domingo, 25 de junho de 2006

As Lembranças Voam

AS LEMBRANÇAS VOAM





Olhei embaixo da cama e, sim, haviam algumas memórias jogadas ali. Memórias esquecidas. Peguei-as de onde estavam, tirei a poeira, que não era pouca, e comecei a separar as mais importantes. Coisas que realmente mereciam ser lembradas, polidas e guardadas. Algumas estavam tão envelhecidas, tão apagadas, que eu tive de manusear com muito cuidado. Outras eu não conseguia mais distinguir o que eram. Podia apenas deduzir.

Me sentei, com todas elas espalhadas ao meu redor, e comecei a colocá-las em ordem, o que não era nada fácil. Peguei uma das primeiras e olhei com cuidado. Não que não fosse uma boa lembrança. Era de certa forma marcante, mas não de um jeito muito bom para todos os envolvidos. Ela é assim...

Lá na rua, o garrafeiro grita que troca garrafas por picolés ou por pintinhos. Minha mãe leva alguns cascos (garrafas vazias) e troca por um único pinto, que se torna o xodó de minha irmã do meio. A fascinação de todos nós por aquela criatura é grande. O problema é que o bicho é muito pequeno e está sempre pela casa. E como caga!. Minha irmã se apega à ele de uma maneira incrível. Eu logo esqueço.

Tudo estaria bem se terminasse por aí. O problema é que eu sempre fui desastrado. Nunca fui de olhar muito por onde ando, então... é, exatamente isso que vocês pensaram. Minha irmã quase teve um troço. Chorou muito. Mas foi um acidente! Eu não planejei aquilo. Hoje, quase 30 anos depois, ainda sou lembrado disso, sempre que há uma reunião, em que essas memórias são compartilhadas.

Coloco essa bem guardada na pilha do lado esquerdo, com um sorriso meio triste, e pego a memória seguinte a ela. Mais uma de vendedor de rua. Então eu começo a lustrá-la com cuidado...

Novamente na rua, avisto o vendedor de algodão doce. Nunca mais vi algo como aquilo, em toda minha vida. Era um senhor, bem idoso, que vinha com uma espécie de carrinho, que ele empurrava. Mais ou menos no formato daqueles carrinho de sorvete, só que parecia ser feito de alumínio ou algo assim. E dentro dele, acontecia a mágica do açúcar (e sei lá mais que ingredientes) virar algodão doce.

Me pergunto se eu corria para comprar, pelo algodão doce em si, ou apenas para enfiar a cara e olhar o algodão ser feito. Era algo imperdível. Ele girava uma manivela ao lado da pequena carroça, e dentro um um grande circulo, como uma panela, com uma haste no meio, girava também. O algodão começava a "nascer" vindo sei lá de onde. Começava a aparecer, aos poucos, vinha das paredes da "panela" e ia se colando à haste. Eu sentia o calor no meu rosto e escutava o barulho que o girar fazia. Era hipnotizante. O calor, o girar, e o barulho... vrummmm.... vrummmm... vrummmmm...!

Quando eu menos esperava, ele metia um palito dentro da "panela" e, num movimento rápido, retirava o algodão, e me entregava. E eu subia as escadas, correndo, já pensando em quando ele voltaria.

Junto essa memória a anterior e quando pego a próxima, uma estranha coincidência... mais um vendedor!?

Dessa vez eu não vejo, apenas escuto. Placplac placplac placplac placplac! É o som de um pequeno "aparelho" que um outro vendedor usa para anunciar sua chegada. Um pedaço de madeira quadrado, com algumas coisa de ferro pregada nela, de forma que balançasse. Assim quando ele movia o pedaço de madeira fazia esse barulho e todo mundo sabia quem era ele quem estava chegando.

Ele trazia consigo, no ombro, como se portasse uma bandeira, uma haste com uma placa de madeira na ponta. Placa essa toda perfurada, e nos furos estavam o objetivo dessa história, pequenos pirulitos em forma de guarda-chuva fechado. Não lembro que sabor tinham, mas era outro de nossos vícios de criança.

Lembro que, algum tempo depois, apareceu um comercial sobre alguma pasta de dente ou outro produto dentário, em que a cena era um pirulito daqueles perfurando um dente com aquela ponta, que realmente era bem fina. Só de ver aquilo, me doía até a alma. Nunca mais vi daqueles pirulitos pra vender. Mas se visse, só conseguiria me lembrar do comercial e dele perfurando meu dente.

Junto essa memória às outras, e vejo que ainda tenho muitas para serem catalogadas. Mas o sono bate. Os olhos pesam. Resolvo colocar as que faltam de volta pra baixo da cama, afinal estavam ali por tanto tempo. Volto a elas uma outra hora.

Quando as empurro de volta... uma mão sai debaixo da cama me agarra o braço e me puxa...!!!

Ok... era só pra ver se vocês estavam acordados. Até mais!


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