segunda-feira, 10 de julho de 2006

JJ: O Deserto Te Chama

JERUSALEM JONES: O DESERTO TE CHAMA


Jerusalem Jones estava num daqueles dias em que nada dava certo para ele. Nada mesmo. Depois de ter perdido todo aquele ouro para um maldito pele-vermelha, o que ele menos queria na vida era ver outro índio pela frente. Provavelmente ele atiraria no primeiro que aparecesse, só para tentar fazer passar a raiva que sentia.

E era pensando nisso que Jerusalem cavalgava em direção ao Norte, para Birconal City. A noite já estava avançada e ele não ia querer atravessar o deserto à noite. Estava na hora de apear, fazer uma fogueira, comer alguma coisa e dormir. Estava para fazer isso, quando viu um clarão mais adiante. E um defeito que Jerusalem Jones detesta em si mesmo, é a sua maldita curiosidade. Invariavelmente ela o coloca em alguma espécie de enrascada. Mas ele precisava ver o que era o clarão, que estava lá a frente. Montou no cavalo, e disparou naquela direção.

Quando se aproximava, logo percebeu que a coisa não era nada agradável. Logo percebeu que era uma caravana que havia sido atacada. O clarão era do fogo que vinha das carroças incendiadas. Naquela escuridão da noite o espetáculo era algo assustadoramente hipnótico. Porém, chegando mais perto, era óbvio que a cena era muito mais aterradora: corpos de pessoas espalhados para todo lado. Jerusalem desceu de seu cavalo, passou com cuidado entre uma das carroças que pegava fogo e começou a andar entre a tragédia. Sua mente gananciosa só pensava em encontrar alguma coisa de valor que tivesse ficado para trás.

Enquanto examinava os corpos, sentindo o calor das chamas que parecia não diminuir nunca, percebeu que as carroças pegando fogo, faziam um círculo perfeito em volta dos corpos. Poderia ser uma manobra para se proteger do ataque, mas alguma coisa não estava certa. Ele só não entendia o que. Foi quando percebeu que as pessoas no chão, todas mortas, também estavam dispostas em uma ordem. Aquilo fez um arrepio percorrer todo o seu corpo. Nem mesmo a forma brutal com que foram mortas, algumas até mesmo decapitadas, mas com a cabeça ainda junto ao corpo, fez Jerusalem sentir tanto incômodo ou, como ele não queria admitir para si mesmo, medo.

Parece que estava na hora de Jerusalem Jones deixar o local, pois de valor ali, não havia nada. Também seria bom cavalgar mais para longe e descansar em outro lugar. Estava pra sair quando o luar fez reluzir algo dourado embaixo do corpo de uma menininha loira, que fora degolada. Ele se abaixou e puxou com força e era um cordão com um pingente estranho. Uma estrela de cinco pontas, com várias algumas inscrições em uma língua que, com certeza ele, que era quase analfabeto, não conhecia. No reverso haviam desenhos bizarros, que mesmo minúsculos dava para ver que era coisas que pareciam ter saído do inferno. Jerusalem escutou um uivo de lobo bem distante. O que era comum naquelas paradas. Mesmo assim outro arrepio percorreu seu corpo.

Bom, o que importava era que aquele cordão era pesado, e era de ouro. Jerusalem não queria saber como aquelas pessoas foram massacradas. Provavelmente fora algum bando de saqueadores sádicos, já que não havia sinal de tiros. E índios também não foram, pois não havia uma flecha sequer por ali. Se foram ladões, estranho terem deixado o cordão para trás. E estranho terem apenas estripado e degolado aquelas pessoas que pareciam não fazer mal a uma mosca.

Jerusalem levantou olhou mais uma vez para a estrela e depois para os corpos espalhados no chão e levou um susto. Chegou mesmo a se engasgar com a própria saliva. Tossindo ele saiu do meio das carroças em chamas, sentindo o vento da noite ficar mais frio. Olhou ao redor e viu uma elevação. Correu na direção dela e subiu até seu topo. Por sorte, da elevação dava para ver os corpos todos dentro do círculo flamejante. Jerusalem tremia. Os corpos. Ele levantou a estrela e, fechando um olho, sobrepôs à imagem dos corpos. Sim, eles estavam dispostos no mesmo formato da estrela de ouro.

Foi quando Jesrusalem Jones ouviu o grito mais aterrador de toda sua vida. Como se mil demônios gritassem numa única voz. Como se as portas do inferno se abrissem. Um grito que rasgava a alma em tiras. Jerusalem se desequilibrou e rolou da elevação, caindo lá embaixo, aos pés de alguém. Ele viu pequenos pés descalços e brancos como neve. Quando olhou para cima, era a menina da qual ele tirou o cordão de debaixo do corpo. A menina loira. com seu vestidinho branco. Não estava mais degolada, nem mesmo suja de sangue. Parecia estar preparada para ser posta na cama. Olhava para Jerusalem caído ao chão, com seus olhinhos de criança e um sorriso incômodo. Ela estendia uma das mãos e apontava para a estrela. Ela a queria de volta.

Jerusalem não sabia o que fazer. Sua ganância superava seu medo. Medo esse que não era pouco. A menina apontou novamente para a estrela na mão dele e fez sinal de que a queria de volta. Seu sorriso desaparecera. Jerusalem hesitava em entregar. Sentado no chão ele começou a se arrastar para trás, para longe dela, devagar. A menina andava calmamente em sua direção. Seu rosto se transfoformara numa máscara de fúria contida. Ela apontou mais uma vez para a estrela e fez sinal com a mão para que ele a devolvesse. Sem perceber, Jerusalem fez que não com a cabeça. Nessa hora a menina deu um grito gutural ensurdecedor e pulou na direção de Jerusalém, que segurou a estrela com força e acertou a cabeça da menina com uma das pontas.

Ela caiu e começou a entrar em convulsões violentas, soltando gritos terríveis, tanto que Jerusalem Jones tapou os ouvidos pois parecia que iriam endurdecê-lo. Quando terminou, o que restou foi um monte de estrume seco, no lugar onde antes havia uma menininha. Jerusalem quase riu daquilo. Estrume seco e fumegante. Ele meteu a mão nele e puxou a estrela de ouro. Quando olhou na direção do massacre, as carroças estavam apagadas, restando muito pouco delas.

Ele nem havia notado, mas o dia estava amanhecendo. Jerusalem sentia algo estranho dentro de si, e acabou fazendo algo que nem ele mesmo acreditou depois que parou pra pensar, mais tarde. Conseguiu o máximo de pedras que podia, e deu um enterro cristão àquelas pessoas. Armou cruzes e fincou em cada um dos montes de pedras. Treze pessoas no total, contando com o estrume que um dia foi a menininha. Sentia como se a estrela esquisita de ouro fosse seu pagamento por aquilo tudo. Quase se sentia honesto.

Ele não sabia o que aconteceu ali, nem fazia questão de saber. Ele queria apenas chegar o mais rápido possível em Birconal City e se livrar daquele cordão pelo melhor preço que ele pudesse conseguir. De preferência antes da meia-noite.


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