terça-feira, 23 de maio de 2006

Professores

PROFESSORES

Todos nós, durante a nossa vida estudantil, temos aqueles professores mais memoráveis, por um ou por outro motivo. Muitas vezes é a arte de ensinar, de conseguir nos fazer entender uma matéria que até mesmo não gostamos, ou de como tal professor se importa de verdade com cada aluno, mesmo que seu salário não peça e nem mesmo dê para isso. Ou, às vezes, não é por nada disso e, sim, por ele ou ela serem muito, mas muito engraçados, querendo ou não.

No primeiro ano do segundo grau tivemos uma professora temporária, de Português, que era engraçada, mas de uma forma meio trágica. Eu ria para não chorar. Tudo bem que nós, alunos, na maioria das vezes não queremos nada com as aulas, mas algumas vezes queremos estudar de verdade, por incrível que pareça. Só que com ela, isso não era possível. Ela gostava de dar aula apenas oralmente. Acho que aí estava seu maior erro.

Todas as vezes que ela começava com sua aula, ela ia bem até um certo ponto. Então, em algum ponto que eu nunca conseguia "enxergar", saíamos da matéria e, de repente, estávamos adentrando a vida pessoal dela. Era praticamente um tempo de aula e um tempo de vida particular. E quando falo vida particular, é vida particular MESMO!

Eu me recostava na parede, cruzava os braços e por pouco não colocava as pernas em cima da carteira. Esperava até que a aula recomeçasse, entre uma risada e outra. Mas tudo bem, apesar de tudo isso, ela era uma boa professora, eu acho.

Mas, o campeão dos campeões de todos os tempos era, sim, o PROFESSOR DE FÍSICA! Acho que já falei dele aqui. Já relatei algumas peripécias dele, como por exemplo: ir a um lugar de carro e voltar de ônibus, pois esqueceu que havia ido de carro. Ele era tão "famoso" na escola que, mesmo não estando lá no início do meu primeiro ano, ele era sempre lembrado pelos repetentes. Estávamos com uma professora de Física muito rígida e os que estavam repetindo o ano só sabiam dizer "O Farenheit é que era bom!". Ah, para quem não lembra, ele tinha o apelido de Farenheit. Depois que o conheci, deduzi que ganhou o apelido devido a como pronunciava a palavra: "farenáiti".

Então ele substituiu a tal professora, retomando seu cargo de professor de Física, ainda no primeiro ano. Mas foi NESTE terceiro ano que ele atingiu o ápice de sua, digamos, "genialidade" ingênua. Como foi? Pois bem, sentem-se crianças:

Era uma quarta-feira de aulas a noite, como outra qualquer. Havia no ar um clima de greve dos professores. Uma indecisão tomava conta dos mesmos. Recebemos um aviso de que talvez a paralisação começasse naquela mesma noite, mas que ainda estavam resolvendo isso. Foi quando chegou, para sua aula, o professor Farenheit. Mas aí eu já estava em clima de greve. Eu não estava mais a fim de aula. O anúncio de que poderia haver greve me desanimara de estudar e me animara para ficar em casa. Mas o professor queria dar aula. Então, o que fazer?

Eu sabia que o professor tinha uma fraqueza semelhante à da professora de Português citada acima. Eu só precisava fazer a pergunta certa e adeus aula de Física. Ele falava sobre a possível greve, e que como não havia certeza iria dar sua aula. Em meio ao que ele falava, eu de repente perguntei:

- Professor, o senhor já foi hippie?

Como num jogo de sinuca, a pergunta bateu na tabela e acertou outra bola. Não sei como, nem porque, ele relacionou isso a cobras, e começou uma dissertação longa sobre as incríveis qualidades destes seres rastejantes. Sendo um pouco ecologista e um pouco espiritualista, o assunto acabava ganhando mais e mais caminhos (como sempre acontecia com qualquer assunto aleatório abordado por ele).

Parecia que meu objetivo havia sido alcançado: não teríamos mais aula de Física, mas sim de Biologia, ou seja lá o que quer que fosse aquilo de que ele falava. Mas a coisa toda parecia não ter mais fim. Ele falava de tudo que podia relacionado a cobras, e não havia piada de duplo sentido que eu ou qualquer outro fizesse, que tirasse sua concentração ou o fizesse perder o fio da meada.

Nós nunca sabíamos o quanto ele era ingênuo e o quanto ele se fazia de ingênuo. Mas uma coisa era certa, ele sempre era imprevisível. E eu não estava preparado para o que viria a seguir. O tema "Cobras" estava agora em ginásticas baseadas em movimentos reptilianos, ou melhor, no movimento das cobras. Como já disse, ele tinha várias facetas, entre elas, também, uma coisa meio naturalista. Mas eu já estava ficando entediado, e nem mesmo tinha mais pique para piadas de duplo sentido. Na verdade nem mesm para de um sentido só. Comecei a caminhar em direção a porta e quase perdi algo para colocar em minha autobiografia, num capítulo a parte. Só escutei quando ele falou comigo:

- Encosta a porta um pouco!

Não entendi o porque na hora. Mas cabe aqui dizer, que fora eu e mais alguns, muitos estavam dando atenção ao que ele dizia, e isso era o que o empolgava a continuar. Todo mundo sentado em suas carteiras, incentivando-o com olhares curiosos a continuar. E isso fez ele se empolgar de verdade, pois ele agora queria ensinar... A GINÁSTICA DA COBRA!!!!

Antes que alguém pense sacanagem, não é nada disso. Mas ele disse que ia mostrar como fazia a ginástica baseada nos movimentos de uma cobra. Eu fechei a porta, mas não acreditava no que eu achava que ele ia fazer. Eu estava boquiaberto, mas sim, aquele professor de meia-idade ia mesmo... nossa! Ele pulou sobre sua mesa, e deitou nela de bruços. Ele girou na mesa, como aqueles dançarinos de break. E, de repente, começou a ondular o corpo, sobre a mesa, se apoiando nas mãos! ELE IMITAVA UMA COBRA!!!!!

A sala quase foi abaixo! Aplausos, assovios, gritos, histeria em massa. Ele se apoiou sobre as mãos, balançou o corpo como um pêndulo, e pulou da mesa em uma saída triunfal. Eu, ainda na porta, não acreditava em meus olhos. Eu pensava, "mas eu só perguntei se ele foi hippie, não se ele foi o John Travolta!". Eu ainda estava tentando entender toda a cena, quando o sinal bateu.

No dia seguinte a greve começou...


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