sexta-feira, 28 de julho de 2006

Meu Nome é Jerusalem Jones

MEU NOME É JERUSALEM JONES


Jerusalem Jones estava lavando o rosto à beira de um rio, e sua mente começou a vaguear para o passado, quando era um garoto ainda. Lembrou de quando perguntou ao seu pai por que diabos ele escolhera esse nome, Jerusalem. Shamus respirou fundo, sentado à mesa, descansando depois de trabalhar muito na construção de uma nova ferrovia. Ganhava uma miséria, mas era o que tinha para sustentar seu filho e sua mulher. Suspirou fundo mais uma vez. Shamus McMurray Jones tinha essa mania. Como isso habitualmente era sempre logo após a alguma pergunta, Jerusalem suspeitava que ele estava apenas ganhando tempo.

"Meu filho", começou ele, "quando você nasceu, foi um verdadeiro milagre na Terra. Sua mãE e eu não tínhamos mais esperança de ter filhos, pois a gente vinha tentando há muito tempo, e nada de a gente ter nosso herdeiro, ou mesmo herdeira, eu não era exigente. Então, uma noite, antes de sua mãe e eu trep... nos deitarmos pra fazer amor - como já te expliquei antes, aquela história das abelhinha - eu fiz uma promessa pra Deus. Na minha promessa eu disse que se a gente tivesse um bebê, eu daria o nome a ele, da Terra Santa, Jerusalem.

"No dia seguinte, quando eu fui trabalhar, um homem que eu nunca vi na cidade, começou a me acompanhar. Ele tinha uma roupa bonita, branca, uns revólver reluzente, parecia de prata. Eu não entendia como a roupa dele conseguia ser tão branquinha nesse lugar tão poeirento. Eu quase perguntei que sabão que ele usava pra deixar a roupa com aquele branco radiante. Ele foi puxando conversa, e do nada, ele disse que a Beth tava prenha. Eu saltei pro lado e agarrei o colarinho dele, perguntando logo o que diabos ele tava querendo dizer com aquilo. Daí, ele segurou minha mão e disse para eu ficar calmo, que minhas preces iam ser atendidas e eu ia ganhar um garoto forte e sadio. E seu nome seria Jerusalem. Jerusalem McMurray Jones.

"Quando ele falou aquilo eu quase caí pra trás. O troço devia ser algum tipo de coisa divina, sei lá. Um anjo, querubim, ou outra coisa dessas que o padre Caffey falava nas missa. Só sei que depois disso eu prestei mais atenção no que ele dizia. Ele disse que meu filho ia ser grande e que eu escolhera bem o seu nome. Que ele ia ser lembrado pelos seus feitos, e os Jones iam se orgulhar de serem lembrados através dele. E depois de dizer isso, ele tirou aquele chapéu dele, branco que nem neve, fez um cumprimento, eu senti o sol me ofuscar, e ele sumiu. Nove meses depois você nasceu."

Jerusalem Jones olhou para o pai, deu uma fungada, e ficou em silêncio alguns segundos. Tomou um gole de seu café que tinha esfriado, enquanto ele escutava a história que seu pai contara. Shamus olhava para Jerusalem com uma cara engraçada e, então, Jerusalem disse: "Pai, fala sério, poxa!" Shamus deu uma gargalhada, daquelas que só ele sabia dar, bateu na perna, e disse, "tá certo, tá certo, tu é danado de esperto, garoto. Você é meu filho mesmo! Pra dizer a verdade, quando você nasceu, tua mãe queria te chamar de Jerome. Eu disse, tudo bem. Ela não podia levantar ainda, pra ir ao cartório comigo, então eu te peguei, e fui te registrar. Só que no caminho eu parei para te mostrar pros amigos, e conversa vai, conversa vem, eu tomei umas e outras, e cheguei ao cartório, digamos, em um estado meio interessante", e dizendo isso, gargalhou de novo, e bateu na perna, "então, eu... como vou dizer isso, eu esqueci o nome que sua mãe falou. Eu só sabia que começava com J, mais nada.

"Eu esperei pra ser o último. Deixava todo mundo passar, pra poder lembrar o raio do teu nome, mas não conseguia. O tabelião me chamou, e eu fui, sem saber que nome que eu ia te dar. Eu estava sem saber o que fazer. Pra tentar a sorte, eu perguntei qual era o nome dele, do tabelião. Ele disse que era David. Eu fiz uma cara feia, que acho que ele percebeu. Mas aí eu pensei, 'David?! Rei dos Judeus?! Cidade Santa?! Jerusalem! Era esse o nome que A Beth falou. Eu tinha toda certeza do mundo. E, depois de um pequeno arroto, eu disse "Jerusalem McMurray Jones, pode escrever aí.

"Quando cheguei em casa, ainda sob efeito da maldita, sua mãe te pegou do meu colo, colocou no berço com cuidado. Depois, mesmo não estando muito bem, ela jogou quase tudo que tinha na casa em cima de mim. Minha sorte é que a gente sempre teve pouca coisa.

"Com o tempo ela me perdoou, mas só te chama de Jerry até hoje, como você bem sabe. Eu prefiro Jerusalem Jones, acabou ficando bonitão, né não, meu filho?"

Jerusalem sorriu, afinal era impossível levar seu pai a sério. Ele era um homem honesto e trabalhador, que gostava de tomar umas e outras de vez em quando. Nunca fez mal a ninguém. Jerusalem enxugou o rosto, e viu o mesmo refletido nas águas que corriam na direção de Terence Falls City, a qual ele dera as costas, depis que viu aquela aberração indo na direção dela. Aquela... Tanya.

Jerusalem pensava nisto a dois dias. Para desencargo de consciência ele relatou o caso ao xerife de Battle City que, é claro, riu na sua cara. Jerusalem não era muito digno de crédito por aquelas bandas, ainda mais contando uma história daquelas. Quem iria acreditar em explosões após tempestades esquisitas, e em uma mulher que comeu a perna de um estranho que saiu do centro da tal explosão. Quem iria acreditar que ela, provavelmente corria mais que um cavalo. Ele sentiu que, pelo menos essa parte, ele devia ter omitido.

Nesses dois dias ele só pensava em Betina e nas garotas do bordel, as únicas pessoas que valiam alguma coisa naquela cidade inteira. Jerusalem podia não ter muita consciência, mas ele sabia o que era amizade. Mas que fazer? Provavelmente o que tinha de acontecer, já havia acontecido.

Jerusalem lembrou das palavras que o estranho da lorota que seu pai contou, disse: " ele ia ser lembrado pelos seus feitos". Jerusalem sorriu ao lembrar do pai e de como ele era bom com histórias. Sua mãe que o diga. Mas ele sabia que as palavras que seu pai disse, era um desejo genuíno, mesmo que a história não fosse verdadeira. Mas ele não nascera para ser herói. Jerusalem bufou, meio puto consigo mesmo, montou seu cavalo e disparou em direção a Terence Falls City. Ele precisava saber como estava Betina e as garotas. Elas eram sacanas, mas pelo menos era no bom sentido.

Sem Jerusalem saber, alguém observou sua partida.




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