terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Desespero

DESESPERO

Enchi o copo d'água e tomei os dois comprimidos - acho que estou esquecendo alguma coisa - de um gole só. Saio apressado, já atrasado, para ir até o Catete. Melhor pegar o Metrô que é... não sei o que estou esquecendo, mas sei que estou esquecendo algo. Paro nas escadas que dão para o Metrô e tento me lembrar, forço a mente o máximo que posso, mas não consigo. E a sensação não vai embora. Quase volto em casa. Mas, engraçado, não é algo que eu devia ter aqui comigo, é outra coisa. Aquilo realmente me incomoda. A sensação de estar esquecendo algo sempre é chata, mas desta vez está batendo o recorde. Desisto e desço as escadas. Compro uma passagem e fico esperando, sentado, o trem chegar. Fico esperando...

... Eu dormi?! Não acredito. Eu dormi enquanto esperava. Mas eu nem mesmo estava com sono. Quanto tempo eu...? PUTA MERDA!!!! Eu dormi CINCO HORAS??!! Claro, as pessoas começam a me olhar estranho, afinal eu estou com cara de sono e de desesperado. Agora nem sei mais o que fazer. Vou ainda para onde ia? Volto pra casa? Eu decido que é melhor eu voltar pra casa.

Subo as escadas, passo pela roleta, pego a escada rolante e saio... no Catete?! Mas eu estava em Botafogo! Eu nem entrei no no trem. Como vim parar aqui? Eu só fiz dormir. Aquilo tudo parece ter a ver com o fato de que eu estou esquecendo alguma coisa. Num segundo sinto um dèja vu e quase vomito. Essa sensação sempre me faz isso. Não gosto. Me sento na ponta do degrau da escada, tentando entender o que aconteceu exatamente: Botafogo, Metrô, cochilo de cinco horas, Catete sem entrar no trem. Um ânsia de vômito se apossa de mim novamente. Me dou conta de que minha cabeça lateja de dor (estou esquecendo alguma maldita coisa nessa história toda). Abaixo a cabeça, tentando pensar e fazer a ânsia de vômito passar. Quando levantos os olhos...

... Estou num vagão do metrô. Agora não há o que faça segurar... eu vomito. Meu estômago parece querer sair junto. Sinto todas as náuseas do mundo. Por sorte não há ninguém ao meu lado. Mas os poucos que estão no vagão me olham perturbados e/ou com cara de nojo. Eu não sei o que está acontecendo. Volto a despejar coisas que nem sei se comi no chão do vagão. Seco a boca e olho em volta. Todos me olham mas ninguém se mexe. Isso seria até normal, só que eles não se mexem... MESMO! O vagão se move, mas nada mais se mexe, apenas eu. Não tenho mais o que vomitar por conta disso. Lá fora tudo se move, aqui dentro nada e nem ninguém. Outra coisa que noto, é que desde que estou aqui, não chegamos a nenhuma estação. Sinto um frio passar por todo meu corpo. Evito olhar para as pessoas imóveis. Devo estar sonhando, ou algo pior. Fecho e abro os olhos tentando ver se a "mágica" se repete e eu saio dali pra outro lugar qualquer. Mas nada acont...

... Estou no banco da estação de Botafogo, onde dormi as cinco horas. Alguém se aproxima de mim. Uma garota, adolescente, uns treze ou quatorze anos. Parece que a conheço, mas não tenho certeza. Ela abre a mão e me dá dois comprimidos dos meus. Reconheço-os pela cor de barro vermelho que eles tem. Ela me diz numa voz que parece vior de muito longe: "os comprimidos, você esqueceu dos comprimidos". Então, ela vai embora. Não consigo ver para onde ela vai. Na verdade não consigo discernir muita coisa na estação. E não entendo, eu não esqueci os comprimidos, eu os tomei ao sair de casa.

Olho pra minha mão, e no lugar dos dois comprimidos que ela me deu, agora existem quatro. Agora... agora entendo. O que eu esqueci não foi de tomá-los. O que eu esqueci foi que já os havia tomado, e tomei uma segunda vez. Eu estou tendo uma overdose. A pergunta é: Onde eu estou agora?



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