quarta-feira, 19 de julho de 2006

A Solidão de Anfrew Oaks

A SOLIDÃO DE ANDREW OAKS



Andrew Oaks acorda com os raios de sol entrando por sua janela de vidro, no décimo oitavo andar do prédio na Emperor Street. Há tempos ele não se sentia tão feliz consigo mesmo, apesar de estar acordando sozinho em sua cama, todos os dias, desde que Lisa deu-lhe um chute na bunda. Foi nesse momento que Andrew, um físico renomado, decidiu que ele não ia sofrer sozinho, como fez a sua vida inteira. Depois que Lisa foi embora, sem a mínima explicação, nem mesmo dizendo se era por outra pessoa, ou por estar cansada de Andrew, foi que ele decidiu que ia colocar em prática algo que vinha matutando há alguns anos. Ele ia provar, com uma equação, que Deus não existia.

Ele levou meses trancado em seu apartamento, pedindo comida por telefone, e vestindo as mesmas roupas sujas. Mas, chegou onde queria. Andrew já tinha aquilo tudo na cabeça há muito tempo, ele só precisava passar para o "papel". Foi um choque para o mundo quando ele apresentou sua equação a qual ele chamou de Lei da Não Existência de Nenhum Deus. Andrew não ia mais sofrer sozinho, como fazia desde que era um moleque, e todos sempre o faziam sofrer de uma forma ou de outra. Religiosos, cientistas criacionistas, crédulos, todo aquele que tivesse um mínimo de fé em um deus, seria afetado por ele, e sofreria assim como Andrew sofria a sua vida inteira. Teriam seus sonhos ridículos de vida eterna destruídos, assim como Andrew tinha seu sonho de uma vida minimamente feliz, destruído todos os dias desde que se entendia por gente.

Andrew sabia que os fanáticos continuariam acreditando, por mais provas que sua equação pudesse mostrar. Mas ele se rejubilava dentro de si mesmo, ao saber que a semente da dúvida lançada, sempre crescia, mesmo que vagarosamente. O que ele mais curtia, a partir de então, eram os debates na TV. Ele fazia pipoca, comprava refrigerante, sentava-se no chão e assistia, às gargalhadas, os debates entre os religiosos e os apoiadores de sua equação. Geralmente terminava em socos e pontapés. Ele não se divertia tanto desde que Jerry Springer foi preso ao vivo.

O Vaticano estava lançando chamas do próprio Inferno sobre seu nome. Exigiam uma retratação e a retirada dos artigos - que consideravam pseudo-científicos - de circulação, e que fossem até mesmo banidos da Internet. Se isso acontecesse, tudo bem para Andrew, ele já fizera a sua parte. O mundo estava como ele queria, sofrendo juntamente com ele.

Claro que Andrew sofreu alguns atentados à sua vida, coisa que já era de se esperar. Escapou de todos e - sorrindo ele pensava - não foi graças a Deus. Andrew era um suicida em potencial, morrer para ele não era o maior dos problemas mas, sim, viver. E já que estava condenado a passar ainda mais uns 30 ou 40 anos sobre esta Terra, ele faria com que as coisas fossem do seu jeito.

A súbita notoriedade dera-lhe o que todo homem almeja: dinheiro e sexo, sem necessariamente com isso, felicidade. Esta ele já estava acostumado a não ter, e fora isso o estopim de toda essa história. Sim, Andrew, em seu interior continuava vazio e infeliz, mas não iria deixar que o mundo soubesse disso. Ele iria até o fim.

Cada dia mais o mundo entrava em colapso, com a pessoas cada vez mais aderindo ao fato de que sua equação era verdadeira. A violência aumentava gradativamente, assassinatos, estupros e etc. A perda da fé, era a perda do pouco de moral que restava no mundo. Se você não tinha que se reportar a alguém ao morrer, você não tinha nada o que temer. A mentalidade do mundo estava subindo essa ribanceira e parecia que quando chegasse ao topo, iria se jogar de lá.

O telefone tocou e a alma de Andrew gelou, pois um pressentimento dizia que era sua mãe, que ele havia esquecido por completo durante esse dias turbulentos (no bom sentido, pelo menos para ele). Ele atendeu sabendo o que viria:

- PORRA, ANDY!!! Eu preciso marcar hora pra falar contigo? Caramba, meu filho! O que você anda fazendo da merda de sua vida??? Você foi criado como católico a vida inteira. Eu e seu pai te levávamos à Igreja, até que você cresceu e resolveu esquecer Deus. O que você fez, meu filho? Se eu morrer por aqui, vítima do ódio dos meus vizinhos a culpa vai ser tua. Teu pai deve estar se revirando para todos os lados no túmulo dele, que já é meio apertado!

Andrew resolveu fingir que a ligação estava com problemas e desligou, fazendo parecer que a ligação tinha caído, e tirou o telefone do gancho. Ele sabia que aquilo duraria horas se ele deixasse. E, na verdade, sua mãe era um dos motivos fortes pelo qual ele fizera tudo isso. Não se arrependia. Afinal, por tudo isso é que agora havia uma mulher gostosa na sua cama, dormindo, e que lhe dera o melhor sexo de sua vida, pelo menos até a próxima trepada. Ele já perdera a conta de quantas supermodelos como aquela, ele já comera nos últimos meses. Essa, mesmo sendo estrangeira, soube se comunicar muito bem. E aquela pele morena? Nossa!

Foi quando, de repente, a mulher acordou, puxou uma arma estranha de sua bolsa que estava no chão, gritou algo como "INFIEL", e acertou Andrew Oaks, no meio da testa, com um tiro que se alojou dentro do seu crânio. Depois, um zumbido veio de dentro da cabeça de Andrew, já morto, e a explodiu em mil pedacinhos, espalhando cérebro por todo apartamento e em cima da suposta modelo, que se retirou para o banheiro para tomar um banho.

Já Andrew estava, digamos, em outro lugar. E ele estava detestando toda aquela clichezada pela qual estava caminhando. Um lugar cheio de fumaça branca, deserto, com uma luz muito branca lá na frente. Andrew sabia que estava morto, e esse era um problema sério, já que segundo a sua equação, se não havia um Deus, não havia, logicamente, vida após a morte.

Ele devia estar em coma, ou algo assim. Provavelmente a bala se alojara em algum canto de seu cérebro. Talvez ainda pudessem tirá-la de sua cabeça. E isso tudo deviam ser alucinações provocadas pelo seu estado entre a vida e a morte. Já que estava ali, ia seguir em frente até a tal luz ofuscante.

Chegando lá, Andrew encontrou o que já sabia que iria encontrar, um velho de barbas brancas, sentado em um trono dourado. Na mão direita havia um cetro bem pomposo. Andrew estava se divertindo com a ironia. Resolveu entrar na brincadeira e perguntou:

- Então o Senhor é Deus?

O velho suspirou, meio condescendente, como se fosse um pai olhando para um filho que havia terminado de cometer uma travessura. Alisou sua barba branca pensativo, olhando para Andrew como se estivesse tomando alguma decisão importante, ou estivesse pensando bem na pergunta que Andrew fez. De repente seu rosto adquiriu uma expressão estranha, ele deu um sorriso malicioso para Andrew e disse:

- Não, Andrew Oaks, eu não sou Deus - e apontou para trás de Andrew, que se virou, e soltou um grito tão alto e arrepiante, que foi ouvido em todas as galáxias desta e de outras dimensões. Depois, apenas silêncio. Para sempre.



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