quarta-feira, 26 de julho de 2006

Gostas de Chuva

GOTAS DE CHUVA NÃO PODEM ME MACHUCAR


Desde que me tornei super-herói tenho visto as coisas, literalmente, de outro ângulo. Desde que aquela fissura dimensional se abriu e todos os átomos de meu corpo foram reconfigurados, e eu ganhei poderes inimagináveis, desde então, eu tenho vivido quase como um deus, e isso me coloca, às vezes, às portas da loucura. Principalmente quando descubro que, apesar disso tudo, eu não sou, nem nunca serei um deus. Minha superforça, por mais ilimitada que pareça, ainda mostra as minhas fraquezas e transparece quem eu realmente sou. Um ser humano.

Quando voei pela primeira vez, além da atmosfera terrestre, senti o frio do espaço sideral e vi que a Terra, à distância, parecia ser um paradigma de minha vida comum, sempre distante daqueles a quem eu realmente deveria salvar, os que sabem quem eu sou, e como sou. Na minha identidade secreta, não escondo apenas meu alter-ego superpoderoso, mas tudo que sempre escondi em minha vida, meus medos, preconceitos e falta de capacidade de lidar com minhas emoções. Posso voar à velocidade do som, mas não consigo escapar dos traumas que carrego comigo. Posso enxergar a estrutura atômica de qualquer tipo de matéria, mas às vezes, não vejo o óbvio ululante à minha frente. Salvo o mundo, mas ainda machuco pessoas.

Os supervilões não são nada comparados aos fantasmas que carrego comigo, para onde quer que eu vá. E nem todas as medalhas do mundo conseguem cobrir as minhas derrotas. O espírito humano é nobre em primeira instância, e eu sempre vou lutar pela justiça e pela liberdade, enquanto meus poderes assim o permitirem, mas nada que eu fizer, mudará aquilo que alguns parecem se empenhar em construir, um mundo em pedaços, dilacerado de ponta a ponta por guerras e corrupção. Às vezes me engano, ou apenas sou enganado, pois posso enxergar até mesmo através do chumbo, mas não sei discernir o que se passa no coração humano. Mesmo podendo ler os pensamentos de cada um deles, quando necessário, ainda assim, o mal parece sempre saber se dissimular, e ninguém está livre de ser atingido por ele.

Quando eu ainda era um novato neste mundo de super-poderes, e nem mesmo acreditava que me acostumaria a usar este uniforme que parecia tão ridículo à primeira vista, eu acreditava que poderia salvar o mundo, no sentido mais amplo da palavra. Mas com o tempo, descobri que sou apenas mais uma peça num planeta que tende a seguir suas próprias tendências, sua própria evolução. Posso desviar meteroros, mas não mudar o curso da humanidade e de sua História. Faço parte dela, não sou maior que ela, por mais poderes que eu tenha.

Sinto a chuva me ensopar o uniforme, mas não quero sair daqui. Quero ficar e pensar. Talvez eu encontre uma resposta, talvez eu encontre algo em meio às poças que se formam a minha volta que me dê a resposta para todas as minhas perguntas e que me digam em alto e bom som porque as coisas acontecem como acontecem. Mas eu não posso ficar. Tenho trabalho fazer. Mesmo que meus olhos ardam com as lágrimas que se misturam à chuva, tenho que me levantar e fazer o que posso, já que não cheguei cedo o bastante para fazer o que eu queria.

Tenho de enterrar essas pessoas mortas.



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