quinta-feira, 29 de junho de 2006

Cabeças Vão Rolar

CABEÇAS VÃO ROLAR
(Um Conto Baseado em Lendas Reais)


Eu corria o mais que podia, afinal eram três no meu encalço. Se me pegassem eu nem imagino o que fariam comigo. E nem queria imaginar, só queria correr.

Tudo começou naquela maldita festa de aniversário, da filha de um casal amigo meu, para qual eu fora convidado. Estava na minha, quando um moleque idiota começou a tirar sarro da minha cara, do nada. Eu tentei aguentar bem. Afinal estava na casa de amigos meus, mas estava cada vez mais difícil. Ele tentava fazer as pessoas rirem às minhas custas, e estava conseguindo. Meu sangue fervia. Foi quando ele cometeu um erro.

Eu não acreditei quando ele veio fazer gracinhas na minha cara. Se ele estivesse bêbado, eu até entenderia, mas o desgraçado só queria atenção mesmo. Quando ele abriu a boca para dizer mais alguma coisa, meu punho vôou sobre seus dentes. Ele cambaleou para trás e caiu, esbarrando em uma mesa, derrubando cadeiras. Por um segundo tudo ficou naquele silêncio do tipo "que porra, tá acontecendo?", até que eu vi, pelo canto do olho, três caras se aproximando de mim. Eram os primos dele.

Empurrei algumas pessoas e saí desabalado pelo portão. A noite estava fria, mas eu me sentia quente. Quando olhei para trás eles já começavam a correr na minha direção. Eu comecei a correr sem saber muito bem para onde ir. Mas eu tinha apenas que correr. Minhas pernas chega doíam do esforço. Saí na rua do Posto de Saúde e entrei por uma viela onde achei que podia despistá-los. Desatei por uma subida e desci desabalado até a rodovia.

Parei pra respirar, sentindo meus pulmões arderem com o ar frio da noite. Achei que tinha conseguido confundí-los quando vi que eles vinham pela outra saída da rua do Posto de Saúde. Comecei a correr de novo, aproveitando a vantagem que eu tinha. Atravessei a rodovia e fui na direção de um descampado que é usado como como campo de futebol. Havia uma passagem que dava para várias ruas, criando um labirinto, seria fácil entrar lá e sumir da vista deles. Parecia que eu estaria livre. Pelo menos era o que parecia.

Para chegar ao labirinto de ruas eu tinha de atravessar o campo, que era bem escuro por sinal. Um breu. Além de ser sinistramente deserto. Eu estava à toda, sentindo as pernas doerem consideravelmente, quando estaquei, e me joguei ao chão. Num canto do campo, num dos mais escuros, três homens rodeavam um quarto que estava ajoelhado. Os três apontavam o que deviam ser armas, já que da distância que eu estava, eu não conseguia ver. O que me escondia era apenas um montinho gramado. Por um instante esqueci dos primos corredores, que vinham bem atrás de mim. Quando vi que estavam perto fiz sinal para se abaixarem. Os idiotas andavam na minha direção rindo. Então fiz sinal de arma na cabeça e apontei para a frente. Quando entenderam se jogaram no chão ao meu lado. E me esqueceram completamente. Estavam vidrados na cena adiante. E tremiam.

E nessa hora o homem ajoelhado gritou algo que não entendi, mas acho que devia ser por estar amordaçado. Mas parece que os homens entenderam, pois gritou de volta que ele devia ter pensado nisso "antes de estuprar a fulana de tal". Merda, era uma execução. Eu tinha ouvido boatos sobre um estupro nas cercanias. E que a menina era muito nova e não estava nada bem. No meu caso estou me lixando para a sorte do desgraçado, mas não queria estar ali para ver aquilo. Os três panacas ao meu lado estavam de boca aberta. Mas não soltavam um único som.

Pensei em tentar me levantar e ir embora, mas o medo congelava minhas pernas. Medo, principalmente, que eles me percebessem, e quisessem fazer queima de arquivo. Ou apenas matar para se divertir mesmo. Esses caras não eram justiceiros. Matavam por prazer. Alguns deles eu até mesmo conhecia de vista mas, assim como todo mundo, fingia que não sabia de nada do que eles faziam. Minha esperança é que assim que terminassem o "serviço", entrassem no carro, que estava a alguns metros, e fossem embora. A estrada de saída do campo não passava por nós.

Foi quando, falando em carro, um deles foi até lá e tirou algo do porta malas. Eu não conseguia ver direito, mas um dos idiotas ao meu lado disse "puta merda, é o maior facão que eu já vi". Levou tanto tapa, dos outros dois que me deu pena. O silêncio ali era importante. Estaríamos fritos se nos pegassem. Mas o que tiraram do carro parecia ser mesmo um facão. E o cara ajoelhado também percebeu, pois começou a gritar tão horrivelmente que eu quase comecei a chorar. Um grito sinistro, abafado pelo pano que o amordaçava. Dava pra perceber que ele pedia misericórdia, perdão, chorava...

Foi quando eu escutei um barulho seco. Era o facão no pescoço dele. Mesmo sendo grande, parece que o facão não arrancou sua cabeça de uma vez, como se vê em filmes. Ele se calou, os três homens também pararam, como se esperassem alguma reação, e aí o corpo caiu para o lado. Os três começaram a rir alto. E um deles soltou um "merda, não foi de primeira, tá me devendo uma cerveja". Então, um outro pegou o facão e disse algo como, deixa eu terminar o serviço. E com mais três golpes... arrancou a cabeça.

Eu estava com taquicardia. Parecia que eu ia ter uma crise de asma, ou algo assim. Ao meu lado, os três estavam com os olhos esbugalhados. O do canto de lá, começou a chorar baixinho. Os outros não ligaram. Um deles falou em começar a correr. Não deixaram. Enquanto isso, lá na frente, as coisas ainda não tinham terminado. Para meu espanto e dos meus "amigos" comigo, os caras começaram a - inacreditável - jogar futebol com a cabeça do morto.

Pareciam três crianças se divertindo. Gritavam e riam, a cada gol que um fazia, com a cabeça do estuprador. Se a cena não fosse tão bizarra, seria até engraçada. O chorão começou a rir. Estava tendo um ataque de riso por nervosismo. Os outros dois o estapearam, mandando parar com aquilo. Um deles disse que se ele não parasse ele ia ser a próxima bola. Eu prestava atenção na briga deles, quase rindo, mesmo muito nervoso, quando ouvi um barulho de alguma coisa rolando. Um barulho que ia aumentando, aumentando até que....

Quando olhei pra frente, eu não pude acreditar: a cabeça estava rolando na nossa direção. NA NOSSA DIREÇÃO!!! Ela rolou, rolou, rolou, e parou bem no montinho gramado. Parou olhando para nós três. Virada de lado. Os olhos estavam virados pra cima, e parecia nos encarar, mesmo assim. Eu me sentia anestesiado de medo, pavor, terror, horror, tudo mais que se podia pensar. Nenhum de nós três conseguíamos nos mover. Mas esqueçemos de uma coisa. Eles estavam vindo buscar a "bola".

E lá vinham eles, na nossa direção. Eu só tive tempo para pensar numa coisa. Uma coisa que eu não tinha tempo de pensar em fazer, mas apenas fazer. Agarrei a cabeça, me levantei e a joguei, com toda a minha força, para trás deles, o mais longe que pude, e gritei:

- CORREEEEEEEEEEEEEEEEE!!!

Os três se levantaram, eu me virei, e começamos a correr. Não olhamos para trás, para ver se vinham nos pegar. Eu só esperava começar a ouvir as balas zunindo. E uma me acertar as costas. Mas isso não aconteceu. Viramos na primeira casa que ficava de frente para a rodovia. E continuamos correndo. Íamos os quatro correndo junto. Até que depois de uns minutos, paramos.

Paramos, nos encostamos em alguma parede, respiramos. Eu me sentia um lixo, e minhas pernas doíam horrores. Os três não estavam muito diferentes. Me virei para eles, e disse:

- E agora?

- Agora, o quê? - Disse um deles, quase sem conseguir falar, de tão cansado.

- Hmm... nada... esquece!

Parecia brincadeira, mas eles haviam esquecido que estiveram querendo me encher de porrada. Olhei minhas mão, e elas estavam sujas de sangue. Não conseguia sentir nada com relação àquilo. Nem mesmo náuseas. Estava cansado e apavorado demais. Mas ainda me lembrava do porque tudo aquilocomeçou.

Olhei para a camisa de um deles, e reparei que era daquelas bem caras. Então me despedi, batendo nas costas desse com a camisa.

- Bom, pessoal, então eu vou pra casa. A minha é logo aqui perto. Querem um conselho, para evitar o caminho do campo, sigam aqui por esse atalho, e vocês chegam à casa do primo de vocês, onde rolou a festa de aniversário, que a esta hora já deve ter acabado.

Soltaram uns "aham,,, tá... certo... hmmm... ok". Ainda estavam desnorteados. Alisei bem a palma da mão nas costas da camisa dele num gesto de amizade e conforto. E segui em direção à minha casa, pensando comigo mesmo:

- Viados filhos-da-puta!

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