segunda-feira, 7 de agosto de 2006

Fluxo de Memória Perdido

FLUXO DE MEMÓRIA PERDIDO


Abro os olhos, sentindo uma baita dor de cabeça. Até os "esforço" de abrir os olhos dói. Estou num carro que está encoxado em uma árvore. Escapei por causa do cinto de segurança. Porém, minha cabeça tem um galo do tamanho de uma bola de futebol. O galo e a perda do carro seriam meus únicos problemas se eu estivesse conseguindo lembrar quem eu sou e como vim parar nesta árvore. Achei que essas coisas só aconteciam em filmes e livros. Isso de perda de memória.

Retiro o cinto, todo desajeitado, e saio do carro cambaleando. Ai, que vontade de tomar um café. Pelo jeito os vícios continuam em alguma parte de meu cérebro. Vamos ver agora se encontro quem eu sou. Devo ter alguma documentação. Dou a volta até o lado do porta-luvas. A porta está aberta, só que pro lado errado. Não importa. O porta-luvas está aberto e de dentro caíram várias coisas: moedas, fichas de telefone (fichas de telefone?!), camisinha, mais camisinha, outras camisinhas (nossa, pelo jeito eu sou bom nisso), algumas chaves que não me servirão de nada se eu não me lembrar quem eu sou, drops (alguém ainda fala drops?). Mas cadê o diabo dos documentos, afinal?!

Apalpo os bolsos da calça e... nada. Minha camisa é de malha, não tem onde guardar nada. Que problemão. Pra piorar esta estrada parece meio deserta. Até agora não vi um carro sequer passar. Que faço? Que faço? Quem sou eu? Ando um pouco e me sento em uma pedra mais adiante. Talvez eu seja um milionário e se eu não aparecer toda minha grana vai ficar para minha esposa mercenária que me trai com o jardineiro, o motorista e o leiteiro.

Olho para o meu carro e, mesmo detonado, vejo que não pode ser um carro de um milionário. Pelo menos não de um que tenha bom gosto. Talvez eu seja um agente secreto e, ao notar que ia bater, me livrei de todos os meus documentos para evitar que o "inimigo" (seja ele quem for) descobrisse para quem eu trabalho. Se bem que um bom agente secreto estaria com documentos falsos. E estaria também acompanhado de uma linda loira russa, que estaria lhe vendendo informações sobre algum plano terrorista do Oriente-Médio.

Quanta bobagem! Com essa imaginação toda talvez eu seja um escritor. Um famoso, talvez eu até seja aquele que escreveu aquele livro sobre um código secreto, que envolvia aquele pintor famoso, e... hmmm... como eu lembro disso, mas não lembro quem eu sou? Bem dizia minha mãe, "há mais coisas entre o céu e a terra do que crê a vã filosofia"? Mas, porra... quem era a minha mãe? Cara, isso está ficando maçante. Eu fumaria um cigarro agora, mas eu não lembro de sou fumante. Pelo menos eu sei que gosto de café.

Talvez eu seja um ator de cinema famoso. Deixa ver. Vou até o carro e me olho no espelho retrovisor, ou no que sobrou dele. Credo! Nem rola. Não consigo lembrar se já me vi algum filme comigo. Ou será que sou tão ruim que meus filmes só são vistos quando passam no Supercine (Que diabos é Supercine?!). Ai, minha cabeça dói muito. Parece que tem uma banda de heavy metal fazendo um show dentro dela.

Isso, talvez eu seja um cantor. Abro minha boca e tento cantar algo. Como não lembro de música nenhuma, eu invento uma na hora: "bati com o meu carro a 120 por hora, quase que botei as minhas tripas pra fora..." Hmmm... acho que não. Minha voz parece de alguém que está com sérios problemas de fundo psiquiátrico. Acho que não canto nem em jogo de bingo.

Droga, eu tô protelando as coisas. Eu preciso sair daqui. Encontrar ajuda. Eu não vou conseguir lembrar quem eu sou, sentado aqui. E, é óbvio que eu sou alguém comum. Mais um na multidão. Um tapado que anda por aí sem seus documentos. Ah, e com muitas camisinhas. Ou eu transo muito, ou eu sou paranóico mesmo.

Preciso pelo menos conseguir uma carona até um hospital, ou delegacia, sei lá. Um lugar onde talvez consigam me dizer quem eu sou.

Vou até a beira da pista e estico o pescoço pra ver se lá mais a frente aparece algum carro, mas nada, tudo deserto. É quando vejo uma espécie de dispositivo perto das marcas do pneu do meu carro. Parece ter caído dele. É quadrado, como se fosse uma calculadora bem pequena. Os caracteres não são os números a que eu estou acostumado a ver (eu estou?!). Um dos caracteres pisca na telinha minúscula, como se esperasse confirmação ou algo assim. Procuro entre os micro botões, qual se parece com o que está piscando. Quando encontro, eu o aperto com a unha, mas são muito juntos os botões.

BZZZZZTCCRRRAC - |-\||||_\|--|--|||* (*completado, em nossa língua).

- MAS QUE HUMANO DESGRAÇADO!!!! Quase consegue acabar com a minha raça. Droga! Quando fui assumir o seu corpo o imbecil atingiu a árvore, antes que eu pudesse tomar o controle? Fiquei preso entre o estado de memória nulo dele, e um limbo ao qual eu não quero nunca mais voltar! Ainda bem que esse puto é curioso e burro, senão eu não sei o que seria de mim. Ele apertou o botão do meu transcriptador que consegui materializar antes de ficar preso. Agora é só... hã... o que mais esse idiota apertou...?

...BIP... ||||\|/|_-_|\|\||* (*Autodestruição autoprotetora, em nossa língua)

FLUUUCH!!!


Nenhum comentário:

Business

category2