quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Jeeusalem Jones: Salvação

JERUSALEM JONES - SALVAÇÃO


Jerusalem Jones estava a caminho de Candace Falls City. Relembrando agora parecia apenas um sonho ruim. Aquele homem estranho com roupas esquisitas, sem uma das pernas, saindo dos escombros de uma construção que nunca estivera naquela área e, logo em seguida, aquela mulher com aspecto quase demoníaco, com olhar faminto, que deixou os dois ali e correu em direção à Candace Falls, numa velocidade que Jerusalem nunca vira um ser humano correr. Pelas marcas de dentes que viu no que restou da perna do estranho, ele logo deduziu, aquela louca comia gente.

Jerusalem Jones tinha resolvido deixar aquele assunto para as autoridades de Candace Falls e, provavelmente, a tal de Tanya já deveria estar morta e enterrada a essa altura. Ou talvez não. Jerusalem Jones parecia sentir em suas entranhas que acontecera o pior. Ou vai ver ele estava com problemas intestinais e não sabia. Mas foi com essas dúvidas na cabeça que ele resolveu voltar à cidade e ver se estava tudo bem com Betina e as meninas do bordel.

Desde que partira ele sentia que estava sendo seguido. Resolveu ver quem seria o intrometido. Disparou e se escondeu atrás de uma rocha mais proeminente. Quando viu o sujeito passando, guardou as armas. Era apenas "Traseiro Pelado". Ele sorriu para si mesmo e lembrou como detestava índios, mas para "Traseiro Pelado" ele abria uma excessão. Era quase um amigo. Lembrava de como ele deu esse apelido ao índio, assim que o conheceu. Este estava com os fundilhos da calça que vestia rasgados e sem mais nada por baixo. Jerusalem Jones na mesma hora cunhou o apelido que o índio tanto detestava. Saiu de seu esconderijo e emparelhou com o pele-vermelha:

- Então era você, Traseiro Pelado? Quer morrer, desgraçado?
- Já te falei Jones, é Búfalo Pequeno! Será que você nunca vai esquecer esse maldito apelido? - Jerusalem gostava de ver como Traseiro Pelado falava melhor que muito branco que ele conhecia.
- Você sabe que é com carinho....hahahahahahahah! E aí, que faz me seguindo? Alguém te contratou pra me matar com seus peidos?
- Nada. Eu apenas vi você saindo da cidade e resolvi te seguir. Senti seu espírito pesado, e achei que, talvez, eu pudesse ser de ajuda.

Outra coisa que Búfalo Pequeno tinha de peculiar, achava realmente que era alguma espécie de feiticeiro, e estava sempre vendo "espíritos pesados" por toda parte. Quando bebia fazia a dança da chuva, que terminava sempre com ele levando um balde d'água na cabeça. No fundo, o pessoal gostava dele, e era tudo uma brincadeira inofensiva. Fora que só assim ele tomava um banho.

- Você vai começar com isso de xamã, Traseiro? Você sabe que não acredito nisso e, mesmo se eu acreditasse, não acreditaria que você pudesse ter competência pra ser um deles.
- Pode rir, Jones, mas sinto que o Grande Espírito me compeliu a seguir seus passos por algum bom motivo.
- Dinheiro emprestado?
- Cinco dólares e eu não te perturbo mais. - E os dois caíram na gargalhada.

Jerusalem Jones contou tudo o que acontecera e os motivos de estar voltando a Candace Falls. Traseiro Pelado ouvia tudo sem interromper e ao final suspirou tentando dar uma de sábio feiticeiro:

- Meu avô, feiticeiro poderoso de nossa tribo, me falou de ter visto algo parecido. Demônios que comiam gente. Disse que os viu atacar, e que escapou por pouco. Sempre que contava a história, ele repetia o feitiço que usou para escapar. Nessas horas ele sempre entrava em transe, como se voltasse àquele dia.
- Então você acredita nisso tudo?
- Eu sou índio, Jones, já vi coisas mais estranhas que isso.

Jerusalem Jones sentiu um calafrio estranho. Nesse momento estava chegando onde encontrou o homem estranho e onde ele caíra morto. Não estranhou quando viu que não havia mais sinal de nada, nem do homem, nem dos escombros da construção de onde ele saíra. Mas, ao passar bem no local onde ele deixou o cadáver, pôde ver que não era delírio seu, pois no chão uma marca, um contorno negro de um corpo, deixava claro que alguém estivera ali. Búfalo Pequeno olhou aquilo e agitou seus amuletos que trazia no pescoço, como que espantando maus espíritos.

Passaram o resto do caminho calados. Pareciam não saber muito o que dizer. E foi assim que entraram à cidade. Até que Búfalo Pequeno quebrou o silêncio:

- Cadê todo mundo, Jones?
- Não faço a mínima idéia, Trasei...
- Búfalo Pequeno.

Parecia que estavam em uma cidade-fantasma. Era o meio da tarde e não havia viva alma em lugar algum. Casas com janelas e portas abertas, o saloon silencioso, e não havia cavalos, nenhum deles. Era um silêncio assustador. E havia aquele cheiro que o vento trouxe de repente. Um cheiro de carne podre que fez Jerusalem e Búfalo Pequeno sentirem náuseas:

- Qua diabos é isso, Jones? Que cheiro desgraçado é esse?

Sem saber bem o porque, Jerusalem Jones foi na direção da igreja que ficava logo adiante. O cheiro parecia vir de lá. Búfalo Pequeno o seguiu. Quando os dois apearam dos cavalos e iam amarrá-los, os animais relicharam, empinaram e se puseram em disparada, para fora da cidade. Os dois ficaram sem entender, mas Jerusalem Jones nem podia culpá-los, aquele cheiro estava insuportável.

A porta da igreja estava semi-aberta. Jones e Búfalo sacaram as armas, e foram empurrando a porta lentamente, atentos para qualquer surpresa. Quando puderam ver o interior do recinto, logo se arrependeram. No altar, sentada em uma cadeira, estava Tanya, como se fosse alguma espécie de líder. espalhados por toda a igreja, várias pessoas da cidade, todas tão monstruosas quanto Tanya. Mas isso não era tudo. O cheiro não vinha deles, mas da carne humana que ocupava toda a igreja. Pedaços de pessoas apodrecendo por todo o canto. Era como uma despensa. E os seguidores de Tanya, assim como ela mesma, eram os que se deleitavam com aquele banquete macabro.

Os dois se seguravam para não vomitar e para não fazer barulho. Mesmo que aquelas coisas só se preocupassem em comer, e parecessem não prestar atenção em mais nada, era melhor não abusar. Jerusalem Jones tentou olhar com mais cuidado e pôde divisar em um canto Betina, umas duas garotas do bordel com ela, e mais uns três moradores da cidade. Provavelmente os últimos sobreviventes e a última refeição daquela horda. Eles tinham de salvar, pelo menos, Betina. Mas como?

Jerusalem Jones puxou Búfalo Pequeno para longe da igreja e disse:

- Acho que essas pessoas aí dentro não tem mais salvação, a não ser as que ainda estão, digamos, normais. Devem estar sendo guardadas para serem comidas quando o estoque do que tá espalhado pela igreja acabar. Mas eu sei como tirá-las daí.
- Jones, eu acho que não vamos conseguir, você viu aquilo lá? Parece o inferno. Aquelas coisas são muitas e nós somos só dois.
- Exato, vamos diminuir a contagem. Sei onde tem dinamite suficiente para acabar com todos eles.

Jerusalem Jones leva Búfalo Pequeno até a delegacia, e lá procura as bananas de dinamite que precisa e delineia o plano:

- Eu vou explodir a parede esquerda, onde Betina e as outras pessoas estão. Vou tentar explodir o mais próximo possível, sem explodi-las junto no processo. Abro um buraco e entro. Já você fica na porta onde estávamos, com essas dez dinamites aqui, amarradas, acende o pavio principal assim que eu for na direção da parede esquerda. Vai dar tempo de eu explodir. Você só joga depois de contar até cinco após ouvir a minha explosão. Até cinco, entendeu? Isso deve dar tempo para eu entrar e tirar o pessoal, que não estão amarrados mesmo. Parecem estar meio fracos, mas vão conseguir andar. Quando eu sair, suas dinamites vão mandar a igreja e os que estiverem lá dentro, pelos ares. Certo?

Búfalo Pequeno acenou que sim, mas com a garganta seca. Foram na direção da igreja e logo saberiam se o plano ia dar certo ou não. Búfalo se postou na porta e Jerusalem correu para a parede esquerda da Igreja. Búfalo Pequeno viu ele sumir e acendeu o pavio principal. Agora era esperar a explosão, contar até cinco e jogar.

Jerusalem Jones tentou lembrar onde vira Betina e os outros e calculou aproximadamente onde ele deveria explodir. Betina era a primeira pelo modo como estavam perfilados, sentados e, aparentemente, cansados. Jerusalem cortou o pavio o mais curto possível de apenas uma dinamite e acendeu.

Búfalo Pequeno estava preocupado. O fogo já havia passado do pavio principal para os pavios individuais. Sua mão tremia, e começava a escorregar. Ele trocou a dinamite de mão. Suava muito. Ele estava atrás da porta e era apenas empurrá-la e jogar. Se Jones demorasse ele a jogaria de qualquer modo.

Jerusalem Jones colocou a dinamite no chão e se distanciou o suficiente. A explosão foi quase imediata. Abriu um rombo na lateral da igreja. Ele entrou correndo com a fumaça atrapalhando um pouco. Lá dentro as coisas se alvoroçavam confusas, com medo. Ele entrou sem pensar muito nelas, viu Betina encostada à parede e os outros logo após ela. Pareciam não ter se dado conta da explosão.

- VAMOS! VAMOS!!! VENHAM POR AQUI!

Búfalo Pequeno começou a contar... um...

Jerusalem Jones sabia que a confusão daquelas coisas ia durar pouco e que, já já, Búfalo Pequeno ia mandar todos ali pelos ares. Ninguém se mexia, que inferno! Ninguém parecia querer ser salvo. Que se danem todos.

dois...

Ele agarrou Betina pelo vestido...

três...

Notou que Tanya já se refazia da confusão...

quatro...

Arrastou Betina pelo buraco afora e sentiu uma mão agarrar sua camisa por trás...

cinco....

Ele conseguiu empurrar Tanya para dentro e puxar Betina, correndo para longe da Igreja...

BUUUUUUUUMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!

Pedaços de madeira voaram para todos os lados e, claro, pedaços de pessoas vieram junto. Jerusalem Jones segurou Betina de modo a protegê-la. Viu Búfalo Pequeno correndo em sua direção. Tudo dera certo.

- Betina, Betina! Conseguimos!!!.

Quando olhou Betina, sentiu um vazio estranho em seus olhos. Ela parecia normal, mas seus olhos estavam mortos. De repente Jerusalem Jones notou uma mordida profunda em seu pulso, muito infeccionada, ou ao menos era o que parecia:

- Fome, Jones, tô com fome - disse Betina, e avançou no pescoço dele.

Por instinto Jerusalem Jones sacou da arma e atirou várias vezes em Betina. Mas Betina não morria, e continuava avançando. De longe Búfalo Pequeno gritou:

- NA CABEÇA! ATIRA NA CABEÇA!

E foi o que Jerusalem Jones fez. Betina estrebuchou e caiu.

- Como você sabia disso?
- Eu não sabia, só achei que era uma opção mais viável.
- Diacho, detesto quando você quer aparecer falando difícil.

Jerusalem Jones levou a mão ao pescoço e sentiu que Betina conseguira cravar os dentes, mesmo que não profundamente. Sentiu a área coçar e pensou que precisava de um curativo urgente.

- Será que todos eles estavam na igreja, Jones? - Peguntou Búfalo Pequeno.
- Eu não sei dizer, e nem mesmo vou me dar ao trabalho de procurar. - respondeu, olhando na direção da igreja. - Mas, apenas para ter certeza, pega mais um bocado de dinamite e joga nessa porcaria de igreja.

Depois de destroçar o que restava da igreja, Jones e Búfalo enterraram Betina:

- Afinal o que aconteceu aqui, Traseiro?
- Pelo que você me contou, aquela tal de Tanya não apenas comia as pessoas, como passava a maldição dela para quem sobrevivia. Pelo que vimos, ela parecia estar formando algum tipo de exército, sei lá. Acho que sua amiga, Betina, estava pra fazer parte dele, se é que você me entende.

Jerusalem Jones coçou o ferimento no pescoço, o qual havia feito um curativo apressado.

- Ela te mordeu, não foi? - Perguntou Búfalo Pequeno.
- Mordeu sim. Acho que eu estou com um problema do tamanho de um trem, Traseiro Pelado.


Continua...

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