sábado, 10 de junho de 2006

Cordel

A CHEGADA DE LAMPIÃO AO INFERNO

Mesmo quando eu era criança ainda, uma coisa era evidente a todos: eu gostava de ler. Eu lia qualquer coisa que me caía nas mãos. E as pessoas gostavam de me dar coisas para eu ler. Minha mãe mesmo percebia isso, ou eu fazia questão de que ela percebesse, e estava sempre me dando trocados para que eu comprasse algum gibi. Lembro de uma vez em que estávamos esperando o ônibus e ela me deu umas moedas e eu comprei uma Pato Donald, que era o que dava. Tudo bem era fininha, eu iria devorar em segundos, mas era minha.

Depois que meu pai deu no pé, minha mãe teve alguns namorados, afinal ela é filha de Deus, também. E era incrível a minha capacidade de fazer com que eles pagassem gibi pra mim. Um deles até mesmo gostava de lê-los e de comprar. Eu acabava catando pra mim. Algumas vezes eu não tinha pena do bolso do cidadão. Eu sabia que o gibi mais caro era o Disney Especial, e era o que eu pedia.

Um dos que sofreu muito com isso, e que tinha um nome muito peculiar (Daguiberto), acho que tentou minimizar esse tipo de prejuízo que eu lhe dava. Começou a me dar livros. Todo tipo de livro. A maioria deles, acho que era algum tipo de refugo, coisas que ele não queria mais. Ele me encheu de vários volumes de uma tal de O Livro de Cabeceira do Homem que eu detestava. Mas um dia ele chegou com um livro que eu não esqueço até hoje.

Ele chegou e me entregou um livro, sem capa, grande e pesado. Parecia uma Bíblia de tantas páginas que tinha. Um verdadeiro chumaço. Pensei comigo "mais uma bomba!". Mas eu estava enganado. Não lembro o nome do dito cujo, infelizmente, mas ele era todo, todas aquelas centenas de páginas, só de cordel. Ou seria uma coletânia de Literatura de Cordel.

Eu não sei quanto tempo passei lendo aquele livro. Mas sei que... bom só tem um jeito de contar o resto dessa história...

A História do Livro de Cordel:

Não parava mais de ler
Nem de noite, nem de dia
Até andando eu já lia
E ninguém conseguia entender
Qua diabo eu tanto fazia
Não brincava, não corria
"Esse minino vai morrê"

Pra onde fosse eu levava
Até na rua andando
Pros amigos ia mostrando
E as coisas que me agradava
Do livro eu ia contando
O cabra ia escutando
Mas logo ele cochilava

E eu pensava assim comigo
Será que esse povo não vê
É só pegar o livro e lê
E vai ver nele um amigo
Algo que não vai esquecer
Por mais tempo que se dê
Por mais que se fique antigo

Pois assim comigo se deu
E uma história não esqueci
Uma que gostei quando li
Que se tornou algo meu
Mesmo depois que cresci
Da mente nunca perdi
Com o tempo nunca morreu

Falava de Pedro Malasarte
E de como um rei poderoso
De um reino muito famoso
Chamou Pedro a parte
Prometendo ser generoso
Se Pedro (um mentiroso)
A doença do reino curasse

Todo o povo gemia
Todo mundo doente
E Pedro chamou, ei gente
E todo o povo ouvia
O que Pedro tinha na mente
Pegar um daqueles doente
E fazer a cura que prometia

O povo já estava com tédio
E Pedro falou mais devagar
Um de vocês vou pegá
E fazer desse o remédio
Sim, eu vou cozinhá
Pois só assim vou curá
Essa praga, ou eu alejo!

E cada um foi saindo
Quando Pedro pra ele apontava
Já estou bom, assim falava
Outro pulava sorrindo
Já outro as muletas jogava
O povo Pedro "curava"
E o rei pagou ao minino

E do livro tenho boas lembranças
Aquele antigo presente
Que me fez ver diferente
O meu tempo de criança
E de um modo inocente
Emprestei para alguém mais carente
E no mundo ele faz sua andança.


Pois é, me empolguei. Mas essa é mais ou menos mesmo a história desse livro que ganhei de presente e que, sim, acabei perdendo pois emprestei pra alguém a quem fui mostrar. Se bem me lembro era uma menina de quem eu gostava e que adorou o livro. Bom, acabei ficando sem o livro e sem a menina. Mas tudo bem, eu já havia lido e relido, só sinto por eu não saber guardar minhas coisas, relíquias do passado.

Só as guardo na lembrança.




P.S.: Enquanto eu dava uma pesquisada no Google sobre cordel, achei um site com uma proposta interessante, mas que me parece, não foi adiante, já que está sem atualização desde 2004: é o MANGÁ DE CORDEL. Pena que o projeto parece não ter seguido adiante.


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