quinta-feira, 20 de julho de 2006

Protocolo Beta 77

PROTOCOLO BETA 77



O dia estava escuro e ainda era o meio da tarde. A chuva cairia em breve. Eu ouvia alguns trovões ao longe, e tudo aquilo tornava aquele dia mais sinistro, mais pesado. Eu olhava para o deserto adiante, a perder de vista, e sentia uma angústia na alma, angústia essa que eu não conseguia identificar exatamente a causa, afinal de contas eu sabia tudo que devia fazer. Nada do que acontecera fora por acaso. Tudo foi planejado. Até mesmo os erros do projetos não foram surpresas. Todos sabiam o que estava em jogo, e resolveram se arriscar, sabendo que os benefícios poderiam ser infinitos para a humanidade. Nesse ponto, eu quase solto uma gargalhada. "Benefícios para a humanidade". Todos estavam ávidos de enriquecer tanto quanto eu.

Um clarão de luz atravessa as nuvens negras, muito longe ainda, e segundos depois, ouço a resposta de um trovão, como se fosse um presságio das coisas que ainda estão por vir. Eu escuto o som a que me acostumei, nos últimos dias, vindo do freezer. É Tanya. Não tive coragem. Depois que as coisas ficaram mais sérias entre nós, deixamos de ser apenas um par de colegas, para nos tornamos amigos e amantes. Quando tudo deu errado, eu consegui fazer aquilo para o qual fui treinado caso tudo desse errado, como estava previsto nas projeções. Injetei a única unidade de antídoto em mim mesmo, e matei todos os outros, antes que tudo passasse da linha-limite. Mas não consegui eliminar Tanya. Tanya de quem agora escuto os grunhidos vindos do freezer.

Tomo um gole do café frio que tenho comigo, e volto a encostar a cabeça na vidraça que dá para o deserto. Depois que o prazo final para nos comunicarmos chegar ao fim, os militares virão com tudo para cá e, provavelmente bombardearão o laboratório, e só depois farão as perguntas. Eu já devia ter me mandado daqui. Mas eu não consigo deixar Tanya. Não consigo. Uma ironia e tanto, já que nosso projeto não estava nem aí para os humanos envolvidos, que eram tão descartáveis quanto se provaram ser. Os cientistas envolvidos não sabiam que eles mesmos eram as cobaias, e que os animais que usamos para testes eram nada menos que um showzinho para distraí-los. A droga não fazia o efeito desejado neles. Ela fora desenvolvida para seres humanos. Disso eles sabiam. Que bando de ingênuos. Vou te dizer, foi muito bom estourar a cabeça do Paul Bryan, depois daquelas piadinhas infames sobre meu... ah, porra, melhor esquecer isso. Esse assunto está morto e .....hahaha...HAHAHAHA...AHAHAHAHAHAHA... ai, ai... enterrado. Ou quase.

Sou despertado para a realidade por um grito mais agudo de Tanya, seguido por gorgolejos horríveis. É sinal de que ela está se alimentando. Acho que ela já consumiu quase todo "alimento" que deixei no freezer junto com ela. Se tudo aqui fosse ilegal, seria um bom modo de eliminar as provas. Mas tudo aqui foi patrocinado pelo governo e as experiências tinham um objetivo prático, pelo menos para eles. Eu aceitei porque, além da fama e fortuna, eles disseram que teria aplicações humanitárias também, e não só militares. Não sei se acreditei, ou se apenas quis acreditar que era verdade. Mas, excetuando-se o caso da minha querida amada, lá no freezer, tudo valeu a pena. Aprendi coisas que eu não aprenderia em 100 anos, literalmente falando. Mas tudo tem seu preço, aqui não seria diferente. Não sou tão ingênuo assim.

Eu preciso ir embora. Informar aos militares para que limpem a área. A chuva começa a cair pesada. As gotas parecem bombas quando atingem o chão. O cheiro de terra molhada atravessa as paredes. Preciso ver Tanya uma última vez. Sei que não deve ser uma visão das mais agradáveis, mas eu devo isso a tudo pelo que passamos. Devo acabar com seu sofrimento e partir. As tentativas que fiz de reproduzir o antídoto foram em vão. Não há salvação para a mulher que amo.

Bom, melhor parar de protelar e fazer a ligação para os militares, acabar com o sofrimento de Tanya e partir desse cemitério no meio do deserto.

Pego meu celular e teclo um número secreto. Alguém com uma voz muito impessoal atende, eu digo apenas "Protocolo Beta 77", e ouço um "entendido" do outro lado da linha. Desligo o celular e levo um susto quando vejo que a o laboratório está escurecendo e não é por causa do tempo lá fora. O laboratório está sendo lacrado. Que diabos! Eu não sabia desse procedimento. Malditos! Fui ingênuo em achar que eles deixariam alguma testemunha. Sou tão descartável para eles quanto todos os outros. Que devo fazer? Sentar e morrer?

O laboratório é lacrado completamente. Logo tudo ali vai ser mandado pelos ares. Deve ser questão de minutos até que os bombardeiros cheguem. Engraçado, estou tentando lembrar algo importante. Nossa! É isso! O freezer! Existe material explosivo dentro do freezer, mantido a baixa temperatura. Foi usado em algumas experiências de outro bloco. Acho que posso usar para escapar. Hã... a porta do freezer... está aberta?! Desde quando? Diacho, há um temporizador na porta. Estava marcado para abrir automaticamente...

Sinto uma dor imensa na perna direita e tudo escurece.

***

Que... hã... que... que sonho estranho. Tanya, querida, você está aí? Tá escuro aqui e frio, e que cheiro horroroso. Que diacho? Onde estou? Não é a cama. To congelando! Parece que tô no free... droga um interruptor, enfim. Luz. Hã... Tânya... que, onde estamos? Que há com você? Porque estamos no freezer? O que você está comendo? Isso é uma perna, Tanya? Oh, meu deus... minh... aaaaaaaaaaaahhhhhhHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!


Ao longe uma bola de fogo se forma no deserto, em meio a tempestade que cai.




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