quinta-feira, 6 de julho de 2006

Resolvendo um Caso

RESOLVENDO UM CASO EM DOIS TEMPOS

Havia sangue no chão, mas o corpo do morto estava na cadeira. O sangue não devia ser dele. Então de quem era?

Tudo parecia uma coisa saída de algum livro de detetives. O físico famoso fora morto em seu apartamento. Anotações importantes foram roubadas. Pesquisas que poderiam dar-lhe o Prêmio Nobel. Segundo alguns jornais mais sensacionalistas, o homem estaria envolvido em pesquisa sobre as teorias de viagem no tempo. Até aí tudo bem, de teorias o inferno está cheio. Mas corriam boatos de que o "cientista maluco" estaria tentando colocar isso em prática. Juro que, durante a investigação, não vi nenhuma máquina do tempo pelo apartamento. Claro que eu não procurei as passagens secretas que se abriam ao puxar o livro de H.G. Wells. Na verdade, eu estava tentando ver graça em tudo aquilo.

Minha cabeça estava explodindo de dor. Me designar para aquele caso não foi uma boa idéia do comissário. Eu sabia que aquilo ia demorar mais do que eu queria. Não havia muito por onde começar. Ele fora morto com um tiro na cabeça, e havia sangue no chão que, provavelmente não era dele. Ele bem que poderia ter escrito alguma posta com o filete de sangue que saía de sua testa, ou quem sabe deixar pistas pelos quadros baratos que enfeitavam seu escritório. Se uma francesinha aparecesse eu não iria reclamar, também.

Suspirei, irritado comigo mesmo. Os outros policiais já haviam terminado seu serviço de recolher pistas e evidências. Eu disse que ficaria mais um pouco. Dentro em breve levariam o corpo e eu, então, tomaria meu rumo, passando na delegacia e depois iria pra casa. Mas antes queria tentar ver se achava alguma coisa que me ajudasse nas investigações. Ou estava apenas adiando minha chegada ao inferno que era meu lar.

Tentava não tocar em nada que comprometesse a cena do crime. Olhei mais uma vez para o corpo que estava sentado atrás da mesa do escritório, com a cabeça inclinada para trás, se apoiando no espaldar da cadeira, como se tirasse um cochilo. O sangue era bem pouco. Dei uma espiada no rosto e ele tinha uma expressão espantada nos olhos abertos. Talvez conhecesse a pessoa que o matou. Bom, na verdade era bem possível, afinal só assim para entrar ali, tão facilmente.

O pessoal estava demorando a vir buscar o corpo. Fui na direção da porta, quado senti uma espécie de eletricidade no ar, e um gosto salgado na boca. Atrás de mim senti um repuxo e quando eu olhei, mal acreditei no que vi. Aparecendo ali no meio da sala, o físico morto, como se saísse de uma porta invisível. Mas isso não era tudo. O mesmo estava vivo na cadeira. A cena parecia um filme e eu o espectador. Nenhum dos dois parecia se dar conta de que eu estava ali.

O físico na cadeira estava estupefato com o fato dele mesmo aparecer do nada à sua frente. Mas, mesmo estupefato, notava-se que era como se ele soubesse que isso poderia acontecer, mesmo achando aquilo assombroso. Me veio à mente as matérias que li nos jornais sobre suas teorias de viagens no tempo. Pensava nisso quando o que acabara de chegar falou para o sentado:

- Não somos deuses, Eron. O protótipo foi roubado e o futuro está ameaçado. As coisas que podem acontecer se quem roubou viajar para o passado, para qualquer época do passado, podem ser desastrosas. Não me orgulho do que vou fazer agora, mas é o único jeito de impedir os acontecimentos futuros.

O físico tirou uma arma da cintura. Mas antes que pudesse usar, uma segunda pessoa entrou pela passagem invisível e voou em cima dele:

- Idiota! Se pensa que vai impedir que a máquina do tempo seja criada matando a si mesmo aqui no passado está enganado. - disse o homem pesado, agarrando a mão com a arma e tentando puxá-lo de volta através do porta invisível.

Enquanto isso eu continuava sem ser notado. E eu não achava que pudesse interferir em nada, nem tentei. Toda a cena era meio etérea, irreal. O físico do presente olha a si mesmo se engalfinhando com alguém que, aparentemente, ele não sabia quem era. Foi quando a arma saltou da mão do físico do futuro e parou na mesa do físico do presente. Ele pegou a arma, e apontou para a própria testa. Os dois que lutavam pararam e olharam pare ele. O agressor ia tentar fazer algo, quando o físico disparou. Mas não contra a própria cabeça, e sim contra o agressor, matando-o.

O seu eu do futuro respirou aliviado. Colocou as mãos nos joelhos, descansando. Quando ia falar algo, recebeu um tiro na testa. E caiu morto, claro. Minha boca devia estar no pé. O físico do presente trocou de roupas com seu eu do futuro e o ajeitou na cadeira em que antes ele estava sentado. Pegou suas anotações, algumas coisas no cofre, e entrou pelo portal invisível, levando consigo o corpo do agressor morto.

Quando ele sumiu, tudo voltou ao normal ali, no escritório. Não entendi porque a cena se repetiu para mim, ali. O que teria feito tudo aquilo acontecer de novo, como um espetáculo só pra mim? Eu estava nessas indagações quando o ar novamente ficou elétrico e um gosto salgado veio a minha boca. Meu Deus! A cena estava recomeçando. O físico do futuro (que vai morrer), entra de novo pelo portal invisível e fala com seu eu do presente que vai matá-lo. Só que a cena está mais rápida agora, quase como aqueles filmes mudos de comédia. Sinto uma sensação estranha na boca do estômago.

Vejo tudo até o final, e logo em seguida recomeça, só que dessa vez ainda mais rápido que antes. Não espero terminar, eu abro a porta e saio dali correndo. Tenho um pressentimento estranho. Corro pra sair do apartamento. Vou pelas escadas mesmo. O ar vai ficando mais elétrico, a minha boca mais salgada. Desço as escadas voando, sentindo atrás de mim um caos inexorável. Corro desesperado. Sinto como se algo me agarrasse a alma. Saio correndo do prédio e sinto um empuxo e depois um empurão às minhas costas, me lançando longe. Caio esparramado no chão.


Demoro a me levantar. Na verdade quero ficar ali para sempre, deitado, longe dos problemas. Mas me levanto. Olho em volta e penso que estou num sonho. Que diabos está acontecendo? Tudo está imóvel. Carros, pessoas, até o ar parece não se mover. O que acontece? Oh, droga! Aquilo tudo lá, aquela experiência idiota daquele físico maldito, de alguma forma me afetou. O tempo está passando de forma diferente pra mim. Mais devagar. Bem mais devagar.

Volto correndo para o prédio, entro no apartamento do físico e no escritório as coisas parecem ter voltado ao normal. A cena do crime está como quando cheguei. A não por um pequeno artefato que está do lado direito da mesa. Me abaixo e o pego. É como um pequeno bastão com números e uma tela, como se fosse uma calculadora em forma de cilindro.


Deduzo que caiu da mão do agressor quando o físico atirou nele. Existem duas datas digitadas. Uma de dez anos no futuro e abaixo a mesma data, mas no ano em que estamos, o presente. Não posso mais ficar por aqui mesmo. Então mudo as datas de posição e aperto o botão na cabeça do bastão. O portal se abre na minha frente. Eu tenho um assassino para capturar. Certo, tecnicamente ele é um suicida, mas no meu ponto de vista, ele é um maldito cientista maluco homicida.

Vou em direção ao portal, e sou sugado. Sou jogado dez anos à frente. Quem disse que a vida não é uma aventura?


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