quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

Você Viu o Crime?

VOCÊ VIU O CRIME?


Eu nunca gostei de religião, desde criança. Se eu acreditava em alguma coisa, era mais por medo do que por fé, amor e tudo mais. Talvez eu fosse indiferente com a religião porque eu, quando criança, sempre era arrastado para igrejas, centros espíritas, centros de umbanda, entre outras coisas, e via que religião era algo tão bagunçado, estranho e/ou maçante. Mas o peixe morre pela boca.

Quando estava com meus 20 anos, peguei emprestado uns livros das Testemunhas de Jeová com um amigo, que nem mesmo era da religião, apenas comprara os livros. Peguei como distração para ler no ônibus, ao ir trabalhar. Um deles era "provando" que o Homem fora criado, e não havia evoluído, como a ciência dizia. O livro trazia "provas" científicas disso. Inclusive dizendo que os tais "seis dias" de criação era apenas uma metáfora para milhares ou milhões de anos. Parecia bem coerente em algumas coisas, ou talvez eu estivesse apenas lendo com sono.

Outro livro era uma interpretação do Livro de Apocalipse (Revelação a João). Na verdade, o que se dizia nele, não era coisa com coisa, mas como era bem escrito, parecia estar sabendo do que falava. Mas relembrando hoje, era apenas como pegar e tentar ler um livro de Física Quântica, e achar que estava entendendo, quando na verdade, não se estava entendendo nada.

Um terceiro livro, era apenas de "conselhos" para os jovens. Alguns realmente bons, outros eram apenas "não faça isso porquê isso é feio e vai desagradar a Deus". Bom, só sei que depois de ler os três livros, encasquetei que ia estudar com as Testemunhas de Jeová. Assim, fiz o caminho inverso a que elas estão acostumadas: em vez de elas baterem à minha porta, eu fui até uma delas, uma amiga de minha mãe, que se tornara TJ. Eu a parei na rua e disse que queria estudar. Ela me arranjou um instrutor homem. Que puxa!

Em apenas seis meses eu já estava entrosado. Eu já havia feito amizade com metade do Salão do Reino (como se chamam as "igrejas" das TJ). Acho que é esse o diferencial das Testemunhas de Jeová, eles fazem você se sentir realmente parte de uma família.

Logo em seguida me batizei, que é por imersão completa, numa piscina. Meu "curso" estava completo. Eu já até mesmo saía de porta em porta, indo "oferecer" as revistas (não se diz vender, pois eles não consideram venda já que, supostamente, as revistas e livros são vendidas a preço de custo). Na verdade, acho que foi um milagre eu fazer aquilo, pois sou péssimo com o público, e nunca seria vendedor de nada. Achei que seria impossível, mas não só consegui falar logo na primeira casa, como fui xingado, mas mesmo assim continuei.

As Testemunhas de Jeová não pregam curas milagrosas, nem pedem rios de dinheiro como contribuição, apenas o suficiente para manter os Salões do reino. Geralmente as contribuições são poucas, e isso só se nota quando alguma reforma é necessária. Mas a editora matriz e as filiais pelo mundo parecem nunca carecer de dinheiro.

As Testemunhas de Jeová acreditam que a Terra em breve será um paraíso, o que se choca com a crença da maioria das igrejas protestantes, que é viver no céu. Elas se apegam a certos textos da Bíblia e interpretam de modos inusitados. Muita coisa que não está escrita, é "criada" por elas. Por exemplo, não se deve festejar aniversários por vários motivos: primeiro por ser uma festa onde se dá honra a uma pessoa específica, honra que deve ser dada somente a Deus; segundo porque aniversários só são mencionados em ocasiões trágicas, na Bíblia, como a decapitação de João Batista, e quem comemorava era o pagão, Herodes; e outras coisas que não lembro agora. Mas as TJ entram em contradição, pois festejam aniversários de casamento. Como se fosse uma compensação por não poder festejar aniversários, Natal e toda e qualquer data festiva "mundana".

O mais polêmico ensino das TJ, a não-aceitação do sangue, vem de uma passagem onde o apóstolo Paulo fala sobre não "comer" sangue. Para ser rápido e objetivo, eles dizem que se uma pessoa não pode comer via oral, a "comida" é introduzida intravenosamente, assim introzudir o sangue seria o mesmo que comer. Eu sei, é uma viagem e tanto. Mas quando se está lá dentro ninguém questiona nada. Esse é outro ensinamento. Quase subliminar, às vezes, e às vezes bem explícito: não se deve questionar!

As decisões sobre os dogmas da religião são tomadas por um chamado "Corpo Governante", composto de uns 12 homens, que vivem na editora matriz, em Nova York. Esses homens são "especiais" no sentido de que estão entre as 114.000 pessoas escolhidas para viver no céu, e governar a humanidade na Terra, no reino que é citado no Pai Nosso: "Venha a nós o Teu Reino". Esses homens não se auto-proclamam com dons especiais de comunicação direta com Deus, não têm visões, não fazem curas milagrosas, não soltam raios pelos olhos, nem nada. Mas, então, o que faz deles "especiais"? Praticamente nada. Eles apenas... "são" especiais e pronto. Quem vai questionar?

A maneira como se sabe quem é do céu e quem é da terra é, mais ou menos, a seguinte: lá por março ou abril, todas as TJ comemoram o que eu já esqueci o nome agora, e passam pão ázimo (sem fermento) e vinho entre elas. Maaaassssss... só quem pertence ao céu é que pode beber. Como a pessoa sabe disso? Não me perguntem. Eu não sou do céu e nunca bebi o vinho e nem comi o pão. Mas há toda uma explicação envolvendo o ano de 1914, o livro de apocalipse, as pessoas que estavam vivas naquele ano e estão vivas até hoje, O Reino de Deus, a Volta de Cristo (que aconteceu naquele ano, segundo as TJ) e outras coisas que, como eu disse, são como Física Quântica e seria impossível explicar num post só. Quanto menos se entende uma coisa lá, menos se deve perguntar sobre ela.

E, sim, eu engoli tudo isso durante sete longos anos. E eu gostava de lá. Não dos ensinamentos em si. Pois era muita coisa que não era explicada, e ficávamos naquela bruma, sem poder questionar, pois questionar significava que você estava indo contra o próprio Deus. Você era logo chamado de apóstata, ou seja, alguém que estava se desviando do ensino "verdadeiro" (aliás é mais um dogma das TJ, apenas o ensino deles é o ÚNICO e VERDADEIRO, isso é inquestionável, também).

O que foi me desanimando, foi justamente o que me segurou lá. Melhor explicando, as minhas maiores amizades por lá começaram a se mudar para outros lugares do RJ, mais distantes ou para outros estados. Eu ia ficando meio sozinho, sem ter para onde ir. Sair de porta em porta já era algo mais do que irritante, pois eu tinha de falar com as mesmas pessoas semana após semana. Cada vez eu diminuía mais isso, e para eu "crescer" lá dentro, isso tinha era de aumentar. Assim eu nunca chegaria a ANCIÃO (como se chama o "pastor" lá). E na verdade eu nem queria aquilo. Mas era meio que obrigatório. Mas fazer discursos e tudo mais, não era minha praia. Ah, e não é remunerado.

Assim, mesmo eu indo visitar muitos de meus amigos, as coisas estavam caminhando para um fim. E eu sabia o que aquilo significava. Um dos ensinamentos básicos das Testemunhas de Jeová é que se você for desassociado (eufemismo para "expulso") ou se dissociar (eufemismo para "dar o fora por conta própria") do grupo, você será execrado. Ninguém mais poderá falar com você (baseado na Bíblia: "se aquele não vier com este ensino não converse com ele, nem tome refeição com ele", mais ou menos isso). Ou seja, eu ia perder de vez os amigos que fiz. E eu sabia bem como era aquilo. Já tinha visto pessoas que foram expulsas tentando voltar a frequentar. A pessoa passa por um teste de seis meses, indo ao Salão do Reino, sem ninguém falar com ela, se ela quer mesmo voltar, ela vai aguentar até o fim. Eu sabia que se eu saísse, era mesmo para sempre. Pois não ia aguentar aquele vexame.

Assim, certo dia escrevi um bilhete, deixei na casa de um "ancião" e fui embora. Eu estava fora, depois de sete anos. Foram à minha casa, tentaram me dissuadir. Mas fui veemente. Não ia voltar. Eu saí por vários motivos. E ainda assim acreditava dentro de mim, que estava fazendo algo que era errado. Isso até que dois anos depois eu comecei a acessar a Internet, e pude ver sites de ex-Testemunhas de Jeová, e ver que muita coisa não é "ensinada" no tal curso. Muita coisa é omitida. E que não há isso de "religião verdadeira". Isso foi de muita ajuda.

Conheci, pela Internet, outras pessoas que foram, ou pessoas que ainda eram Testemunhas de Jeová, e tinham dúvidas, mas que não conseguiam coragem para sair. Muitas alegavam estar sofrendo de problemas psicológicos, mesmo depois de ter saído. O caso mais triste que vi foi de uma mulher, que era casada, e tanto o marido quando os filhos eram TJ, e ela também era, até que resolveu sair, depois de ver que estava desperdiçando sua vida. E, assim, o tal "ensinamento" sobre execrar quem deixa de ser TJ tinha esse problema: e se a pessoa fosse um parente? Bom, aí ficava à escolha das pessoas falar com ela ou não. E a mulher dizia que havia dias em que os filhos e o marido falavam com ela direito, e dias que não falavam, tratando-a como uma desconhecida. Depois de algum tempo ela sumiu da lista. Acredito que não aguentou a pressão e voltou. Ou coisa pior.

Eu também acabei por sair da lista de e-mail sobre esse assunto. Estava acabado para mim. Até mesmo falar sobre aquilo era perda de tempo. Hoje eu acredito apenas em uma coisa, que estou vivo. Se existe algo mais, não é da minha conta.

PARA SABER MAIS:

Testemunhas de Jeová - Página Oficial
Ex-Testemunha de Jeová
As Verdades sobre a "Verdade"
A Formação de uma TJ


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