terça-feira, 4 de julho de 2006

Chuvas de Abril

CHUVAS DE ABRIL


... encontrei uma enxada e ia usá-la, de qualquer maneira, para pular a cerca de arame farpado. Chovia muito e o chão era uma lama imunda. Eu provavelmente ia escorregar e não conseguiria saltar, mas eu tinha de tentar ao menos. Escorregar era o menor dos meus problemas. Eu precisava pular a cerca sem acertar o arame farpado.

Eu estava tão ensopado, que minhas roupas pesavam. Por mais frio que eu sentisse - pois a chuva era gelada - e por mais molhado que eu estivesse, eu sabia que estava suando, também. Eu sentia o gosto, na boca, da água da chuva, misturada ao meu suor e às minhas lágrimas. Mas eu não podia esperar muito. Eu poderia ser descoberto a qualquer momento. Eu tinha de pular.

A cerca nem era tão alta, mas a chuva estava tão intensa, e aumentando cada vez mais, que fazia a coisa parecer mais difícil do que era. Não dava para passar entre o arame, pois não havia espaço entre eles. Pular era possível, e era minha única chance, já que a saída ficava do outro lado e, com certeza, eu não conseguiria chegar lá sem ser notado.

O galo na minha cabeça ainda doía. Bateram na minha cabeça com tanta força que eu desmaiei na hora. Quando acordei, não entendi porra nenhuma. Eu estava trancado num cubículo que mal me cabia sentado. Nem esticar as pernas eu podia. Parecia uma espécie de armário, mas não era. Eu não sabia porque estava ali. Me sequestrar pra quê? Mais duro que pau de tarado. Dava pra ver isso só no meu jeito de vestir.

Eu estava sem meu relógio e não sabia quantas horas se passaram até que alguém abriu uma portinhola acima de mim, e me jogou um pedaço de pão. Tentei gritar para a pessoa que jogou mas, estranhamente, estava sem voz. Era a primeira vez que percebia aquilo. Eu estava sem voz. Isso acontecia quando eu ficava nervoso demais. E, com certeza, eu estava bem nervoso. Achei melhor comer o pão, e esperar para ver o que ia acontecer.

O tempo foi passando e o sono foi chegando. Não sei por quanto tempo eu dormi, mas só serviu para eu acordar todo dolorido, por dormir naquela posição incômoda. Me sentia péssimo. A meus pés havia mais dois pedaços de pão. Tentei falar alguma coisa em voz alta e saiu apenas um sussurro. E mesmo assim era necessário muito esforço.

Senti que já haviam se passado uns dois dias - ou seria mais - eu não sabia ainda porque estava ali. Ninguém aparecia, a não ser o pão que jogavam. Eu estava de saco cheio de comer pão. Foi quando começou a chover.

O chão que eu me sentava era de terra batida, e a água começou a penetrar. O lugar onde eu estava era feito de madeira. Quase como um caixote. A chuva lá fora aumentava e se transformou em uma tempestade. Eu estava com os fundilhos todo molhado, devido a água que penetrava pelas tábuas. Resolvi que era hora de tentar escapar, empurrando as tábuas molhadas com as costas. Empurrei a "parede" da frente com os pés com toda a força. Quando achei que ia fazer um esforço tremendo, a parede de madeira atrás de mim quebrou como se estivesse podre.

Rolei sem direção uma ribanceira toda enlameada, sem conseguir me segurar pra parar. Rolava, escorregava, me enlameava. Parei lá embaixo com a roupa suja de lama, mas que a chuva, de tão pesada, já ia limpando. Olhei para o alto, de onde rolei, e havia um casebre menor que um banheiro, com um rombo na traseira. Desgraça! A droga da madeira estava podre o tempo todo.

Olhei em volta e uma desgraça de uma cerca estava em volta de toda a área. Subi a ribanceira de que rolei, com muita dificuldade, e vi que havia uma saída lá na frente, só que vigiada, claro. Pela primeira vez eu via uma pessoa naquele lugar terrível. Estava em pé, com uma capa de chuva preta, observando a saída, como se esperasse alguém. Desci a ribanceira, escorregando, até voltar ao lugar onde eu estava. Foi quando eu vi a enxada e tive a idéia maluca de pular a cerca com ela.

A chuva estava constante ainda, mesmo que tivesse diminuído. Eu só pensava em como ia saltar a cerca usando a enxada como alavanca. O cabo era mais longo que o comum. A chuva diminuiu mais e vi que era a hora de fazer o que tinha de ser feito. A distância era boa. Peguei a enxada e a segurei como quem vai fazer um salto com vara. A parte de baixo dela poderia me atrapalhar, mas não podia pensar nisso. Eu tinha de sair dali.

Corri na lama, me esforçando pra não escorregar. Apoiei a enxada no chão, empulsionando o corpo por cima da cerca. Parecia que eu ia conseguir sem problemas, quando senti a cerca rasgar a parte de trás de minha calça e perna esquerda. Senti como se minha perna queimasse, e caí do outro lado, machucando o ombro e o braço direito. Fiquei deitado na lama, tentando aguentar as dores da perna e do braço, que parecia estar quebrado.

Quando tentava me levantar, uma mão agarrou meu braço que estava bom, e me colocou em pé, com uma facilidade incrível. Era o cara da capa de chuva que estava vigiando a entrada. Eu não conseguia ver seu rosto direito, pois o capuz da capa de chuva o cobria. E ele usava óculos, que estavam embaçados devido à chuva. Eu não sabia o que fazer, estava tudo perdido.

- Eu já ia te soltar, cara. Nós te pegamos por engano. Como você não viu ninguém, é só seguir por aqui e ir embora. Foi mal aí. - Disse o desgraçado com um sorriso indecifrável.

Eu sentia dores horríveis. Minha perna sangrava e eu segurava meu braço direito contra o corpo. As lágrimas se misturavam à chuva. Eu tinham lama por todos os poros. Eu olhava aquela figura de capuz e com aqueles óculos redondos, ridículos, e meu sangue fervia. Olhei para o chão e via e enxada sem o cabo, embaixo da cerca que eu acabara de pular. Me abaixei, todo ruim, pra pegar.

- Que cê tá fazendo, cara? - Perguntou o idiota da capa de chuva.

- Vou... vou levar de lembrança, posso? - minha voz tinha voltado.

- Cê que sabe. Agora se manda, que é melhor.

Quando me abaixei, peguei a enxada, sem o cabo, e ao me levantar, joguei meu corpo contra o desgraçado, que caiu na hora. Ele meteu a mão no bolso da capa de chuva e percebi na hora que ele ia puxar uma arma. Não dei tempo, levantei a enxada alto e acertei sua garganta, por cima da capa mesmo. Ela parecia bem afiada, pois passou rasgando plástico e garganta de uma vez só. O sangue espirrou e escorreu para a lama.

Percebi que a mão dele ainda estava no bolso. Puxei e segurava o que parecia um cartão de aniversário, ou algo assim, não uma arma. Aquilo me revirou um pouco o estômago. Tirei o cartão da mão e li: "Primeiro de Abril! demorou, mas você caiu, Carlos."

A chuva agora era só um sereno. Fiquei ali parado com o cartão - que estava protegido por um plástico - por um bom tempo. Olhei para o cara morto ali no chão, ainda de capuz e óculos e suspirei. Peguei o cabo da enxada, arranquei a enxada do pescoço dele, e não quis ver quem estava por trás do capuz da capa de chuva e dos óculos. Não havia porquê. Então, fui embora.

Afinal, meu nome é Arinaldo.

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