sábado, 13 de maio de 2006

Sentado à beira do Caminho

SENTADO À BEIRA DO CAMINHO


Eu estava sentado embaixo daquela árvore, no pátio da escola, como eu sempre gostava de fazer. Escutava todos os outros conversando, observava todo mundo. Observava a tudo.

Corria, então, a história da mulher de branco que, variando de pessoa para pessoa, era sobre uma loira que ficava nos banheiros, vestida de branco, com algodão no nariz. Quando não era isso, era a Kombi Branca que raptava crianças, ou o Mão Branca, que era um grupo de extermínio. Engraçado como, pelo menos nessa época, o branco estava associado a tanta coisa ruim. Estando eu na segunda série, qualquer coisa assim me impressionava. Mas não lembro nunca de ter ido ao banheiro e ficado com medo de que alguma mulher de branco saltasse de uma Kombi branca e pusesse sua mão branca no meu ombro.

O que eu mais gostava na Escola São Cosme e São Damião, quando estava na segunda série, era da professora Celina. Eu lembro que ela gostava mesmo de mim. Tanto que ao final do ano, quando fui aprovado, ela me deu um caminhão de brinquedo. Nossa! Eu nunca tinha ganho nada igual. Era tão grande que eu cabia dentro. Ora, como eu sabia disso? Entrando dentro dele, é claro. Na caçamba. Ou ele era muito grande, ou eu era muito pequeno. Minha mãe fez questão de retribuir ao presente, e só lembro dela me arrastando até a casa da professora, para entregar-lhe um presente. Um abajur, se bem me lembro.

Sentando ali, embaixo da grande árvore, eu observava a tudo e todos e me lembrava de tudo isso. Afinal não fazia tanto tempo assim. Um local meio que místico, para mim, era a cantina. Nossa, quando eu podia comprar algo, com dinheiro que minha mãe me dava, era como estar obtendo o Santo Graal. Imagine bem, sempre fomos pobres, e três de nós já estudavam no mesmo colégio. Minha mãe nos criando sozinha. Dinheiro para merenda era mais raro que o último episódio do Pinóquio (aquele do "vovozinhoooooo!"). E aquela Coca-Cola pequena? Não a média, a pequena! Nossa, aquilo sim era um tesouro.

Logo construíram uma quadra com arquibancadas de concreto. E eu deixei a árvore pelas arquibancadas. Era divertido ver o pessoal brincando na quadra até começarem a caírem no tapa. E eu gostava da terceira série, tanto quanto da segunda série. Havia a Valéria e sua irmã Raquel. Pareciam pequenas Valquírias, mesmo que eu só viesse a descobrir o que eram Valquírias anos mais tarde. Por causa de Valéria eu fiz o impensável: aceitei ser o príncipe, na Festa da Primavera, só porquê ela seria a princesa. Talvez eu nunca tenha pago um mico tão grande quanto esse. Eu, o mais tímido dos tímidos. A roupa - se é que aquilo podia se chamar de roupa - era a mais ridícula das ridículas. Com direito a uma coroa dourada. Lembro que minha mãe procurou alguém para tirar uma foto minha e não encontrou. Respirei aliviado.

Sentado na arquibancada eu via o tempo passar, e eu chegar à quarta série, que seria meu último ano naquela escola que eu, mesmo sem saber, tanto amava. Tanta coisa eu já havia passado ali. Namorado Elisângela, perdido ela por causa de Raquel (outra Raquel); vi com meus próprios olhos o álbum de figurinhas de Superman - O Filme; achei um gibi tão diferente naquela mesma arquibancada, perdido; perdi meus óculos; achei meus óculos; dei minha lancheira a um colega que não tinha...

Agora não estou mais na arquibancada. Nem na escola. Apenas a vejo sempre que passo de ônibus. Cada vez mais o tempo passa e o ônibus também. Até que a escola não existe mais. Foi derrubada e construíram um conjunto habitacional no lugar dela. Ficaram as lembranças...


Nenhum comentário:

Business

category2