quarta-feira, 14 de junho de 2006

Dias de um Futuro Distante

DIAS DE UM FUTURO DISTANTE

Acordei sobressaltado, no meio da madrugada. Tive um sonho muito esquisito, provavelmente por ter ficado lendo gibi até tarde, pra pegar no sono. Me levanto e vou ao banheiro. Acho que perdi o sono. Eu devia escrever isso, senão eu vou esquecer. É louco demais para que eu esqueça de contar a alguém. Pego a pesada máquina de escrever antiga, que ganhei do tio Gerardo e vou lá pra varanda, torcendo para que o barulho não acorde ninguém. Nossa, como faz frio. Volto e pego meu cobertor, me cubro e me preparo para escrever. O sonho foi algo mais ou menos assim...

Eu estava morando em um apartamento na Zona Sul, em Botafogo - engraçado, poucas vezes fui a Botafogo, nem gosto de lá - e estava casado. Eu não vejo minha mulher no sonho, não sei como ela é. Estou só no apartamento. Estou em um quartinho, sentado em uma cadeira dessas com rodinhas e, na minha frente, tem o que se parece com um daqueles computadores que o tio Sálvio me mostrou uma vez, só que parece ser mais sofisticado. Estou conversando com pessoas através dele. Esquisito, isso. Eu converso com elas, escrevendo na tela do computador. Estou falando sobre revistas em quadrinhos. Eu sabia que era culpa de ter lido gibi até tarde.

Forço a memória para lembrar de mais detalhes. Uma das pessoas que converso me diz que vai enviar alguns gibis pelo computador. Eu balanço a cabeça sorrindo comigo mesmo. Nossa, eu sonhei com algum tipo de paraíso onde eu não preciso pagar por gibi. A coisa vai ficando mais engraçada ainda. Eu recebo o gibi que a pessoa envia, e começo a ler página por página na própria tela. Então a pessoa do outro lado, escreve que também quer que eu envie um gibi qualquer. Eu digo para esperar que eu vou fazer.

Fazer? Vou ser desenhista de gibi? Do jeito que eu não sei desenhar uma linha reta, acho difícil. O sonho continua. Eu pego uma revista numa estante atrás de mim (agora quero ver, vou enfiar pela tela adentro?) e abro algo que está ao lado da tela do tal computador. Parece ser uma espécie de máquina de xerox muito compacta. Levanto a tampa e, no interior, ela se parece mais ainda com uma máquina de xerox, pois tem uma superfície de vidro. Eu abro a revista, mas ela não fica direito lá dentro. Parece não caber, sei lá.

Então, no sonho ainda, pareço procurar algo pela mesa. Encontro. É uma espécie de navalha. Meus Deus! Eu recorto as páginas do gibi e vou colocando uma a uma na máquina que parece de xerox! Só em sonho mesmo para eu cortar gibi. Que coisa mais louca!

Lembro agora que as páginas passavam da máquina de copiar, para o computador. O sonho adianta um pouco e já tenho a revista toda dentro do computador, sem saber exatamente como. Olho na telinha menor (sim é uma tela dentro da outra) em que converso com a outra pessoa e digo que só falta contratar...? compactuar...? concatenar...? Não lembro a palavra, só sei que faço algo que faz com que as páginas se juntem em uma coisa só e envio a revista pela pequena tela, para a pessoa do outro lado, de quem só vejo as palavras.

O sonho adianta mais ainda e eu agora estou com dezenas de revistas ao meu redor, e a maquininha de "xerox" trabalha sem parar. No computador há uma imagem... não, na verdade, várias imagens, bem definidas (não como aquelas do computador do tio Sálvio) e a imagem que mais se destaca é de um círculo onde está escrito duas letras, um R e um A. Uma sigla, obviamente, mas de que? Roedores Anônimos? Rimas Abstratas? Rodízio Amarelado?

Não sei o que tudo aquilo significa, mas me parece que não envio mais os gibis a uma só pessoa, mas sim para várias ao mesmo tempo, através daquela... coisa, com aquela sigla. Como? Aperto um botão... aliás, devo dizer que é muito estranho. O computador, no sonho, tem um troço com dois botões apenas, separado das teclas. Aperto um dos botões dele e aparecem algumas coisas escritas numa outra telinha. Reconheço que são várias pessoas pedindo mais gibis por ali, umas agradecem pelas que já foram enviadas, e junto há umas mensagens sem sentido como "Primeiro de novo", "Mais uma vez no pódio", "Amo-vos". Mas o que eu poderia esperar de um sonho desses? Coerência?

A memória começa a querer apagar o sonho, mas consigo me lembrar um pouco mais. Talvez a parte mais bizarra. Estou no apartamento, quando recebo em casa um jornal com duas páginas, frente e verso, repleto de matérias sobre o estranho processo de envio de gibis copiados por computador. Ah, isso, os gibis são copiados, agora entendi, como em uma máquina de xerox mesmo. Mas lembro que ainda ficavam coloridos. E sim, um jornal com duas páginas elogiando e... nossa, me entrevistando. Isso já não é mais sonho, é delírio mesmo.

Não consigo lembrar de muita coisa mais. Sei que sempre sonho com gibis, isso há um bom tempo. Mas, geralmente, sonho que estou em um sebo ou banca de jornal vendo alguma revista que não posso comprar. Esse, com certeza foi o mais estranho de todos. No caso, eu não precisaria mais trocar gibi com ninguém? Só os copiaria e os mandaria pelo computador? Nem posso imaginar como seria feito isso. Entraria no computador e a revista viajaria até a outra pessoa pelo ar? Por fio de telefone? Antena UHF? Não faço idéia.

- Eudi, o que tu tá fazendo aí nesse frio a essa hora da madrugada?! - Ah, minha mãe.
- Nada mãe, fiquei com insônia. Já vou dormir.
- É bom mesmo.

Eu guardo a máquina de escrever, e o texto eu coloco na estante. Tudo isso me deu fome. Vou até a geladeira ver se tem algo pra comer. Quando abro só vejo um pedaço de rapadura que a mãe trouxe de viagem. Mas... hmm... RA de rapadura? Que besteira! As duas letras não começam uma palavra. Tenho certeza que são uma sigla. Ademais, quem seria tão idiota a ponto de colocar o nome de alguma coisa de "Rapadura"?

Começo a ter um ataque de riso.


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