quarta-feira, 30 de agosto de 2006

Jerusalem Jones: The End

JERUSALEM JONES - THE END


Jerusalem Jones morreu ao pôr-do-sol. Enforcado em uma árvore com aspecto miserável. Ele sempre soube que morreria assim, enforcado. Estranho isso, saber como iria morrer. E sabia também que seria de forma injusta. As coisas sempre eram injustas para Jerusalem Jones, ou pelo menos não eram sempre justas.

Minutos antes de parar de respirar, Jerusalem Jones chegou a conclusão de que aquela história, de que toda a nossa vida passa diante de nossos olhos quando estamos morrendo, era tudo lorota. A única coisa em que ele conseguia pensar era na maldita mordida que levou no pescoço, e de como aquilo se tornou uma benção e uma maldição em sua vida.

Jerusalem escapou de muitas enrascadas graças aos estranhos poderes que aquela mordida acabou lhe concedendo, mas isso parecia ter um preço: às vezes sentia uma fome irracional, uma fome insana e imoral, por carne que não era, digamos, carne comum, se é que vocês me entendem. Afinal, aquela mordida que Jerusalem Jones recebeu era de alguém que estava com fome de Jerusalem Jones. E, mesmo tendo sido ajudado para que não virasse uma daquelas coisa, as sequelas foram inevitáveis.

Mas porque Jerusalem Jones foi morto afinal? E por quem?

Bom, um dia isso tinha que acontecer. Se metendo sempre com quem não devia, Jerusalem Jones ia acabar na ponta de uma corda. O caso foi que Jones estava morando há um tempo em Dobstownville, longe de encrencas. Foi quando recebeu a proposta do xerife de ser seu assistente. Como estava precisando de grana Jerusalem Jones aceitou, avisando que seria temporário, pois ele não pretendia se estabelecer na cidade. O xerige Moonaghan aceitou de bom grado e, com um tapa efusivo nas costas de Jerusalem Jones, enfiou uma estrela em seu peito, quase perfurando seu coração.

Os dias se seguiram tranquilos. O trabalho de Jones era apenas recolher bêbados problemáticos, e fazê-los passar um dia ou dois na cadeia. Geralmente Jones acabava jogando cartas com eles, dentro da cela, assim que eles "acordavam" da bebedeira. Chegava a ser um trabalho divertido. Não acontecia muita coisa em Dobstownville.

Tudo ia muito bem, até que o xerife precisou se ausentar e a coisa toda desandou. Um garoto entrou às pressas e, ofegante, disse que havia problemas na casa do representante da cidade, o sr. Douglas. Como a cidade era muito pequena, não havia prefeito, apenas um representante. O garoto disse que ele estava batendo na mulher, ou algo assim. Jerusalem Jones amaldiçoou o representante por acabar com seu sossego, e rumou em direção à sua casa.

Jones chegou e bateu à porta. Esta estava aberta, e havia um silêncio sepulcral lá dentro. Era aquele silêncio que precede coisas ruins, que Jerusalem Jones conhecia tão bem. Entrou devagar, e ouviu um som vindo do andar de cima, algo como um gorgolejo, contínuo. Um som de arrepiar os cabelos da nuca. Subiu as escadas e foi ver o que era.

Vinha do que ele imaginava ser o quarto do casal. A porta também estava aberta e o tal gorgolejo mais alto e incessante. Sem saber como, Jerusalem Jones teve uma visão exata do que veria, antes mesmo de abrir a porta. E lá estava, a mulher de joelhos, com apenas o branco dos olhos à mostra, com um vestido branco, todo ensanguentado, uma faca na mão e o corpo do representante Douglas, estirado à sua frente e, totalmente estripado. Havia velas e ao redor dele, e a mulher estava ajoelhada dentro de um circulo desenhado no chão.

Quando viu Jerusalem Jones a mulher correu alucinada em sua direção, e o esbofeteou tão forte que Jerusalem Jones foi a nocaute na mesma hora. Ao acordar, Jerusalem Jones estava todo amarrado sobre um cavalo e com uma corda amarrada ao pescoço. Estava para ser enforcado.

O xerife comandava a turba que queria o sangue de Jerusalem Jones. O xerife disse à Jones que não entendeu os motivos dele - Jerusalem Jones - ter cometido aquele hediondo assassinato duplo. Matar o representante e sua esposa, sem mais nem menos. O xerife disse que Jerusalem Jones seria enforcado imediatamente, pois o povo da cidade estava indignado e, de qualquer forma, ele seria linchado mesmo. O xerife piscou um olho matreiro para Jerusalem Jones.

Jones começou a colocar a cabeça pra funcionar e lembrar de algumas coisas. Como por exemplo, que havia um boato na cidade de que o xerife e a mulher do representante teriam um caso. Porém, isso nunca era admitido abertamente por ninguém. Mas se os dois planejaram matar o representante e jogar a culpa em alguém, para depois ficarem juntos, como o xerife falou em duplo assassinato? A mulher também morrera. Mas, Jerusalem tinha certeza que não a matara.

Foi quando Jerusalem Jones lembrou de um livro que achou na gaveta do xerife, sobre feitiçaria, e coisas como controle da mente através de magia negra. Na hora Jerusalem Jones achou apenas que o xerife gostava de livros exóticos. Mas se a mulher do representante se matou, porque então ele faria aquilo tudo? Com que objetivo?

Enquanto se preparavam para enforcar Jerusalem Jones, a multidão gritava que o novo representante da cidade seria o herói, que descobriu e prendeu o assassino, xerife Douglas. Ah, então era por isso. Poder. Alguém deu uma palmada no cavalo onde Jerusalem Jones estava, ele disparou e a corda puxou seu pescoço, apertando-o, deixando-o sem ar, até que Jones era só um corpo balançando na árvore. Ele foi enforcado fora da cidade e o deixaram lá, sem nem mesmo um enterro decente.

... ...

... o galho quebrou. Jerusalem Jones não sabe quanto tempo ficou ali pendurado. Nem mesmo sabia porque não estava morto. Quer dizer, tinha a ligeira desconfiança que isso teria a ver com sua cicatriz. Jones se sentia bem, pra dizer a verdade. Sendo que apenas um detalhe, que antes lhe incomodava, agora ele sentia que seria bem útil: ele estava com fome. Aquela outra fome, e ele pretendia saciá-la na cidade, almoçando com o novo representante dela.


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