domingo, 4 de junho de 2006

Aqueles Olhos

AQUELES OLHOS

Olhos tristes. Era uma tristeza tão grande que não pude deixar de notar. Havia um silêncio em seus lábios que dizia muito mais que qualquer palavra sobre sua tristeza. Eu estava sentado um pouco mais distante, e ela estava ali à minha frente, apenas triste. Seu namorado, ou o quer que fosse estava de costas para mim, e olhava para o lado, como se procurasse fugir de seus olhos tristes, de sua boca muda, de seus cabelos negros. Eu me perguntava o que faria alguém abandonar alguém tão.... tão... expressiva.

Eu podia enxergar em seus olhos que ela fora abandonada. As dezenas de pessoas em volta continuavam suas vidas, conversavam, sorriam, falavam alto. Mesmo assim, mesmo com todo aquela enchente de vozes à minha volta, no rosto dela, o mundo parecia silencioso. Sua pele clara, seu cabelo negro, eram a imagem de uma história que chegara ao final.

Quando um amigo dos dois sentou-se ao lado deles, começou a conversar e a fazer algumas piadas, pelo que entendi ele não percebeu nada que estava se passando. Não ouviu o silêncio. Ela sorria, para disfarçar sua dor, sua tristeza. Um sorriso que se misturava à sua angústia.

Seu parceiro, o que deixara seu rosto triste, continuava sem olhá-la de volta nos olhos. Talvez não quisesse se perder na profundeza deles, como eu acabei me perdendo. De fora eu, agora, parecia saber mais sobre ela, do que ela mesma. Por poucos segundos, seus olhos se encontraram com os meus e eu não desviei, não fugi. Deixei-a entender que eu sabia. Tampouco ela desviou de meu olhar.

Alguém esbarrou na minha cadeira e eu me distraí um momento. Eu esbarrei numa tecla do laptop e, sem querer, apaguei o texto. Eu a perdi. Perdi para sempre. Na minha frente não havia mais uma princesa de olhos tristes. Apenas uma tela em branco e um cursor piscando. Tomei um gole do café. Quem estava triste agora era eu. Não conseguiria mais reescrever tudo novamente.

Na cadeira em frente não havia mais ninguém. Na tela do notebook também não. Passei a mão nos cabelos nervosamente. Terminei o café, fechei meu laptop. Desisti de tantar escrever qualquer texto que fosse para o blog. Talvez eu apenas coloque as HQs e nada mais.

Num susto notei que havia esquecido minha carteira lá na mesa. Subi correndo pela outra escada rolante. O coração saindo pela boca. A carteira estava no mesmo lugar. Olhei dentro pra ver se estava tudo em ordem e notei que havia um pedaço de papel rasgado, que eu não lembrava de ter estado ali antes. Abri, com a respiração ofegante e li:

"Meu bem, não esqueça de trazer pão e leite quando voltar".

Suspirei e fui embora em direção à padaria.


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