quinta-feira, 6 de julho de 2006

JJ: O Ouro e o Tolo

JERUSALEM JONES: O OURO E O TOLO

Aqueles eram dias estranhos. No entanto, Jerusalem Jones estava feliz, pois ganhara "honestamente" todo o ouro de Billy "Sem Pescoço". O que ele podia fazer se Billy era tão bronco? Achava que jogar cartas era uma diversão como outra qualquer. Jerusalem ficou realmente chateado quando Billy tentou atirar nele. E ficou mais chateado ainda de ter que abrir uma saída de ar na sua cabeça. Sério. Chateado mesmo. Afinal eles eram amigos de infância. Fora Jerusalem quem lhe dera o carinhoso apelido de "Sem Pescoço", que Billy aceitou prontamente, depois de os dois rolarem no chão, numa briga que deve ter durado umas três horas. Jerusalem admite que levou uma bela surra, mas era tarde demais, Billy continuou "Sem Pescoço".

Jerusalem não era homem de guardar rancores, e não foi por causa disso que jogara cartas de forma é... hmmm... "diferente", com Billy. Não. Era porque ele era desonesto mesmo. Estava em seu sangue. E ao ver Billy com aquela "montanha" de ouro, propôs logo um joguinho de pôquer. Diacho! Ele nem mesmo sabia que Billy tinha se tornado mineiro. Mas, para sua felicidade, ele se tornara sim. E continuava o mesmo bronco que era quando criança.

Billy contava suas aventuras em busca de ouro, as quais ele devia engarrafar e vender como xarope contra insônia. Seu entusiasmo em contar suas histórias ia diminuindo ao passo que ia perdendo mais e mais do ouro que tinha consigo. Até que, finalmente, as histórias acabaram junto com o ouro. Foi aí que Billy lembrou que tinha uma arma. Péssima idéia, Billy. Legítima defesa.

Quando Jerusalem saiu para a rua, com o sol forte batendo em seu rosto, ajeitou o chapéu e foi em direção a seu cavalo, para guardar a pequena sacola de ouro. Foi nessa hora que viu as iniciais P.S. bordadas, e não entendeu, e nem fez questão de entender. Mas deveria. Quando ia montar, um homem vestido bem até demais para o estilo decadente de Bether City, passou por ele e entrou no bar de onde acabara de sair. Jerusalem olhou para trás e percebeu que o homem pedia informações e que o barman apontava para Billy, morto na mesa e para ele, em resposta. Jerusalem suspirou. Pensou em montar e desaparecer, mas sentiu um frio na espinha ao ver que o homem já estava praticamente em frente a ele.

- O senhor está com algo que me pertence, Sr. Jones.
- Qual seria sua graça?
- Peter Shepherd - disse o homem apoiando a mão sobre o cabo do revólver mais reluzente que Jerusalem já vira em sua vida.

Por alguns segundos ele amaldiçoou o "Sem Pescoço" em sua mente. Mineiro coisa nenhuma. Apenas um ladrãozinho de merda. E ainda inventando histórias enfadonhas sobre sua vida nas minas. Deveria ser escritor, o desgraçado. Se bem que seria um fracasso de venda. O que fazer? O que fazer?

O homem tinha um olhar congelante. Como diabos o "Sem Pescoço" conseguiu roubar esse cara? Isso tudo era uma confirmação de que os dias andavam muito estranhos. Como se as coisas estivessem fora do lugar. Jerusalem estendeu a sacola, com todo aquele ouro que ele nunca vira em toda sua vida. Que para alguns gananciosos poderia ser pouco, mas que para Jerusalem poderia significar o fim de uma vida desonesta. Bom, não vamos exagerar.

- Eu ganhei isso num jogo honesto, Sr. - tentou Jerusalem, numa última tentativa.
- Sim, ganhou - disse o homem, sem mover um músculo da face, mesmo assim Jerusalem sentiu o sarcasmo.

Quando o homem tomou a pequena sacola com ouro, soltou e deixou cair. Em seguida tombou para a frente quase caindo em cima de Jerusalem que se desviou. Uma faca enorme estava cravada em suas costas e ele estrebuchava no chão. Em pé atrás dele estava um índio. Jerusalem lembrava de tê-lo visto perambulando pela cidade, e parecia bem inofensivo. Pelo menos até agora.

O índio estava como se fosse em transe olhando o corpo de Shepherd que dava suas últimas estrebuchadas. Quando por fim ele parou de se mover, o índio pegou a sacola do chão, segurou a mão de Jerusalem e entregou-lhe o ouro, dizendo:

- Homem do revólver reluzente estuprou filha de Pássaro Triste. E depois matou. Homem feio ajudou a distrair homem de revólver reluzente, então ouro seu. Pássaro Triste agra... - mas Pássaro Triste não terminou a frase, pois os homens do xerife não estavam nem aí para vinganças pessoais e caíram em cima dele, prendendo-o.

Homem feio. Homem feio é o cacete! Não sou tão feio assim. Pensava consigo mesmo Jerusalem.

Quando ia guardar novamente a sacola no seu alforje, Jerusalem percebeu que havia algo errado. As iniciais sumiram. O saco era o mesmo, claro que era. Sem pensar duas vezes, abriu-o, meteu a mão e puxou... pedras. Nada mais que pedras. Num canto do saloon, um velho bêbado ria de se mijar, olhando para Jerusalem. Ainda rindo o bêbado apontou para trás do saloon, e Jerusalem foi olhar e só viu a poeira dos cavalos do índio e dos supostos ajudantes do xerife. Já iam longe. E o bêbado disse:

- Fica felisshh! Eu esshhhcutei que elesshhh iam pegar era vochê, massshhh o almofadinha chegou e elessh mudaru o prano. HAHAHAHAHAHAHA! - e, rindo, o bêbado se mijou.

Odeio gente desonesta, pensou Jerusalem. E montou em seu cavalo.


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