quarta-feira, 22 de março de 2006

Solidão Enquanto Filosofia

SOLIDÃO ENQUANTO FILOSOFIA


Já havia vários ciclos que eu vinha visitando este planeta, conforme foi estipulado em minha missão de relatório círculo-efetivo. Isso queria dizer que eu estava designado ao planeta 1147B até o fim de meus serviços dentro do Setor de Relatórios Planetários. Este setor era parte de algo maior e mais complexo, mas que não nos era permitido saber exatamente do que se tratava. Em resumo, fazíamos os relatórios dos planetas, mas não sabíamos com que objetivos seriam usados. Talvez fosse para uma futura invasão ou, quem sabe, para um novo jogo de perguntas e respostas a ser lançado no mercado. Não importava. Éramos apenas uma engrenagem.

Não que eu esteja reclamando. Eu gosto do meu trabalho. E, posso até mesmo dizer, gosto deste planeta. Os humanos o chamam "Terra".

Quando preciso vir aqui, na maioria das vezes eu não me deixo perceber. Sim, fico invisível. Ou as vezes assumo uma forma humana não muito chamativa, o que me deixa praticamente invisível também. É incrível como se pode passar sem ser notado, mesmo num aglomerado de humanos, estando na forma do ser humano adequada. Eu estava usando uma dessas formas quando a avistei.

Eu estava estudando mais dos litorais do planeta, e procurava os mais desertos. Mesmo assim a presença humana é uma constante e estou acostumado a isso. Mas quando avistei aquela fêmea olhando ao horizonte, me pareceu que havia algo diferente em toda aquela cena. Ou, talvez, fosse algo novo apenas para mim. Uma configuração inovadora, diria meu superior.

Eu procurava interferir o menos possível durante minhas visitas à 1117B. E nunca, realmente, acontecera algo desastroso. Me orgulhava disso. Alguns efetivos não tinham o mesmo profissionalismo, por assim dizer, e acabavam inoperantes.

A fêmea emitiu um som vindo das narinas. Uma espécie de jato de ar sonoro. Suave ao mesmo tempo. Com objetivo de entender o que ela fazia ali, me aproximei. Tentei não chamar atenção, mas nem precisava me preocupar, ela parecia bem distante, olhando o horizonte. Havia em seu rosto aquilo que os humanos denominam "lágrimas". As emoções ainda eram algo inerente aos humanos. Não que não sentíssemos nenhuma. Elas só não eram tão importantes a ponto de nos isolarmos como aquela fêmea estava fazendo. Nos isolávamos por outros motivos mais, digamos, práticos.

Quando ela notou que eu estava próximo fiquei apreensivo. Ela poderia se assustar e os humanos tem uma tendência irritante a gritos. Mas não foi o que ela fez. Ela apenas emitiu um conjunto de palavras:

- Todos eles se foram.

Será que ela estava assim por que seus entes queridos haviam viajado? Bom, me parecia, como nós de nosso planeta dizíamos "uma situação maximizada demais para um conjunto tão simplista". Se viajaram, hão de voltar. Mas a sensação de dor que ela passava, parecia exprimir algo mais profundo. Passei a pesquisar nos arquivos sensoriais as nuances do conjunto de palavras emitido. Depois de alguns segundos o que parecia mais satisfatório para o caso era "eufemismo para morte".

Resolvido a questão e saciada minha curiosidade, comecei a ir embora quando, de repente, a mulher sacou uma arma de dentro de uma pequena bolsa e disparou dois projéteis diretamente onde, nos humanos, seria o cérebro. No mesmo instante abandonei a forma, que se desintegraria depois de algumas horas. Ainda pude escutar a mulher repetir.

- Todos eles se foram.

Acréscimo ao relatório/pesquisar: assassinos seriais. Recordatório: evitar lugares excessivamente desertos.


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