sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Steinbecker

STEINBECKER

O sol queimava sobre a cabeça de Steinbecker, que já andava por algumas horas sem saber mais para onde ia. O calor estava absurdo. Steinbecker estava num caminho onde o solo parecia ter sido crestado. Ele sabia que tinha de continuar andando, só não sabia se queria isso. Indicaram esta direção a ele e disseram para andar em linha reta até que fosse preciso parar. Parecia piada, pois ele queria muito parar, mas sentia que ainda não era a hora certa. Por isso continuava, debaixo daquele sol escaldante, a andar quase sem rumo. Na verdade ele nem mesmo sabia se sua "linha reta" fora tão reta assim. Mas Steinbecker tinha um problema sério: quando começava algo ia até o fim, e era curioso também.

Tudo começara com um papo entre amigos de jogo de cartas, que falavam de uma certa lenda urbana, criada naquela região, de que as pessoas que se aventuravam pelos caminhos inóspitos em que agora Steinbecker se encontrava, jamais voltavam, jamais eram vistas novamente. Steinbecker ria de tudo aquilo, pois ele não lembrava de nada disso, de nenhum desaparecimento. Foi quando os amigos começaram a enumerar nomes de pessoas que Steinbecker conhecia apenas de nome, ou que vira uma vez ou outra. Eles não podiam provar que essas pessoas estavam desaparecidas. Mas até aí, Steinbecker também não podia provar que não estavam. Bobagem, tudo bobagem.

A verdade, porém, era que, desde criança, Steinbecker sempre tivera arrepios só de pensar em andar por aqueles lados. Chegara mesmo a ir, mas o lugar parecia nunca ter fim. Nunca encontrava nada, a não ser voltando de onde viera. Era um deserto. Mas um deserto mais estranho que a maioria dos desertos. Mas Steinbecker não fora muito longe, talvez não tão longe a ponto de desaparecer.

Quando encontrou com seu amigos no dia seguinte, a conversa veio novamente à tona, e começou o velho costume entre eles: o momento em que tudo termina em uma aposta. Steinbecker estava tentando se mostrar descontraído com o assunto, mas desde que parara para pensar, na noite anterior, que nunca mais vira certas das pessoas citadas na conversa sobre os desaparecidos, ele não estava mais tão confiante em que tudo fosse uma lenda, uma historinha para assustar crianças.

Sem saber por que, ele aceitara a aposta, sem nem saber o que estava em jogo, se ganhasse. Ele apenas tinha de ir o mais distante que conseguisse, e apenas seguir em linha reta e andar até que sentisse que precisava parar. Ele achou que eram instruções meio aleatórias, e vai ver eram mesmo. O problema era que ele não conseguia parar de andar, mesmo querendo isso. Isso começou a acontecer logo depois que ele passou do limite até onde fora quando ainda era apenas um garoto.

Steinbecker parou.

Olhou para trás e notou que não dava mais para divisar a cidade. Ele... ele.. não lembrava mais porque estava ali. Qual o motivo dessa caminhada tão longa. Olhou para adiante e viu um grupo de pessoas acenando, perto de um velho trailer. Era engraçado. Elas e o trailer ali, no meio do nada. Devia haver uma meia duzia de pessoas mais ou menos. Sentadas em volta de uma fogueira apagada. Steinbecker não se sentia muito bem, mas foi em direção a elas. Pedir alguma informação, quem sabe. Ao se aproximar, Steinbecker começou a divisar alguns rostos... quem diria, eram...

O chão em volta de Steinbecker começou a afundar. Na verdade... se abriu! Steinbecker caiu uns três metros, com a areia caindo a sua volta. Lá em cima, na boca do buraco onde Steinbecker se encontrava, apareceu alguém com o que parecia ser uma espingarda, e disse:

- Ganhei a aposta, Steinbecker. As pessoas nunca voltam!

BLAM!



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