sexta-feira, 2 de junho de 2006

Memórias a Mais

MEMÓRIAS A MAIS


Saio para o sol da manhã e me espreguiço. Passo pela rede pendurada no quintal, abro o portão e fico a observar a rua lá embaixo. Sempre tão quieta. Bocejo e me espreguiço novamente. O sol parece querer me empurrar de volta para o meu sofá. Mas eu não estou mais a fim de dormir. Os passarinhos fazem a festa na cumbuca de água com açucar que, pelo jeito, minha mãe deixara antes de sair. Pareciam estar loucos. Calma, pessoal, tem água pra todo mundo. Mas não adianta muito ponderar com eles.

Sinto que eu também preciso beber algo. Vou até a cozinha, pego café na garrafa térmica e volto para onde eu estava. Sento na beirada do primeiro degrau da escada que dá para a rua. Murdock se senta ao meu lado. Ah, Murdock é nosso cão. Na verdade ele era dos vizinhos, mas eles o ignoraram depois que eles cresceu e, então, ele se refugiou aqui. O nome veio com ele. Murdock. Nunca consegui entender porque deram esse nome a ele. Ninguém ali é fã de quandrinhos e não acredito que alguém tenha se lembrado do Esquadrão Classe A. É um bom cão.

Sentado ali, tomando café, com Murdock ao lado, deixo a mente viajar um pouco. Divagar e devagar. Vou me lembrando de tanta coisa que já aconteceu desde que moro aqui, desde que me entendo por gente. Olho para Murdock e lembro que ele é o último de uma "linhagem" de cães que tivemos, que aqui apareceram, assim como ele. E gatos. Sim, gatos também. Sorrio sozinho ao lembrar que minha mãe deu nome de Naninha a pelo menos uns três gatos diferentes. Um após o outros. Mesmo sendo todos machos.

Gosto dessa casa, desse canto do mundo. Por um instante lembro de meu pai. Tento lembrar dele aqui, mas não consigo. Não houve tempo de se criar tantas lembranças com ele aqui. Lembro mais de meu avô, na época que ele morou aqui, na nossa casa, com a família, e nós moramos em uma pequena que ficava lá atrás. Meu avô me ensinou a andar de bicicleta, um dos meus tios me ensinou a ver as horas, minhas tias me ensinaram a ler e a gostar de quadrinhos. Meu pai... meu pai não me ensinou nada.

Droga, não quero pensar nisso. Estragar a manhã. Me levanto e vou até o pézinho de erva cidreira que minha mãe cultiva com carinho. Estranho como não gosto de nenhum tipo de chá, muito menos de erva cidreira, mas o cheiro das folhas é delicioso. Aliás, isso aqui é quase uma farmácia: erva cidreira para... para o quê mesmo? Não lembro agora; boldo ali mais adiante, para problemas intestinais, se é que vocês me entendem e uma arvorezinha de romã; romã é para dor de garganta. "Vai menino, 'gagureja' isso!". Quantas vezes já ouvi isso?

Chego um pouco para trás, para olhar o morro que fica atrás da casa. Íngreme. Quantas vezes eu, meu irmão e minhas duas irmãs subimos até lá, até aquela pedra enorme que fica no topo dele, e lá nos sentamos, sentindo a ventania que nos açoita lá em cima. Por mais cansativo que fosse, por mais que nos machucássemos, não importava, éramos crianças, queriamos estar sempre no topo. Lá de cima podemos ver o "mundo". Num dia limpo, se apertarmos bem os olhos podemos ver o Cristo Redentor bem pequenininho, e olha que estamos a quilômetros dele. Hoje em dia não fazemos mais isso. Somos adultos, agora. Murdock boceja e me olha de um jeito engraçado.

Deixo a mente vaguear mais e me pego lembrando em como essa casa, esse terreno, esse pedaço do mundo já foi abrigo pra tanta gente: meus avós, tios, pessoas que chegaram ao Rio de Janeiro vindo de todos os lugares e não tinham como pagar o aluguel que era cobrado por aí. Olhando para trás vejo que perco a conta dos casais, com ou sem filhos, que moraram ou aqui em casa, ou fizeram uma moradia aqui mesmo no terreno, e lembro como nem todos foram tão gratos. Mas de alguns sinto saudades. Somente agora, relembrando, vejo que minha mãe deveria ganhar algum tipo de medalha ou algo assim.

Me aproximo do muro e o toco, como se tentasse absorver as lembranças deste lugar. Correr, brincar, se machucar, chorar esperando minha mãe chegar do trabalho, brigar com o irmão ou as irmãs, rir com eles, chorar de rir, construir brinquedos de barro, fogueiras, se queimar, pular, cair, acordar, ir trabalhar, voltar, conversar, aprender, aprender, aprender. O latido de Murdock me desperta. Minha mãe chegou:

- Quê que tu tá fazendo? Segurando o muro pra não cair?

- Ré ré! Não, tava tentando empurrar ele mais pra trás.

- Besta! Já tomou café?

- Hmmm! Já que a senhora insiste tanto, eu tomo mais uns três copos.

Ela faz cara feia por eu tomar tanto café, eu a abraço e entramos para esse lugar de tantas lembranças. Esse canto do mundo.

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