domingo, 5 de março de 2006

Um Post do Passado

UM POST DO PASSADO


Eu estava naquela casa, tão vazia quanto possível, num dia de um sol preguiçoso. A casa era nada mais que uma única sala, com janelas abertas, por onde faixas de luz do sol entravam, e por onde podia se ver a poeira dançando, uma dança também preguiçosa. Aquilo tudo era tão onírico. Eu não sabia por que estava ali. Não sabia em que época eu estava. Eu desconfiava que era minha infância, mas não tinha absoluta certeza.

Uma esteira no chão era a única coisa dentro da casa. Sem móveis, sem cortinas. A cor das paredes era apenas um azul pálido e, mesmo assim, já descascando em várias partes. O mais estranho era que, apesar de saber tudo isso, eu mesmo não parecia estar na casa. Aquilo me incomodava a ponto de embrulhar meu estômago.

Lá fora havia uma cerca de arame farpado, cercando toda a casa. Uma cerca tão frágil, que parecia piada ela estar ali. O portão de madeira era tão mal feito que dava pena. Ele pendia aberto.

Quando olhei para o lado, uma criança tomava banho dentro de uma bacia. Aquelas bacias de alumínio, antigas, que nem sei se alguém ainda usa aquilo. O menino, um bebê ainda, gorduchinho, brincava na água, se divertindo, mas não havia ninguém tomando conta dele.

De repente, acima de mim, um relâmpago explodiu - KRAKALAKA BOOOOMMMM - e eu me encolhi de susto e de medo. Meu coração batia tão acelerado que doía dentro do peito. Olhei para o céu, e estava quase limpo. Azul, com algumas nuvens brancas, finas. Nada que denotasse uma tempestade a vista. Aquilo tudo me dava uma estranha sensação de dèjá vu (ou seja lá como se escreve isso). Sim, desde o início.

Notei que eu estava perto do arame farpado, e estremeci só de pensar em um raio me atingido por eu estar perto daquilo. Daí, lembrei do garoto na bacia de alumínio, e pensei no pior. Mas não havia mais garoto. A bacia estava encostada numa parede, perto de um velho tanque de concreto.

A casa, o sol atravessando a janela, o arame farpado, o garoto na bacia e o raio ("não chama de raio menino, que faz mal! É relâmpago!", dizia minha mãe), tudo aquilo parecia fazer parte de alguma coisa que eu não fazia idéia do que era. Eu me sentia um fantasma naquela cena toda.

O chão de barro era agitado por uma brisa e levantava uma poeira seca que, ao ver, senti minha garganta secar também. O que foi feito da criança? Achei engraçado o garoto ser gordinho. Me fazia lembrar o quanto minha mãe cismava em me contar como eu era obeso quando criança, e que quase morri por causa disso, sendo salvo por um farmacêutico, conhecido apenas por Seu Pimenta. Ela diz que eu ia morrer com "gordura no coração". Eu nem faço idéia de quem diagnosticou isso pra ela.

Me sentia tão sozinho. Onde estava todo mundo afinal?

Acho que a casa era de meus pais. Mas onde estavam eles? Porque ela estava tão vazia? E a criança na bacia era eu mesmo? Senti um solavanco no coração. Sim, aquela foi a primeira casa onde meus pais moraram quando chegaram aqui no Rio de Janeiro, comigo.

Eu lembrava das faixas de luz de sol entrando pelas janelas, e da poeira dançado nelas. Eu me lembrava do banho na bacia de alumínio e da história que minha mãe contava de um menino que havia sido morto por um relâmpago por estar perto de uma cerca de arame farpado. Mas eu devia ter o quê? Um ano de idade, ou menos. Como podia me lembrar? Não sei.

Ia saindo pelo portão aberto, quando olhei mais uma vez para a casa e daqui de fora podia ver bem lá dentro. Tão vazia. Parecia o símbolo de como eu me sentia naquele momento. Não sei se por estar ali preso ao passado, ou se por estar com medo de voltar ao presente.

Fechei o portão atrás de mim, que voltou a se abrir, e fui embora...



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