quinta-feira, 17 de agosto de 2006

JJ e Black Goddard

JERUSALEM JONES - ENCONTRO COM BLACK GODDARD



Ninguém fazia idéia da origem de Black Goddard, sabiam apenas que ele apareceu na cidade e, em pouco tempo, se tornou dono de metade dela. Neville City não era mais próspera por causa disso, na verdade, nunca mais fora a mesma depois que Black Goddard apareceu e, de modo estranho, foi tomando conta do lugar. Parecia uma erva daninha, crescendo sempre mais, querendo sempre mais. Sua base de operações, por assim dizer, era o Salloon Goddard, onde passava os dias sempre conversando com pessoas estranhas, que não eram habitantes do lugarejo. E sempre que essas pessoas sumiam, Goddard se tornava dono de mais um pedaço da cidade, fosse um imóvel, um negócio, ou mesmo uma vida.

Era evidente para todos que Goddard gostava do poder. O prefeito e o xerife da cidade praticamente respondiam às ordens de Goddard, e muita coisa sinistra que acontecia na cidade era encoberta, ora por um, ora por outro. Porém, Black Goddard, nos últimos dias, vinha pensando em alçar vôos mais altos. Onde iria aterrisar só Deus poderia saber.

Enquanto isso, chega na cidade Jerusalem Jones. Veio à Neville City apenas para descansar até seguir para Fawcett Town. A cicatriz no seu pescoço coçava mais que o normal. Devia ser por causa do calor. Fora isso, os efeitos daquela maldita mordida pareciam realmente ter sido obliterados para sempre. Jerusalem Jones tentou lembrar como diabos aprendera aquela palavra, "obliterado", mas não fazia idéia. Seu vocabulário não era dos melhores. Deve ter sido em algum folhetim que andou lendo.

Black Goddard pensava consigo mesmo que, para levar adiante seu plano mais recente, precisaria de alguém ingênuo o bastante para que tal plano desse certo. Na verdade, ingênuo não era bem a palavra, teria que ser alguém bem...

- IMBECIL! Olha por onde anda! - gritava um homem enorme em quem Jerusalem Jones esbarrara ao entrar no Saloon
- Ei! Desculpa, meu camarada, mas você bem que podia evitar ficar bem na entrada do saloon, hein?

O homem fulminou Jerusalem com um olhar e preparava-se para dar-lhe um belo soco, quando Black Goddard segurou seu braço e disse-lhe:

- Calma, Smitheson. É assim que você trata os visitantes? - e Smitheson se acalmou, afinal era Black Goddard quem pedia, e não qualquer um.
- Bem-vindo, forasteiro. Pode entrar e se sentir a vontade em meu estabelecimento. Sente naquela mesa e já me junto ao senhor.

Jerusalem Jones nada entendeu, mas foi para a mesa indicada. Sentiu uma pontada na cicatriz. Coçava de novo. Quem sabe agora parava, já que saíra do sol escaldante lá de fora. O estranho que parecia ser o dono do saloon chegou com duas canecas de cerveja e depositou-as em cima da mesa. Empurrou uma para Jerusalem Jones...

- Por conta da casa. Então, o que o traz à Neville City?
- Minhas pernas - disse Jerusalem Jones e soltou uma gargalhada solitária.
- Hmmm... bom, fora o seu bom humor, veio tratar de algum negócio em particular na cidade, senhor...?
- Jones, Jerusalem Jones.
- Prazer, me chamo Black Goddard.

De repente Jerusalem Jones se engasgou com a cerveja. Começou a tossir e a rir ao mesmo tempo, num ataque desconcertante. Goddard quase levou um banho de cerveja e, ao mesmo tempo, não entendia o motivo das risadas de Jones. Quando este conseguiu falar, disse:

- Você não tá falando sério. Que diabo de nome é esse?
- Jerusalem Jones também não é um nome lá muito comum - disse Goddard tentando controlar a antipatia que começava a sentir pelo forasteiro.
- Certo, mas tem bem mais estilo, se me permite dizer. No seu caso, bom, seu pai chegou e disse "põe aí Black, meu filho vai se chamar Black"? Ou isso é um tipo de nome de guerra? Seja sincero, não se vê muitos Blacks por aí, pelo menos não da sua cor - disse Jerusalem Jones explodindo em outra gargalhada.

As pessoas no saloon, sem querer, estavam ouvindo a conversa e, sem querer, estavam sendo contagiadas pelas risadas histéricas de Jerusalem Jones. Tentavam segurar o riso, mas o estranho ria tão descontroladamente de algo tão banal quanto um nome, que elas não estavam conseguindo se conter. Sabendo como Black Goddard podia ser cruel às vezes, aquelas pessoas que não estavam conseguindo se segurar, começavam a pagar sua conta e sair do saloon.

A cicatriz do pescoço de Jones estava coçando miseravelmente. Para quem não lembra, a cicatriz foi provocada pela mordida de uma morta-viva, que quando era apenas viva, era amiga de Jerusalem Jones. Infectado e com o risco de se transformar em um morto-vivo, Jerusalem Jones aceitou a ajuda de um feiticeiro índio e conseguiu escapar da sina de se transformar, ele mesmo, em um morto-vivo. Por que, então, a cicatriz agora estava coçando tanto? E por que ele estava rindo de algo tão bobo, quanto o nome daquele cara? Ele não conseguia se conter. E metade do saloon ria junto com ele. Ele precisava parar, estava até mesmo perdendo ar de tanto rir.

Neste momento Black Goddard já havia desistido de usar aquele fracassado para qualquer plano seu. Goddard só pensava em uma coisa: matá-lo. Se controlando para não atirar no desgraçado ali mesmo, Goddard gritou:

- Eu o desafio para um duelo!
- M... m... mas...hhihihihihih... hahahah...hhihih... o que dia... haiuaiaiahiehai... eu... eu... fiz...? hauehaue - Jerusalem Jones estava desesperado, não conseguia parar de rir e nem de coçar a cicatriz no pescoço. Agora queimava.

Goddard agarrou o tal Jones pela gola da camisa e o levou para fora. Agora todos haviam parado de rir... menos Jerusalem Jones.

- C... como...hauhuahhahaha... e... eu... vou...hahahaha... conseguir... ahehauehauheua... ati.. atirar assim?

Goddard não deu a mínima para o apelo de Jones. Contou vinte passos de onde Jones estava e virou de frente para ele. Jerusalem Jones se pôs de pé com dificuldade. Estava sem ar de tanto rir. Ele não estava entendendo o que havia com ele. A piada já perdera a graça a muito tempo. Goddard designou seu barman como juíz do duelo e que ele apontasse o momento de disparar. Goddard só estava fazendo aquilo, porque estava vendo que o idiota não ia parar de rir e ele o mataria ali, dentro da lei, na frente de todos.

O barman disse que ia contar até três. Jerusalem estava praticamente em convulsões por causa da crise de riso. O barman estava no "dois". Jerusalem tentava ao menos colocar a mão sobre a sua arma, e não conseguia. O barman gritou "TRÊS" e um estampido se ouviu vindo da arma de Black Goodard. Jerusalem Jones girou e caiu.

A multidão ficou em silêncio. O barman se aproximou de Jerusalem Jones para constatar sua morte. O forasteiro estava caído de costas. Não havia sangue. Quando o barman foi virá-lo, notou que havia uma cicatriz em seu pescoço, e essa estava... a cicatriz, ela estava...pulsando?! O pobre barman só sentiu seu corpo ser arremessado pra longe, por um Jerusalem Jones ensandecido. A multidão soltou um "ooooh" em conjunto. O forasteiro se pôs de pé e olhou na direção de Black Goddard, que estava estupefato, até mesmo esquecendo que estava com uma arma na mão. Quando este lembrou que podia atirar, era tarde demais. Jerusalem Jones deu salto que nenhum homem normal poderia dar. Caiu em cima de Black Goddard, que perdeu sua arma na queda. Goddard gritava todos os palavrões do mundo, ordenando que Jerusalem Jones saísse de cima dele, ou que alguém atirasse no desgraçado. Mas as pessoas estavam ou correndo, ou sem saber o que fazer. Talvez não atirassem com medo de acertar Goddard.

Quando Goddard xingou a mãe de Jerusalem de nomes que aqui não caberiam, este soltou um rugido gutural e, num movimento rápido, arrancou a orelha esquerda de Black Goddard. Seu grito foi ensurdecedor. Quando ele viu que Jones estava saboreando sua orelha, Goddard entrou em pânico. Ele não estava entendo o que estava acontecendo.

Foi quando Jerusalem sentiu um disparo passar rente à sua cabeça. Estava chegando ajuda para Goddard. Antes que pudesse ser morto, Jerusalem Jones disparou rumo à saída da cidade, e o xerife e seus ajudantes, assim como um Goddard sem orelha, ensanguentado, observaram como ele corria. Uma velocidade inumana.

Goddard levantou-se e sabia que, de agora em diante, tinha um novo objetivo em sua vida: caça e matar Jerusalem Jones. Em seguida desmaiou.
... ... ...

Demorou muito tempo para que Jerusalem Jones acordasse. A única coisa de que lembrava era de Goddard atirando e o tiro passando rente ao seu braço, e ele caindo. Lembra que a dor no pescoço, por causa da cicatriz era tanta, que desmaiou, ou acha que desmaiou. Não lembra de mais nada depois disso. A cicatriz estava quieta, nem mesmo parecia existir. O que teria acontecido? Jerusalem não queria saber. Estava sem seu cavalo e teria de andar bastante até conseguir um. Ele só queria esquecer que conhecera alguém chamado Black Goddard. Levantou, lavou o rosto num córrego próximo. Bateu a poeira da roupa e se pôs a andar.

De repente, Jerusalem Jones soltou um arroto, e sentiu um gosto estranhíssimo na boca. Não lembrava de ter comido nada.


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