segunda-feira, 12 de junho de 2006

Fatos Fictícios

BASEADO EM FATOS FICTÍCIOS

Eu estava trabalhando em Ipanema, quando estreou o maldito do Titanic e, sim, eu confesso, fui assistir. Mas não me envergonho, afinal eu faria algo bem pior mais tarde: compraria o filme, naquela caixa cheia de frescura, quando do lançamento em vídeo. Mas o terror aqui não é esse. O terror é outro...

Eu saí do trabalho, já meio tarde. Peguei um ônibus e fui até a Cinelândia, assistir no cinema de lá, que no momento esqueci o nome. E, entretido (ah, vai, a parte do naufrágio tem seus méritos) não vi que já era bem tarde. Muito, mas muito tarde da noite. E eu estava sozinho.

Para quem conhece o Centro do Rio de Janeiro, sabe como aquilo parece um formigueiro durante o dia, e era assim que eu estava acostumado. Nunca tinha visto o Centro como um deserto. Nem podia imaginar como seria, nem nos meus piores pesadelos. Nunca parara para pensar nisso. E agora não precisava pensar, eu estava lá, vendo exatamente como era.

O Centro estava completamente vazio, e devia ser mais de meia-noite. Muito mais. Eu estava sem relógio. Não sabia se eu estava imaginando coisas ou se realmente aquilo estava tão deserto quanto parecia. Eu ainda morava na Baixada Fluminense na época, e precisava chegar até a Central do Brasil, para pegar um outro ônibus e ir embora. Só que não passava nenhum ônibus pra me levar até a Central!

Eu nunca devia ter ido assistir ao maldito Titanic tão tarde e tão só. Eu estava no início da Avenida Rio Branco e não aparecia um maldito ônibus sequer. Então eu resolvi que ia a pé. Era melhor andar do que ficar ali parado, imaginando mil coisas. Quando eu me virei para ir embora do ponto do ônibus, passou um a toda velocidade. Eu não vi de onde veio aquele filho da puta. E não deu sequer pra tentar correr.

Não parei pra pensar nisso e continuei andando. Os prédios que de dia pareciam inofensivos, agora escondiam um ar sobrenatural. Minha garganta estava seca de tanto medo, e eu detestava aquele silêncio o qual eu nunca escutara ali no Centro. Se bem que silêncio a gente não escuta mesmo. Ah, eu não estava pensando direito mesmo. Ainda estava longe da Avenida Presidente Vargas, de onde eu seguiria reto até a Central.

Toda vez que tinha de passar entre dois prédios eu... De repente, vindo de detrás de um dos prédios alguém me agarrou e me puxou. Me deu um soco no rosto, fazendo meus óculos voarem longe. Eu tentei me desviar de qualquer outro golpe sem conseguir ver o agressor, quando levei um segundo soco no estômago. Quase vomitei, não sei por causa do soco ou por causa do medo. Fui atirado contra a parede, e senti sua mão me apertando o tórax, como se quisesse me manter longe e imóvel. Eu não conseguia ver quem era, e varria o chão tentando ver onde meus óculos caíram.

Quando vi onde estavam, tentei me livrar da mão que me empurrava contra a parede e levei outro soco no lado do rosto. Tão forte que senti o rosto ficar dormente e inchar. Enquanto a mão continuava a me empurrar contra a parede a outra vasculhava meus bolsos. Chegou a rasgar o da minha camisa. A figura nada dizia, só ofegava e tentava me manter quieto com aquela mão no meu peito, que parecia ter uma força sobre-humana.

Eu estava tremendo de medo, nervosismo e raiva. Eu não conseguia falar nada, estava começando a entrar em choque ou acho que ia desmaiar. Meu rosto parecia estar do tamanho de uma bola de futebol. Foi quando o fulano conseguiu arrancar minha carteira. Ali, na escuridão, eu notei que ele vacilou ao conseguir pegá-la. Acho que entendi, ele sabia que ia ter de me largar para ver o que tinha na carteira. Foi quando ele disse ameaçadoramente:

- É só sua imaginação, cara!

Toda vez que tinha de passar entre dois prédios eu criava toda essa situação horrível em minha mente. Quase tão real quanto se acontecesse de verdade. Eu precisava chegar rápido pelo menos à Presidente Vargas. Apertei o passo, tentando esquecer a escuridão, o silêncio, a minha imaginação. Fui andando tão rápido quanto podia. Eu, que já ando rápido sem estar com medo.

Desemboquei na Presidente Vargas, mais ampla, menos escura. Respirei fundo e fui em direção a Central. Logo cheguei e entrei no Central/Parque São Vicente. Seria uma longa jornada até em casa. Eu estava cansado. E não queria pensar em mais nada. Foi quando entraram dois assaltantes no ônibus...

... Eu balancei a cabeça fortemente, vi que no ônibus só havia eu, mais uma pessoa, o trocador e o motorista, que começava a arrancar com o ônibus. Mandei minha imaginação para a puta que pariu, encostei a cabeça no vidro e dormi.


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