terça-feira, 25 de julho de 2006

Jerusalem Jones e a Tempestade

JERUSALEM JONES - TEMPESTADE


Jerusalem Jones acordou, como se saísse de um poço de areia movediça. Olhou para o lado, na cama, e fez uma careta. Era sempre assim quando ele bebia demais, acabava na cama com uma mulher que poderia muito bem sair no tapa com um urso... e vencer.

Procurou, então, sair de fininho, mas o barulho do ronco era tão alto, que ele nem mesmo precisou de muito esforço. Tremia ao imaginar o que ele teria feito para que ela dormisse com tanta satisfação e com aquele sorriso - onde faltavam vários dentes - estampado na cara. Jerusalem espantou esses pensamentos da cabeça e resolveu ir embora. Estava no bordel que sempre frequentava e, se acabara com aquilo lá na cama, devia ser mais uma peça que Betina, a dona do local, lhe pregara. Ela adorava fazer esse tipo de coisa com ele.

Quando desceu as escadas, as poucas garotas que já estavam acordadas ficaram dando risinhos e cochichando entre si. Ele procurou não dar atenção e foi ao bar, pedindo alguma bebida, para curar a ressaca. Betina estava servindo, e apenas sorriu para Jerusalem, como quem dizia que ele mereceu tudo pelo que passou. Depois de beber, mandou pendurar - coisa com que Betina já estava acostumada - e saiu.

Jerusalem tinha alguns negócios em Battle City, e estava querendo apenas resolvê-los, pegar a grana e se deitar com a mulher mais gostosa que ele conseguisse, para pode esquecer de vez o episódio desta noite. Montou em seu cavalo e foi em direção ao norte à toda velocidade, mesmo com sua cabeça explodindo devido à ressaca.

Viajaria de dia mesmo, sem paradas e sem esperar que a noite chegasse, pois os últimos acontecimentos, lá no deserto, ainda estavam frescos em sua mente. Rezava - sabe-se lá para quem - para que nada de estranho acontecesse desta vez. Mas, parece que seus pedidos não iam ser atendidos, pois uma tempestade parecia estar se formando, e era das grandes. Ele tinha de se apressar. Já bastava a dor de cabeça, ficar ensopado seria mais uma coisa para irritá-lo.

Jerusalem Jones cavalgava e sentia que a tempestade que iria desabar a qualquer momento, adquiria um aspecto muito estranho. O céu estava ficando num tom meio avermelhado, e os relâmpagos parecia emitir um som estranhíssimo, como o de metal sendo raspado por metal. Aquilo estava deixando-o louco. Chegou a pensar se não era coisa de sua imaginação, ou simplesmente da ressaca que ainda não estava curada.

Olhou para trás e a cidade de onde acabara de sair estava com o céu límpido sobre ela. Aquilo quase o fez cair do cavalo. Jerusalem Jones começou a pensar se ele não atraía esse tipo de coisa. Sua mente vagueou e começou a lembrar de quando era garoto e presenciava as coisas mais estranhas, ou simplesmente estava no meio delas. Lembrou de quando sua mãe saiu correndo para fazer o parto de Patty O'Malley e ele foi junto. Quando chegaram por lá, era tarde demais, a criança já havia nascido. Ou melhor, algo havia nascido. Aos pés de Joe O'Malley estava algo que parecia ter saído do próprio inferno, com um ancinho fincado no meio do peito. Ele vomitou tanto nesse dia, que parecia que ia colocar as tripas para fora. Alguns dias depois, Patty e Joe se suicidaram.

Um relâmpago mais forte faz com que o cavalo de Jerusalem quase o derrubasse. Assim, ele acha que o melhor a fazer é parar por ali e procurar um abrigo. Logo encontrou uma caverna não muito funda , na qual entrou e colocou seu cavalo. A chuva começou a cair forte logo em seguida. parecia que o mundo estava ganhando outro dilúvio. Foi quando Jerusalem escutou um som de explosão. Olhou na direção do som e viu, ao longe, uma bola de fogo se formando no deserto, em meio a tempestade que caía.


Era uma explosão, obviamente, mas uma que Jerusalem nunca tinha visto. A chuva foi diminuindo e a curiosidade de Jerusalem Jones aumentando. Logo ele se pôs a cavalgar na direção de onde ele avistou a bola de fogo. Jerusalem se sentia estranhamente vivo. Cavalgava com rapidez e logo pôde ver escombros de algo que ele, tinha certeza, nunca vira por aquelas bandas antes. Quando se aproximou mais, viu algo bem estranho. Um homem com roupas estranhas vinha em sua direção, usando algo como bengala, pois lhe faltava uma perna. Aliás, ele tinha feito um torniquete bem esquisito nela. Jerusalem vendo o homem naquele estado sabia que não precisava temê-lo, assim pensava ele. Quando este chegou mais perto, começou a falar como um louco:
.
- A explosão... o laboratório... a tempestade! Um vórtex temporal. Criou um vórtex temporal. Em que ano estou... em que ano estou. Você é um cowboy? Estou no Velho Oeste? Em que ano estou? A tempestade criou um vórtex temporal e a explosão me lançou para o passado, junto com tudo mais. Eu consegui escapar dela.... consegui escapar dela... dela...

- Hmmm... é... dela quem, meu camaradinha? - Perguntou Jerusalem, sem ter certeza se queria mesmo saber.

Então, o homem apontou para adiante e disse:

- Tanya!!!

Jerusalem olhou e viu uma mulher com uma roupa parecida com a do homem, com sangue na boca, parada a alguns metros deles. Dava para ver que ela não era uma mulher comum. Jerusalem lembrou do bebê dos O'Malley e seus estômago embrulhou.

Ela olhava para eles dois, e respirava como se estivesse cansada. Parecia estar tomando uma decisão. Ela olhou para longe, na direção da cidade que, na verdade, não dava mais para ser vista dali de onde estavam, mas ela estava olhando na direção correta. Ela cheirou o ar, soltou uns grunhidos horrendos e, de repente, começou a correr na direção da cidade.

- O que é aquilo e o que ela está fazendo, meu camaradinha? - Perguntou Jerusalem Jones ao estranho.

- E-ela... ela... está com ... cof, cof... ela está com fome!

E, dizendo isso, o estranho desabou na lama. Parecia estar morto por perda de sangue. Jerusalem olhou a coisa correndo na direção da cidade, como ele nunca vira algo correr. Provavelmente corria mais que seu cavalo. A chuva já havia parado por completo. Jerusalem olhou para a perna do estranho, e entendeu como ele a perdeu. E entendeu também o que ia acontecer na cidade.

Foi nessa hora que ele sentiu o que devia fazer... e fez. Esporou seu cavalo e saiu galopando a toda, na direção contrária.


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