sábado, 24 de junho de 2006

A Garota Mais Bonita

A GAROTA MAIS BONITA DA CIDADE


Os dois se aproximaram do cemitério, e estavam decididos a levar a aposta adiante, por mais que suas pernas discordassem disso. Eles se consideravam corajosos e, se fosse uma noite como outra qualquer, provavelmente eles não teriam problema nenhum em estar ali, no cemitério, quase à meia-noite. Mas aquela não era uma noite qualquer.

Durante o dia, acontecera o enterro de Geiza, a menina mais bonita que os dois já conheceram. Quer dizer, conheceram é maneira de dizer. Eles nunca nem sequer trocaram um bom dia com ela, mas sempre a viam andando pela cidade, naquele seu jeito, como dizer, leve de andar. Geiza parecia sempre vestir roupas brancas, pelo menos era o que eles dois percebiam. E nunca era vista com nenhum namorado. Morava sozinha, com a avó, num canto mais retirado, numa casa que, o povo dizia, era mal-assombrada.

Geiza tinha uns traços quase orientais que, ao que parece, eram herdados da mãe que nunca conhecera, nem tampouco as pessoas da cidade. O pai morrera quando ela tinha 10 anos e ela foi morar ali, com a avó. As duas moravam lá, sem perturbar ninguém, até que a velha aparecera na cidade, coberta de sangue, dizendo coisas sem sentido, até que entenderam que a sua neta, Geiza, havia sido morta, na velha casa em que as duas moravam. A garota mais bonita da cidade, com seus cabelos negros, um pouco curtos, que franzia o nariz ao sorrir para as pessoas, agora estava morta.

Alguns homens acompanharam a avó até a casa, e os dois, de gaiatos que eram, conseguiram ir junto, pois na confusão, ninguém notara os dois, ou estavam preocupados demais para se importarem com eles. Quando lá chegaram, e abriram a porta, a coisa toda não era bonita de se ver. A garota mais linda tivera uma morte horrível. Quando os dois tentaram olhar lá dentro, levaram um safanão, e foram mandados embora.

Ficaram sabendo depois que tiveram de juntar pedaços dela, e que quase não sobrou nada para o enterro. Por mais que perguntassem a avó o que havia acontecido ela, que já não era muito boa da cabeça, dizia coisas que não faziam o mínimo sentido: "Botes, cataram, pelizorentes, marca, sorenes, sorenes, quer, levaram Geiza, levaram Geiza, levaram... Geiza!".

As autoridades desistiram, e apenas providenciaram que internassem a velha. E, também, a cidade se mobilizou para que o enterro de Geiza acontecesse. Foi tudo muito bem organizado. Os cidadãos recolheram doações e o enterro acontecera naquela tarde. E agora era noite. A noite após o enterro de Geiza. A garota mais bonita da cidade.

Os dois começaram com uma conversa besta de quem seria corajoso suficiente para ir ao cemitério e e ir até a cova de Geiza, uma garota que morrera de forma estranha, numa casa que era considerada mal-assombrada, e sem nenhuma pista do que acontecera. Era apenas brincadeira, mas acabou que nenhum dos dois queria dar o braço a torcer de que não teria coragem. E foram. E estavam ali agora.

Conforme combinaram, tirariam cara ou coroa, para ver quem iria primeiro. Enquanto o outro esperaria lá fora a sua vez. A prova de que estivera lá, seria trazer alguma das flores do túmulo que, com certeza, era as únicas mais frescas do cemitério.

E assim foi, deu coroa e um deles, tentando manter a pose de coragem, adentrou o cemitério. Os barulhos, que antes ele nem notava, agora pareciam estar em todo lugar, e os mais fantasmagóricos possíveis. Mas ele não podia parar, não podia perder a aposta. Era aquilo, ou colocar um vestido, se maquiar e dançar forró com o Tião, no meio da pracinha.

Ele já estava chegando. Nunca vira uma noite tão escura, mesmo assim avistou as flores no túmulo. As pernas pareciam de manteiga, e ele começou a sentir uma vontade desgraçada de mijar. Graças a Deus ele já estava quase terminando aquilo. Pegou uma das flores... ah, melhor pegar mais de uma, pra garantir. Quando se virou para ir embora, ele só viu aquele rosto quase colado ao seu, dando aquele sorriso e franzindo o nariz. Ele sentiu o líquido quente descer por suas pernas, molhando seu short.

... ... ... ...

- Acorda, cara! Vamos se mandar daqui. Merda! Acorda
- Hã! Geiza...?
- Que Geiza o quê? Eu fiquei com um medo desgraçado de ficar lá fora sozinho. Você tava demorando, eu vim atrás. Quando ia falar você se virou, olhou pra mim, se mijou e desmaiou. Mas eu to com tanto medo de continuar aqui que nem vou te sacanear por isso. Vambora!
- Era a Geiza, cara! Eu vi.
- Tá, seja o que você quiser, agora levanta dessa poça de mijo e vambora.


Quando ele se levantou, os dois ouviram uma risadinha feminina. Pararam no mesmo lugar. A respiração quase parando. Se eles pudessem se ver, achariam suas poses ridículas. Os dois meio acocorados, com as mãos espalmadas para a frente, olhando ao redor sem mexer o corpo. Esperando que acontecesse alguma coisa.

Então ouviram a risadinha de novo. Daquelas em que a garota coloca a mão sobre a boca timidamente. Mas naquele lugar aquilo era tudo, menos bonitinho.

Queriam correr, mas as pernas pareciam travadas. A risadinha de novo. Mais perto. Eles estavam de costas para o túmulo de Geiza e, mesmo sabendo o que os esperava, olharam para trás. E, sim, ela estava lá, sentada sobre o túmulo, com um daqueles vestidos brancos que costumava usar.

- Vocês são bobos, garotos. Vê se não vão correr, ou vocês nunca vão saber o que aconteceu comigo. - Disse Geiza, através um sorriso deformado , metade do lado da cabeça faltando, todo o seu interior à vista, pelo vestido rasgado, e segurando uma machadinha que tinha pedaços de carne, sangue, e cabelo colados nela.

Ela deu a risadinha de novo.

E eles correram. Correram mais do que suas pernas podiam. Mais do que sabiam que podiam correr. E nunca mais voltaram àquele cemitério. Na verdade, nunca mais voltaram àquela cidade.

Tião está esperando até hoje para dançar um forró com um de seus amigos vestido de mulher.


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