quinta-feira, 8 de junho de 2006

Memórias

MEMÓRIAS

Quando eu via aquelas propagandas do Exército, sobre completar 18 anos, eu simplesmente tremia nas bases. Aquilo era me soava como quando minha mãe ficava irada comigo - ou com qualquer um de nós - e gritava: "EU VOU TE MANDAR PARA UM COLÉGIO INTERNO!!!". Acho que, na verdade, ela nunca nem vira um colégio interno, e muito menos nós, ainda crianças, sabíamos exatamente como era um. Mas se ela falava aquilo com tanta veemêcia e gritando, só podia ser algo muito ruim. Mas, enfim, eram apenas ameaças. Mas o Exército não, o Exército era bem REAL.

Meu medo era por vários motivos. Em qualquer lugar que eu chegava, onde havia um grupo de garotos, eu era o motivo de chacota, apelidos e, às vezes, violência por parte dos mesmos. Geralmente pelos caras mais fortes, como é comum. Me imaginar num lugar cheio deles, me apavorava. Sem contar o fato de eu ser tímido, sem jeito e franzino. E, como contavam, teria de ficar pelado junto a um monte de homens, durante a seleção. Isso era o fim da picada. Eu queria que meus 18 anos não chegassem nunca. Mas eles chegaram...

Eu com 18 anos, mais magro que nunca, quase voando, tinha de ir me alistar. O dia parecia o mais negro de todos os dias. Acordei de madrugada e fui para uma parte de Duque de Caxias que eu nunca vira antes. Um lugar cheio de matagal em volta, no fim do mundo. A fila do lado de fora era enorme, e minhas esperanças estavam justamente aí: sobrar por excesso de contigente - acho que é assim que se diz.

Eu nem encarava ninguém, apenas amaldiçoava a demora que não acabava nunca. O portão não abria, ninguém chamava. Não acontecia nada. Até que alguém, enfim, abriu o portão e nos mandou entrar. Entramos num pátio amplo, e nos mandaram esperar mais ainda. Eu quase xinguei todos os parentes do soldado que disse isso. Quase, só quase.

Depois de muita espera, nos mandaram formar fila e entrar na sala de seleção. O pior momento se seguiria: ficar pelado junto de um monte de gente desconhecida. Eu, que não consigo nem mijar em banheiro público, com alguém perto de mim.

Então seguimos em fila indiana. Nos mandaram tirar a roupa, mas não toda. Devíamos ficar de sunga. Eu nem acreditei. Dei graças ao santo protetor da nudez alheia, fosse lá quem ele fosse. Tirei a roupa, inclusive meus óculos, ficando só de sunga. Seguimos em frente, preenchemos tudo que tínhamos que preencher. Mas, claro, eu teria de ficar nu para o doutor. Foi algo bem rápido. Vapt vupt. Acho que para avaliar o funcion... ah, sei lá. Eu dei graças que tinha acabado. Ou quase. Eu ainda estava com o coração na mão, sem saber se ia ser selcionado ou não. E parece que a decisão era agora.

Ele me pediu pra ler aquelas letras, naqueles cartazes de exame de vista. Comecei bem, e preferi não tentar mentir fingindo que não conseguia ler aquele A enorme. Fui lendo até onde eu realmente conseguia, o que acho que deu até a quarta linha, se bem me lembro. Parece que aquilo não o deixou muito satisfeito. Perguntou se eu usava óculos. Eu disse que sim. Ele pediu pra ver. Tirei da sacola e entreguei a ele, que o colocou no rosto e tirou rapidamente. Escreveu alguma coisa e disse: "dispensado (do serviço militar"). Credo, meus óculos não são tão fortes assim, nem chegam a fundo de garrafa.

Que preconceito contra nós, quatro-olhos!

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