domingo, 23 de abril de 2006

Onde Crescer Era Apenas Viver

ONDE CRESCER ERA APENAS VIVER


Era engraçado morar naquela rua, mas não fazer parte dela. Nossa casa ficava (e ainda fica) numa elevação onde havia nada mais que outras três casas, até então. Parecia que não fazíamos parte da rua, ou mesmo do bairro. A escada, por muito tempo de barro, nos levava até minha casa, uma meia-água de telhas. Pensando hoje, ela não era muito grande mesmo, mas na época parecia enorme. Quando chovia, era um desastre que chegava a ser divertido, aquele corre-corre para "capturar" as goteiras. Quando chovia mais forte, uma tempestade amedrontadora, a idéia que passava era que a casa desceria com a força da chuva, lá para a rua. Afinal havia, alguns metros a frente, um "pequeno" abismo que só era disfarçado pelo matagal.

Havia uma outra saída para uma outra rua, menos, digamos, inclinada. Era por onde saíamos para ir à escola. Já descer a escada de barro, depois de uma chuva, era o mesmo que fazer esqui na lama. Sem esquis, é claro, só com a lama. Era uma queda na certa. Alguns anos depois um dos vizinhos resolveu fazer uma escada de concreto.

O chão da casa era de cimento liso, e "lustrado" com o famigerado "vermelhão", o qual toda semana minha mãe encerava com cera da mesma cor, é claro. Isso quando não Sobrava pAra nós, encerar aquilo. A única diversão era calçar meias e deslizar sobre o chão encerado recentemente.

Certa vez, não sei como, minha mãe deixou meu irmão pintor um Lion (aquele dos Thundercats), na parede da varanda. Ele estava começando a desenvolver seus dons de desehista. Aquilo ocupou um bom espaço da parece, e lá ficou por um bom tempo, antes que a parede fosse pintada novamente. Acho que como todo mundo sabia que nossa família era meio aloprada, não estranhavam aquilo desenhado na parede.

Em frente a casa (que na verdade ficava de lado) ficava o poço do qual obtínhamos a nossa água. Poço que devia ter uns 20 metros de profundidade, e que eu tinha pesadelos em que caía dentro dele. Quando se retirava a tampa e se olhava lá dentro, mal se via o reflexo da luz na água, de tão distante que ela estava. Na verdade eu nunca soube realmente quanto aquele poço tinha de profundidade. Parecia mais um portão para o inferno. Puxar água era nosso exercício diário. Isso gerava algumas rixas entre eu, meu irmão e minhas irmãs.

O que eu mais gostava dali, na época, era como não nos preocupávamos muito em se a porta estava ou não trancada, na hora de dormir. Nunca acontecera nada demais, exceto por alguma rixa entre vizinhos. Podíamos sair pelas imediações e deixar a casa sozinha, sem trancar, que nada acontecia. Isso parecia deixar mais evidente a sensação de distanciamento da rua lá embaixo.

Éramos felizes e, eu pelo menos, gostava da casa como ela era. Mas, assim como nós estávamos mudando, a casa também começou a sofrer alterações. Até que por fim, não era mais a mesma casa. Claro que ficou melhor e, assim como as recordações de uma infância que ficou para trás, a casa também havia ficado no passado. Assim como os moradores ela cresceu, mudou.

Me pergunto se ela fica nostálgica às vezes.


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