ter de sair dali e ficar em pé. Tem muito vidro.

Fico em pé virado para a traseira do ônibus, encostado no vidro, descansando. Estou distraído e nem noto que à minha frente está sentado um garoto, e seu pai ao lado, lendo jornal. Eu não acredito quando o garoto lança um jato de vômito amarelado contra a minha perna, sujando toda a minha calça jeans. O pai do garoto, na mesma hora, sem saber o que fazer, enrola o o jornal e começa a limpar minha perna, pedindo mil desculpas. Eu estou tão sedado de sono, que digo que está tudo bem , que não foi nada. Com a calça daquele jeito, eu desço e vou pegar o segundo ônibus.

O ônibus está saindo, eu corro para pegar, e caio na besteira de segurar com a mão esquerda, o ônibus dá um arranco e me puxa, e eu me esparramo sobre o asfalto, num tombo monumental. A vontade que tenho é de ficar ali mesmo, deitado e dormir. Acho que não vou chegar inteiro ao trabalho hoje. O que mais falta acontecer? Ah, não! Colegas de trabalho no ponto do ônibus.

Quando entro, não consigo passar pela roleta, e fico lá atrás com eles, que dizem que dessa vez eu vou ter de dar calote junto com eles. Eu argumento que não gosto de fazer isso, e coisa e tal. Conto tudo que já me aconteceu até ali, e que não estou num dia muito bom, e mesmo mostrando o estado da calça, eles não se comovem e dizem que vou ter de dar calote no trocador, junto com eles. E pior que não vejo como escapar. Assim que chegamos ao nosso ponto, a algazarra é total. Um monte deles salta por trás, e quando eu vou pagar e passar, eles me agarram e me puxam pela porta traseira do ônibus. Num movimento que ne sei como fiz, eu pago a passagem e giro a roleta com a mão, antes deles me arrancarem porta afora. Eles não viram o que eu fiz. E acham que conseguiram o seu intento. Eu deixo eles pensarem assim.

Já de saco cheio de um começo de dia tão miserável, eu corro para o vestiário. Quando abro meu armário para pegar meu uniforme, cai um monte de areia de dentro dele... e uma cabeça humana!!! OK... é brincadeira essa parte. Um dia não pode começar tão horrivelmente assim.



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